Um estudo publicado na quinta-feira, 28, na revista Science revelou um mecanismo até então desconhecido que ajuda a explicar como pombos e outras aves conseguem se orientar utilizando o campo magnético da Terra. Segundo os pesquisadores, a capacidade está ligada a macrófagos — células do sistema imunológico — presentes no fígado das aves.
A descoberta ajuda a esclarecer uma questão que há décadas intriga a comunidade científica. Embora já se soubesse que aves migratórias e pombos-correios utilizam o magnetismo terrestre para navegação, ainda não estava claro de que forma essa informação era captada pelo organismo.
De acordo com a pesquisa, os macrófagos encontrados no fígado acumulam ferro ao destruírem glóbulos vermelhos envelhecidos. Esse processo transforma as células em estruturas altamente sensíveis ao magnetismo. As partículas presentes nelas podem ser magnetizadas quando expostas a um campo magnético, como o da Terra.
“Nossa descoberta de que o sistema imunológico também pode sentir o campo magnético da Terra é uma camada completamente nova nesse conceito de ‘imuno-sensação’ e abre caminho para novas pesquisas”, afirmou Clivia Lisowski, da Universidade de Bonn, na Alemanha, em entrevista à revista Popular Science.
Os macrófagos desempenham diversas funções no organismo, incluindo a remoção de tecidos mortos, a participação na cicatrização e a defesa contra agentes invasores. Durante a degradação de glóbulos vermelhos antigos, essas células passam a armazenar ferro em nanopartículas específicas, responsáveis pela resposta magnética observada pelos cientistas.
Segundo Lisowski, o funcionamento do mecanismo se assemelha ao de uma bússola. “quando os pombos voam, as nanopartículas se alinham com o campo magnético [terrestre] e se tornam ‘magnetizadas’”, explicou a pesquisadora.
Após identificarem a possível origem da percepção magnética, os cientistas buscaram localizar essas células no organismo das aves. As análises concentraram-se inicialmente no fígado e no baço, órgãos conhecidos por armazenarem grandes quantidades de ferro. Os resultados mostraram que o fígado apresentava a resposta magnética mais intensa.
Ulf Wiedwald, da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha, confirmou que o órgão concentrava a maior quantidade das partículas especializadas associadas ao fenômeno.
Para testar a hipótese, a equipe realizou experimentos com pombos treinados para retornar ao viveiro após serem soltos a mais de 20 quilômetros de distância. Parte das aves teve os macrófagos removidos, enquanto outra parte permaneceu com as células intactas.
Os resultados indicaram diferenças significativas no comportamento dos animais. Os pombos sem os macrófagos apresentaram dificuldade para encontrar o caminho de volta, especialmente em dias nublados. Quando havia luz solar, muitos conseguiam se orientar, sugerindo que os animais também utilizavam outras referências visuais disponíveis no ambiente.
Com base nesses testes, os pesquisadores concluíram que a navegação das aves depende de uma combinação de informações. Além do campo magnético terrestre, sinais associados à posição do Sol também contribuem para a orientação durante o voo.
O estudo trouxe ainda outra descoberta relevante. Os macrófagos ricos em ferro foram encontrados próximos a fibras nervosas, o que sugere que as informações captadas pelo magnetismo podem ser transmitidas ao cérebro, repercute a Revista Galileu.
A proximidade entre essas estruturas reforça a natureza interdisciplinar da pesquisa, que reuniu especialistas de áreas como imunologia, física e biologia comportamental.
“Nosso estudo tem implicações tanto para o panorama da pesquisa imunológica quanto para a pesquisa sobre navegação animal ou magnetorecepção. Para a navegação animal, trata-se de um novo conceito de como os animais percebem o campo magnético da Terra”, afirmou Lisowski.
Segundo os pesquisadores, os resultados também podem contribuir para compreender como aves que realizam migrações noturnas e outros animais que se deslocam em ambientes escuros conseguem manter a orientação utilizando apenas informações magnéticas disponíveis no ambiente.
Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.