Ettore Ferrari / EPA

Papa Leão XIV, Robert Francis Prevost, dos EUA.
Primeiro grande documento do pontificado de Leão XIV apela ao “desarmamento” da IA, com o apoio de múltiplas referências culturais.
O Papa Leão XIV apelou esta semana ao “desarmamento” da inteligência artificial (IA) para “impedir que esta domine a humanidade”, com algumas referências curiosas.
Na sua primeira encíclica, “Magnifica Humanitas”, dedicada à proteção da dignidade humana na era da IA, o Papa afirma que as inovações tecnológicas não são neutras, podendo “aumentar a participação e a justiça”, mas também “ampliar as desigualdades, o controlo e a exclusão”, alertando para o perigo da IA “se concentrar nas mãos de poucos”.
Naquele que é o primeiro grande documento do seu pontificado, de 110 páginas e cerca de 42 mil palavras , Leão XIV aborda um dos principais desafios da atualidade, apelando a “uma ordem social justa na era digital”, com um “quadro jurídico adequado”, “regras justas” e “mecanismos de proteção eficazes”.
A carta pastoral é dirigida aos bispos, mas frequentemente destinada a todos os católicos. Nela, curiosamente, Leão XIV cita Picasso, Beethoven, a historiadora e filósofa Hannah Arendt, Martin Luther King Jr., o filme ‘A Lista de Schindler’ e até Gandalf, personagem do Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien, para defender que a arte e a cultura autênticas resistem à “normalização do mal”.
O Papa vê na Nona Sinfonia de Beethoven um desejo de unidade; em Guernica, de Picasso, uma “denúncia da desumanização”; em Schindler’s List, um apelo “ para relegar o passado para o esquecimento“.
“Ainda hoje, o colonialismo assume novas formas. Já não domina apenas os corpos, mas apropria-se dos dados, transformando vidas pessoais em informações exploráveis”, cita a NBC News. “Aqui reside um dos desafios morais mais urgentes do nosso tempo: garantir que o conhecimento partilhado se torne um verdadeiro bem comum, e não um instrumento de dominação.”
“Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que estiver ao nosso alcance para o bem daqueles anos em que estivermos, erradicando o mal nos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois tenham terra limpa para cultivar”, escreve — uma passagem atribuída a Gandalf em “O Regresso do Rei”.
O texto convoca também a norte-americana Hannah Arendt para advertir que a indiferença perante a verdade pode conduzir ao totalitarismo. E recorda Martin Luther King Jr., para sublinhar que a História muda quando indivíduos levam realmente a sério a dignidade de todos.