O Irão esclareceu nesta sexta-feira que não há, por agora, consenso com os Estados Unidos sobre um almejado memorando de entendimento que daria tempo a ambas as partes para alcançar um acordo de paz mais abrangente. A declaração veiculada pelo porta-voz do seu Ministério dos Negócios Estrangeiros, Esmaeil Baghaei, seguiu-se a horas de expectativa sobre um possível anúncio de acordo, depois de o Presidente dos EUA, Donald Trump, ter prometido para muito breve uma “decisão final”. Acabou por não tomá-la, após horas de contradições dos dois lados sobre o conteúdo do documento.
Trump tinha recorrido à sua rede social, a Truth Social, perto das 11h de Washington (16h em Portugal continental), para anunciar que estava reunido na Casa Branca e que tomaria ainda esta sexta-feira uma “decisão final” sobre os esforços negociais em vigor. Quatro horas depois, porém, o Presidente regressou à rede social para uma série de publicações sobre diversos assuntos, desde a reabilitação de monumentos em Washington até ao número de visualizações da sua conta no TikTok, mas sem novidades sobre o eventual acordo com o Irão.
Segundo o New York Times, a reunião de Trump com a sua equipa de segurança durou duas horas e terminou sem conclusões.
Exigências díspares
A promessa de decisão tinha sido acompanhada por uma enunciação de exigências maximalistas de Trump que o regime iraniano já tinha rejeitado. “O Irão tem de concordar que nunca terá uma arma nuclear ou bomba”, escreveu Trump na sua rede social, e os EUA vão entrar no território para extrair o urânio enriquecido iraniano, “em colaboração próxima” com Teerão e com a Agência Internacional de Energia Atómica, e o material nuclear será “destruído”.
Fontes de Teerão reagiram de imediato, citadas pela Reuters e pela agência Fars, afirmando que não existe qualquer provisão sobre o nuclear, incluindo a destruição de urânio, no memorando de entendimento que tem estado a ser negociado. O regime iraniano acusou o republicano de tentar fabricar uma “falsa vitória” no conflito através de “uma mistura de verdades e mentiras”.
Outra declaração contestada de imediato: o Presidente norte-americano escreve que “nenhum dinheiro será trocado, até ordem em contrário”, referindo-se ao desbloqueio de activos financeiros iranianos congelados no exterior, mas a Fars afirma por seu turno que a proposta de memorando contempla a libertação imediata de 12 mil milhões de dólares a Teerão.
Outra exigência de Trump aparentemente ausente do documento negociado: “o estreito de Ormuz tem de ser aberto imediatamente, sem portagens, para o trânsito de navios sem restrições, em ambas as direcções”. Responde o Irão, através de Baghaei: a gestão do estreito de Ormuz cabe apenas a Teerão e a Omã, e não há qualquer provisão em contrário na proposta de memorando.
O chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, tinha estado em contacto horas antes com o homólogo omanita, deixando um comentário geral sobre as negociações indirectas com Washington: um qualquer acordo dependerá do fim das “exigências excessivas e das posições inconsistentes e contraditórias do lado norte-americano”.
Memorando preliminar
O referido memorando de entendimento sobre o qual o Presidente dos EUA prometeu pronunciar-se não é ainda um acordo final de paz entre Washington e Teerão. É antes um acordo preliminar que visa garantir uma trégua e dar tempo às duas partes para negociar dossiers mais espinhosos num eventual prazo de 60 dias.
É em torno deste primeiro acordo que têm decorrido negociações indirectas entre iranianos e norte-americanos, sob um esforço de mediação liderado pelo Paquistão. A semana, em que se assinalaram três meses sobre o início da ofensiva israelo-americana contra o Irão, por agora virtualmente suspensa, tinha ficou contudo marcada por ataques e contra-ataques de ambos os lados, conferindo outra camada de complexidade e de precariedade às conversações.
Também nesta sexta-feira, o principal negociador de Teerão, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse continuar a não haver “confiança sobre garantias ou palavras” dos norte-americanos. O chefe da diplomacia de Islambad, Ishaq Dhar, esteve precisamente em Washington nesta sexta-feira, reunindo-se com o homólogo norte-americano Marco Rubio. Mais uma vez, sem novidades substantivas.