Pode um estádio servir o bairro e a cidade para lá dos dias de jogo? Não só pode, como deve. Pelo menos foi essa a convicção que levou os responsáveis do Atlético Clube de Portugal a olhar para a Tapadinha de forma diferente, transformando um espaço até então desaproveitado numa zona de lazer. Inaugurado no final de Maio, o Curva é um “clube dentro do clube”, um “espaço de convívio para adeptos de comida, cultura e futebol”. Tem três food trucks com marcas conhecidas de Lisboa, um bar, uma zona de mesas com ecrã gigante (mesmo a tempo do Mundial), matraquilhos e um insuflável.

“A história é quase romântica, de filme mesmo”, diz João Carvalho, CEO do Atlético. E começa três anos antes, quando ainda trabalhava como advogado e ajudava o norte-americano Gifford Miller — hoje presidente e proprietário do clube — a encontrar uma equipa de futebol em Portugal onde investir. A pesquisa foi longa, mas o Atlético acabou por se destacar pela combinação entre a sua história, a localização em Alcântara, em Lisboa, e o potencial da Tapadinha.

Definida a aposta, a prioridade passou por valorizar aquilo que o clube tinha de mais distintivo: a ligação ao bairro, a vista sobre o rio e um estádio que, apesar da localização privilegiada, era utilizado apenas em dia de jogo, de 15 em 15 dias. “É uma péssima utilização de um espaço com um potencial tão grande”, resume. “O primeiro objectivo passou, então, por criar um espaço de encontro, um miradouro, uma zona de convívio, que servisse vários propósitos, mas fundamentalmente que tornasse a Tapadinha num ponto de referência”, acrescenta.

A oportunidade surgiu atrás da baliza sul, numa zona escondida durante anos por montes de aparas de relva acumuladas após as manutenções do campo. “Tinham quase um metro e setenta de altura”, recorda João Carvalho. “Nós imaginávamos o potencial, mas não tínhamos noção do espaço.”

Bastou uma semana de limpeza para revelar uma área com cerca de dois mil metros quadrados. “Só aí percebemos a dimensão do que tínhamos em mãos”, reforça. “Quando vimos o espaço, o exercício tornou-se quase fácil: estamos numa localização extraordinária, de fácil acesso a partir de várias zonas de Lisboa, vamos fazer isto”, recorda. E por isto, João refere-se a um conceito diferente de bancada. Uma bancada, onde ao contrário do que acontece nos estádios, é permitido o consumo de álcool. “Não foi o primeiro objectivo, mas foi dos primeiros a conquistar”, aponta. “A visão para o Curva foi sendo nutrida e foi crescendo ao longo do tempo em que estávamos a pensar nisto”, explica o CEO.

Entretenimento e gastronomia

O futebol continua a ser o fio condutor de tudo. “Estamos num estádio e não nos podemos desvirtuar desse lado. O entretenimento desportivo, cujo ex-líbris é o dia de jogo, tem de ser tido em conta”, argumenta João Carvalho. E se os encontros do Atlético são o principal motivo para atravessar os portões da Tapadinha, o Curva procura manter essa dinâmica nos restantes dias, através da transmissão de outras competições, a começar já pelo Mundial, num ecrã gigante.

João menciona ainda a vertente familiar do projecto, materializada num insuflável “que raramente está desligado”. E desenvolve: “Há o lado mais lifestyle, pensado para quem procura simplesmente beber um copo ao final do dia ou encontrar-se com amigos.” E há a gastronomia. No final, é à volta da comida que todas estas diferentes formas de ocupar o Curva acabam por se cruzar.

Estando num estádio, João soube logo que teria de ter roulottes, embora com um twist. “São umas Airstream”, diz, com orgulho, fazendo referência a uma marca norte-americana de luxo. Na escolha para as ocupar, também fugiu ao óbvio. “O primeiro que abordámos e a aceitar o desafio de se juntar a nós foi o Kau, do Rui Matias”, conta, destacando como “não é em todos os estádios que se come barbecue texano”. A marca, que por estes dias forma filas à porta da Kau Pastrami House, no Saldanha, também em Lisboa, trouxe para a Tapadinha algumas das suas propostas mais populares, entre elas a sandes de pulled pork (9€) e a texan cheesesteak (16€).




O projecto Curva fica na Tapadinha, em Lisboa
Daniel Rocha

Já a segunda escolha partiu de uma associação mais imediata. “Estamos num estádio e, na cultura das roulottes, o que se come são bifanas”, continua João Carvalho. “Fomos à procura da melhor bifana possível e isso levou-nos até ao chef Vasco Lello e à sua Trifana.” À frente do Turvo há cerca de um ano, Vasco Lello viu no Curva a oportunidade de dar uma casa à sua Trifana, uma bifana que junta cachaço, barriga e cabeça de xara (6,50€) e que até então só estava disponível em eventos pontuais. A decisão, contudo, não foi imediata. “Tenho uma estrutura muito pequena e sou um bocado homem dos sete ofícios”, justifica o chef. O facto de o clube assegurar parte da operação acabou por ajudar. “Tornou-se muito mais fácil dar esse passo.”

A fechar o trio está a Vetrina, do grupo Non Basta, com uma carta centrada em sanduíches italianas (8,50€) e pizzas em schiacciata (5,50€), uma espécie de focaccia fina e crocante. “É muito difícil não gostar de pizza”, resume o CEO do Atlético.




Existem três roulottes com três ofertas diferentes, da comida italiana à texana, sem esquecer Portugal
Daniel Rocha

Por agora, o espaço abre apenas de sexta a domingo, mas João Carvalho espera que esse seja apenas o início de uma transformação mais profunda. A de um estádio que, durante décadas, abriu portas para o futebol e que agora procura encontrar razões para as manter abertas no resto do tempo. Se há uma imagem que guarda da primeira semana do Curva, é a de ver sentados às mesmas mesas “os adeptos históricos do Atlético, moradores de Alcântara, jovens e a comunidade expatriada que vive na cidade”. E diz: “Todas estas faixas etárias e estes segmentos, que são muito diferentes, querem sentir que fazem parte de um clube, de uma comunidade.” A comunidade da Tapadinha.