Pedro Gonçalves viveu uma reta final de temporada longe do rendimento habitual e foi um dos jogadores mais afetados pelo desfecho amargo da época do Sporting. Dias depois da derrota frente ao Torreense, na final da Taça de Portugal, o internacional português recorreu às redes sociais para assumir que não conseguiu apresentar-se ao nível que desejava e revelou ter enfrentado dificuldades do ponto de vista mental.
“Sempre aceitei qualquer crítica, não tenho medo e assumo que não estive ao nível que este clube exige. Mentalmente desde que vim da paragem de março não estive no meu melhor. O meu corpo queria mas a minha cabeça andava sempre com um ‘travão de mão’ com medo de me lesionar”, escreveu o ‘camisola 8’ dos leões.
Os números ajudam a explicar a quebra de rendimento. Desde o regresso da pausa FIFA de março, Pote marcou apenas um golo nos últimos 12 encontros realizados pelo Sporting. Também os indicadores relacionados com a condução de bola sofreram uma descida significativa, passando de uma média de 121 metros por 90 minutos para apenas 76.
“O atleta toma decisões mais conservadoras porque tem medo de errar”
Para perceber melhor o fenómeno, o jornal Record falou com Filipa Marques, mental coach com Pós-Graduação em Psicologia do Desporto. A especialista explicou que este tipo de bloqueio surge frequentemente quando o atleta deixa de estar focado na performance e passa a pensar nas consequências dos seus atos dentro de campo. “Muitas vezes começam a surgir no momento em que o atleta deixa de se focar na perfomance e começa a pensar nas consequências. ‘Se falho e me lesiono, vou ficar condicionado?’ E a verdade é que condiciona o discurso interno. O atleta deixa de jogar agressivo, toma decisões mais conservadoras porque tem medo de errar“.
A especialista destacou ainda a ligação entre a componente psicológica e a resposta física do organismo. “O corpo está em alerta”, explicou, acrescentando que essa tensão pode levar os músculos a ficarem mais presos e aumentar o risco de lesão. “A mente não está preparada e o corpo reage àquilo que a mente lhe dita e a lesão aparece…”.
No caso de atletas de topo como Pote, Filipa Marques considera que a pressão para manter níveis elevados de rendimento pode tornar-se um fator adicional de desgaste. “Quando um jogador chega a um patamar, continua a definir objetivos e a querer sempre mais, pois sabe que precisa de estar num bom nível para ter melhores propostas, melhor salário, mudar de clube e tudo isto condiciona mentalmente um atleta, porque há excesso de pensamentos. Há o medo de não voltar a estar tão bem, como viram na época passada, de errar, de falhar e de perder o que já se conquistou”.
A mental coach sublinha ainda que a recuperação psicológica nem sempre acompanha a física. “Nas lesões, existe todo um protocolo de recuperação, de fisioterapia e vamos evoluindo, mas na mente continua a haver dúvidas, medos e expectativas que têm de ser geridas. Lembrar que os acontecimentos efetivamente influenciam a nossa carreira, mas é o significado que damos a eles que determinam o impacto que tem em nós. Se estiver focado no que perdeu por estar lesionado, por ter falhado um objetivo… vai bloquear. O foco tem de estar na recuperação… a aceitação é fundamental”.
“Às vezes o atleta comete o erro de associar a sua identidade aos resultados”
Por fim, Filipa Marques destacou a importância do apoio de quem rodeia o atleta, sobretudo em momentos de maior fragilidade emocional. “Por mais que se queira afastar dos comentários, é inevitável. Se um jogador estiver fragilizado, se os resultados não forem aqueles que estão à espera, e se vêm críticas, vai deitar ainda mais abaixo o atleta. Especialmente estando no Sporting, uma equipa que espera sempre o melhor dele. E aí entra identidade: às vezes o atleta comete o erro de associar a sua identidade aos resultados, às conquistas. Se estiver preso quando falhar, vai abanar ainda mais estruturas”.