Eu não entendia, quando ia em lugares miseráveis, viajando com os programas, como aquela pessoa que saiu de um lugar onde estava sendo massacrada, coberta de fuligem, trabalhando sem parar num canavial, que era descontada no dia que não ia trabalhar porque se machucou, era a pessoa que mais dançava comigo à noite. Acabava a gravação, eu e Hermano (Vianna, antropólogo) nos perguntávamos: “De onde vem essa alegria?”. Zé Celso (Martinez Correa, diretor de teatro), Simas, Oswald e Mario de Andrade, pessoas que se apaixonaram pelo povo brasileiro, com essa história de crueldade e sofrimento que forjou nossa sociedade, perceberam isso. A gente fica estupefato e, ao mesmo tempo, dá uma paixão. Isso é química ou alquimia? Isso é transmutar a dor em festa, em alegria.