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Baleeiros holandeses perto de Spitsbergen, Svalbard (pintura de Abraham Storck, 1690)

Ossadas de baleeiros revelam o custo humano da primeira “indústria petrolífera” europeia no arquipélago de Svalbard.

O aquecimento acelerado do Ártico está a expor restos humanos enterrados há séculos no arquipélago de Svalbard, onde é proibido morrer e que pela mesma razão o ZAP tem vindo a apelidar de “arquipélago dos imortais”.

A vida dura, a doença e a morte dos baleeiros europeus dos séculos XVII e XVIII ganha agora novos contornos, graças ao estudo publicado na PLOS One.

Em Likneset, na costa noroeste de Spitsbergen, uma zona conhecida como “Corpse Point” — ou “Ponto dos Cadáveres” —, o degelo do permafrost e a erosão costeira estão a trazer à superfície sepulturas associadas à antiga indústria baleeira.

A região tornou-se um dos centros da caça à baleia depois de o explorador neerlandês Willem Barentsz ter avistado Spitsbergen em 1596, lembra o IFL Science. Nas décadas seguintes, Svalbard passou a atrair navios de vários países europeus, interessados sobretudo na gordura das baleias, usada como óleo para iluminação e lubrificação industrial. A atividade cresceu a partir de 1612 e, no final do século XVII, centenas de embarcações dedicadas à baleação e à caça à foca podiam operar nos mares gelados a leste da Gronelândia.

Sofrimento, escorbuto, raquitismo, osteoartrite

Agora, as alterações climáticas estão a transformar antigos cemitérios em arquivos arqueológicos em risco. O estudo conduzido por Lise Loktu, do Norwegian Institute for Cultural Heritage Research, e Elin Therese Brødholt, do Oslo University Hospital, analisou restos ósseos de 19 indivíduos encontrados em Likneset, expostos entre a década de 1980 e a de 2010.

Todos eram biologicamente homens e a maioria terá morrido muito jovem, por volta dos 20 a 25 anos.

As ossadas revelam um quadro severo de sofrimento físico. A equipa encontrou sinais de escorbuto em 18 dos 19 indivíduos analisados, uma doença causada por deficiência prolongada de vitamina C e associada a fadiga extrema, hemorragias nas gengivas e reabertura de feridas antigas.

Foram também identificados indícios de raquitismo em pelo menos um caso e sinais de subnutrição grave durante a infância.

O trabalho a bordo e em terra deixou marcas claras. Dezoito dos 19 esqueletos apresentavam sinais de doença degenerativa das articulações ou osteoartrite, problemas hoje mais comuns em pessoas bastante mais velhas. As alterações afetavam sobretudo a parte superior do corpo — ombros, clavículas, esterno e cotovelos —, sugerindo esforço físico intenso e repetitivo. Foram ainda observadas fraturas curadas e lesões na coluna.

Os investigadores defendem que muitas mortes terão resultado não de episódios traumáticos isolados, mas de uma acumulação de stress fisiológico, doença, má alimentação e trabalho pesado. Para os autores, estas ossadas mostram “o custo humano” de uma das primeiras grandes indústrias extrativas europeias no Árctico.

O estudo alerta também para uma perda iminente de património. À medida que o permafrost aquece e a costa recua, sítios arqueológicos ricos em matéria orgânica degradam-se rapidamente. Os investigadores defendem monitorização sistemática, documentação dirigida e integração destes dados nos planos de adaptação climática, antes que arquivos humanos insubstituíveis desapareçam.


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