ABIR SULTAN/EPA

Mais de um milhão sem trabalho com os preços dos bens a disparar e a moeda a desvalorizar. Ativistas alertam para uma nova era de autoritarismo digital em que estar online não é um direito, mas sim um privilégio.
Os iranianos enfrentam neste momento aquele que está a ser descrito por vários meios (como a Cloudfare ou NetBlocks) como o mais longo e intenso apagão da Internet alguma vez registado, e a restrição está a agravar uma crise económica já cicatrizada por guerra, inflação, desemprego e sangrentos protestos nacionais.
Durante quase três meses, empresas no país ficaram desligadas dos clientes e fornecedores; comerciantes perderam contacto com parceiros internacionais; muitos negócios encerraram e empurraram mais trabalhadores para o desemprego.
Segundo a NetBlocks, que monitoriza a conectividade digital, as restrições iniciadas em janeiro e retomadas no final de fevereiro reduziram a ligação do país para apenas 1% a 2% da capacidade normal, contra níveis anteriores entre 90% e 100%, segundo os dados citados pelo WSJ.
O bloqueio coincidiu com protestos desencadeados por uma crise financeira e com a escalada militar que opõem o Irão aos Estados Unidos e Israel, que juntos atacaram o país a 28 de fevereiro. As autoridades iranianas justificam as medidas com as condições de guerra.
A agência Reuters diz que o apagão começou em duas fases: primeiro a 8 de janeiro de 2026, no contexto de protestos, e depois foi retomado a 28 de fevereiro, após os ataques da dupla EUA-Israel.
O impacto económico é profundo. Mais de um milhão de pessoas estão sem trabalho, os preços dos alimentos dispararam e a moeda nacional caiu para mínimos históricos. A situação foi agravada pelo bloqueio norte-americano aos portos iranianos, em resposta ao controlo exercido por Teerão sobre o estreito de Ormuz, obrigando o país a depender de rotas alternativas por estrada e ferrovia.
A economia digital é uma das mais afetadas. O economista Mohammad Reza Farzanegan estima que cerca de dez milhões de empregos estejam direta ou indiretamente ligados a esse setor. A limitação da Internet, diz, reduz a produtividade, abala a confiança empresarial e aumenta as desigualdades, já que apenas utilizadores mais ricos ou com melhores contactos conseguem obter ligações fiáveis.
Alguns iranianos recorrem a terminais Starlink introduzidos clandestinamente no país, relata o jornal norte-americano, mas a posse desses equipamentos é ilegal e pode levar a penas de prisão. Paralelamente, o Governo criou um sistema pago, conhecido como “Internet Pro”, que concede acesso menos limitado a utilizadores selecionados mediante registo e fornecimento de dados pessoais.
Ativistas alertam que o país está a entrar numa “nova era de autoritarismo digital”, em que o acesso à Internet deixa de ser um direito e passa a ser um privilégio. Especialistas avisam que os efeitos do bloqueio poderão persistir depois da guerra, afastando investimento e tornando o Irão um ambiente de maior risco para negócios internacionais.
“Estamos a entrar numa nova era de autoritarismo digital, na qual o acesso à Internet no Irão deixou de ser um direito e passou a ser um privilégio”, confessa Amir Rashidi, diretor de direitos digitais e segurança do Miaan Group, baseado no Texas.