A NASA deu a conhecer novos detalhes sobre o ambicioso plano para criar a primeira base humana permanente na Lua. O projeto faz parte do programa Artemis e deverá ganhar forma ao longo da próxima década, transformando a região do polo sul lunar numa espécie de “campo avançado” para futuras missões a Marte.
A agência espacial norte-americana quer abandonar a lógica das missões curtas do tempo Apollo. Desta vez, a ideia é permanecer na Lua durante longos períodos, criando infraestruturas capazes de suportar astronautas, experiências científicas e operações contínuas.
A Lua como próximo passo antes de Marte
Segundo a NASA, a futura Moon Base será construída perto do polo sul lunar, uma região considerada estratégica devido à possível existência de gelo de água em crateras permanentemente sombreadas. Esse recurso poderá ser essencial para produzir água potável, oxigénio e até combustível para foguetões.
A agência considera que aprender a sobreviver na Lua será fundamental antes de enviar humanos para Marte, numa missão muito mais distante e arriscada. Durante a apresentação do projeto, o administrador da NASA, Jared Isaacman, deixou clara a nova filosofia da agência:
Desta vez, o objetivo é ficar.
Três fases para construir uma cidade lunar
O plano da NASA está dividido em três fases principais.
Fase 1: exploração robótica e testes
Entre 2026 e 2029, a prioridade será recolher dados e testar tecnologias essenciais. Esta fase inclui dezenas de missões robóticas, aterradores automáticos, drones e veículos lunares.
Um dos elementos mais curiosos são os chamados “MoonFall”, pequenos drones saltadores concebidos para explorar crateras e terrenos difíceis. Em vez de voarem como helicópteros, estes equipamentos irão deslocar-se aos saltos devido à baixa gravidade lunar.
A NASA acredita que estes drones serão fundamentais para mapear zonas perigosas e ajudar a definir o perímetro da futura base.
Fase 2: chegada dos astronautas e instalação dos primeiros habitats
Numa segunda etapa, a NASA pretende iniciar missões humanas mais frequentes à superfície lunar. Serão instalados módulos habitacionais, sistemas de suporte de vida e infraestruturas de comunicação.
Esta fase deverá também incluir os primeiros testes de extração de recursos lunares, sobretudo gelo de água, que poderá ser convertido em água potável, oxigénio e combustível.
Fase 3: presença permanente na Lua
A última fase prevê a criação de uma base lunar parcialmente autónoma, capaz de suportar astronautas durante longos períodos sem depender constantemente da Terra.
A NASA quer transformar a Lua num centro científico permanente e numa plataforma de preparação para futuras viagens a Marte.
Veículos autónomos vão preparar o terreno
A agência espacial já atribuiu contratos de centenas de milhões de dólares a várias empresas privadas para desenvolver veículos lunares autónomos.
Entre as empresas envolvidas estão a Blue Origin, Firefly Aerospace, Lunar Outpost e Astrolab. Os veículos poderão funcionar sem astronautas a bordo, preparando caminhos, transportando carga e ajudando na construção da infraestrutura lunar.
O objetivo será colocar no solo lunar um rover inovador, que se apresenta com o tamanho de um SUV, para transporte de equipamentos, alimentos e até pessoas.
Energia nuclear será essencial
Outro detalhe particularmente interessante é o uso de energia nuclear na superfície lunar. Como algumas zonas da Lua passam longos períodos sem luz solar, a NASA quer instalar pequenos reatores nucleares para alimentar habitats, sistemas de comunicação e equipamentos científicos.
Além disso, estas unidades poderão fornecer aquecimento durante as noites lunares extremas, onde as temperaturas podem cair drasticamente. A separação física entre os habitats humanos e os sistemas nucleares também já está prevista no desenho da base, por razões de segurança.
Artemis III e Artemis IV serão decisivas
O programa Artemis continua a ser a base desta estratégia. A missão Artemis III, atualmente prevista para 2027, deverá servir como preparação para futuras operações lunares, incluindo testes com aterradores desenvolvidos pela SpaceX e pela Blue Origin.
Já a Artemis IV, prevista para 2028, poderá marcar o regresso dos astronautas à superfície lunar pela primeira vez desde 1972. Segundo a NASA, a ideia é passar gradualmente de visitas temporárias para uma presença semipermanente e, mais tarde, permanente.
Conceito artístico do Sistema de Aterragem Humana (HLS) da SpaceX na Lua durante o programa Artemis da NASA. (Crédito da imagem: SpaceX)
Uma base que poderá ocupar centenas de quilómetros
Os conceitos apresentados mostram uma infraestrutura muito maior do que inicialmente se pensava. A futura base poderá ocupar centenas de quilómetros quadrados.
A explicação é simples. Os vários sistemas precisam de estar afastados entre si. Os habitats humanos, zonas de extração de recursos, centrais energéticas, áreas científicas e pistas de circulação deverão ficar distribuídos por uma vasta região lunar.
Tal como aconteceu com a Estação Espacial Internacional e com os lançamentos comerciais recentes, a NASA quer que o setor privado seja peça-chave neste projeto.
A Blue Origin, empresa fundada por Jeff Bezos, foi escolhida para liderar algumas das primeiras missões não tripuladas. Já a SpaceX continua envolvida no desenvolvimento do Starship lunar.
A NASA acredita que esta abordagem poderá reduzir custos e acelerar o desenvolvimento de uma verdadeira economia lunar.
O regresso à Lua está cada vez mais próximo
Depois de décadas sem presença humana na Lua, a NASA quer agora transformar o satélite natural da Terra num laboratório permanente e num ponto intermédio para missões mais distantes.
A agência espacial norte-americana admite que o caminho será longo e tecnicamente complexo, mas considera que os próximos anos poderão marcar o início de uma nova era da exploração espacial.



