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Empresa prepara-se para entrar em bolsa, o que poderá catapultar a fortuna do também líder da Tesla e da Starlink para a estratosfera. Serão estas ambições realmente cósmicas ou apenas mais um buraco negro para os investidores?
Elon Musk tem o hábito de transformar ficção científica em realidade. Dos foguetões reutilizáveis aos veículos elétricos autónomos e aos robôs humanoides, os empreendimentos do multimilionário alcançam frequentemente o que antes era considerado impossível. Com a oferta pública inicial (IPO, na sigla inglesa) da SpaceX, agora, Musk ambiciona metas ainda mais elevadas.
A empresa, que se manteve estritamente privada durante 24 anos, prepara-se agora para abrir o capital. Num documento S-1 com centenas de páginas enviado aos reguladores dos Estados Unidos esta quarta-feira, a SpaceX anuncia planos para captar cerca de 75 mil milhões de dólares junto de novos investidores, o que elevaria o valor da empresa até 1,75 biliões de dólares.
Nada mau para uma empresa que ainda opera com prejuízo e que Musk — já o homem mais rico do mundo — continuará, na prática, a controlar.
Marte, mineração de asteroides, data centers orbitais
Musk quer que a SpaceX faça mais do que enviar astronautas para o Espaço. Planeia construir a infraestrutura necessária para assegurar o futuro da vida humana para lá da Terra. O objetivo final, segundo Musk, é criar cidades autossustentáveis em Marte capazes de acolher até um milhão de pessoas.
Para alcançar esse objetivo, a SpaceX planeia usar a Starship — a sua gigantesca nave espacial reutilizável — para realizar as primeiras viagens não tripuladas até 2030. A viagem só de ida até ao Planeta Vermelho cobre, em média, cerca de 225 milhões de quilómetros e demora aproximadamente seis a nove meses. As primeiras missões irão testar os sistemas de aterragem e começar a instalar a infraestrutura básica, seguindo-se viagens tripuladas alguns anos depois.
A SpaceX também quer usar recursos existentes em corpos celestes muito mais próximos da Terra para apoiar a expansão multiplanetária da humanidade. Musk acredita que os asteroides, que atravessam o Espaço em órbitas variáveis, poderão um dia ser explorados para mineração.
A gravidade quase nula dos asteroides torna a aterragem e a extração de materiais muito mais fáceis e baratas. No entanto, a mineração em larga escala de platina, níquel, ouro e gelo — água — em asteroides, todos vitais para sustentar a vida, construir habitats e produzir combustível em Marte, não deverá ser alcançada antes da década de 2040, ou mesmo mais tarde, segundo previsões de analistas da indústria espacial.
Um primeiro passo crucial, porém, será a Lua, que fica a apenas três dias de viagem da Terra. A SpaceX prevê que habitats, fábricas e depósitos de combustível possam ser construídos na Lua, uma opção muito mais barata do que lançar toneladas de materiais a partir da Terra.
Musk também acredita que o Espaço tem a resposta para um dos maiores problemas enfrentados pela inteligência artificial (IA): a enorme quantidade de energia e refrigeração necessária para que grandes data centers processem milhares de milhões de pedidos de utilizadores em simultâneo.
Em vez de construir mais dessas instalações de elevado consumo energético na Terra, a SpaceX lançou a ideia de colocar gigantescos supercomputadores de IA em órbita, em grandes constelações de satélites. Esses data centers poderiam usar luz solar ilimitada como fonte de energia e o vácuo frio do Espaço para refrigeração gratuita, tornando o treino de IA em larga escala muito mais barato e eficiente do que no nosso planeta.
O primeiro trilionário do mundo?
Como se as ambições da SpaceX já não fossem suficientemente ousadas, os planos do IPO para aumentar a fortuna de Musk são verdadeiramente extraordinários. Atualmente, detém cerca de 42% da SpaceX. Com a avaliação-alvo de 1,75 biliões de dólares, só essa participação valeria aproximadamente 735 mil milhões.
Somando as participações de Musk na Tesla, na xAI e noutros empreendimentos, o IPO provavelmente elevaria o seu património líquido total para mais de um bilião de dólares, tornando-o o primeiro trilionário da história.
Uma estrutura especial de ações de dupla classe concede a Musk mais de 80% dos direitos de voto, apesar de deter uma participação muito menor no capital da SpaceX. Esta configuração torna-o, na prática, inamovível enquanto CEO, permitindo-lhe prosseguir projetos de longo prazo e elevado risco sem a pressão de investidores de curto prazo ou acionistas ativistas.
O controlo absoluto de Musk já atraiu críticas anteriormente, sobretudo na Tesla, onde acionistas processaram a empresa devido aos seus enormes pacotes de remuneração e potenciais conflitos de interesses, argumentando que o conselho de administração não tem verdadeira independência. Preocupações semelhantes surgiram em relação ao seu controlo da plataforma de redes sociais X, onde tomou pessoalmente decisões como mudanças estratégicas e despedimentos em massa.
O estrondoso IPO também criará enorme riqueza para os primeiros investidores e executivos. De acordo com o jornal económico Financial Times, a presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, e o director financeiro, Bret Johnsen, veriam as suas ações ultrapassar mil milhões de dólares em valor. O investidor de longa data Antonio Gracias poderia ficar com 70 mil milhões ou mais, enquanto a participação do cofundador do PayPal Luke Nosek valeria cerca de 5 mil milhões de dólares.
A aposta mais ousada de Wall Street
Wall Street prepara-se para o que poderá ser o maior IPO da história, com o banco de investimento Goldman Sachs a actuar como principal subscritor.
Se a SpaceX conseguir o financiamento adicional de 75 mil milhões de dólares, isso representaria quase o triplo do anterior recorde da Saudi Aramco, de aproximadamente 29,4 mil milhões de dólares em 2019. Antes disso, a maior oferta pública inicial nos Estados Unidos tinha sido a da Alibaba, de 22 mil milhões de dólares, em 2014.
Uma avaliação de 1,75 biliões de dólares colocaria a SpaceX entre as dez maiores empresas cotadas do mundo, ao lado da Nvidia, Apple, Alphabet — proprietária da Google — e Microsoft. Isso representaria um enorme voto de confiança por parte dos investidores, já que a SpaceX continua a ser uma empresa deficitária, tendo registado um prejuízo líquido de 4,94 mil milhões de dólares em 2025 devido aos elevados investimentos na Starship, no lançamento de satélites e em recursos de IA.
Devido aos enormes riscos de operar fora do planeta Terra, juntamente com o rápido avanço da IA, o pedido de IPO descreve os perigos muito reais que a SpaceX enfrenta. Estes incluem “uma gama única de riscos relacionados com o Espaço”, incluindo “radiação de fontes solares e cósmicas; micrometeoritos e detritos orbitais”, bem como “ferimentos ou morte de seres humanos”.
O documento apresentado esta quarta-feira também alerta que a empresa tem “um histórico de prejuízos líquidos e poderá não alcançar a rentabilidade no futuro”.
A avaliação de mercado elevadíssima tem levado alguns analistas a questionar se as ambições da SpaceX são mais utópicas do que propriamente ciência espacial — um debate que deverá intensificar-se quando as negociações começarem na Nasdaq no próximo mês.