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Richard Feynman, prémio Nobel da Física em 1965

Voltar ao restaurante de que gostamos ou procurar algo melhor? Richard Feynman resolveu este dilema, num guardanapo, no final dos anos 1970. Um novo estudo vem agora provar que tinha razão — e que as pessoas tendem, intuitivamente, a seguir a regra que o físico postulou.

Quando o físico Richard Feynman se sentou para almoçar num restaurante tailandês na Califórnia, no final da década de 1970, dificilmente poderia imaginar que os rabiscos que produziu durante a refeição viriam a ser saudados como a solução ótima para um problema familiar a qualquer viajante ou turista.

O dilema é enganadoramente simples. Numa viagem a uma cidade nova, devemos voltar sempre ao primeiro restaurante de que gostámos ou continuar a procurar todas as noites, na esperança de encontrar algo melhor?

Meio século mais tarde, um estudo acaba de confirmar que as equações esboçadas à pressa pelo falecido Prémio Nobel eram matematicamente sólidas — e que as pessoas comuns, sem nunca fazerem as contas, se comportam de forma surpreendentemente semelhante.

Feynman formulou a questão em termos matemáticos depois de o seu amigo Ralph Leighton se interrogar em voz alta sobre se devia ficar-se pelo seu frango com gengibre preferido ou aventurar-se mais para baixo na ementa, à procura de um prato de que pudesse gostar mais. O físico começou a rabiscar e, prontamente, afirmou ter encontrado uma resposta.

Segundo a Nature, o restaurante em questão ficava em Glendale, perto de Pasadena. Leighton guardou as notas, mas a caligrafia notoriamente difícil de Feynman manteve-as praticamente indecifráveis durante décadas.

Tom Griffiths, cientista cognitivo atualmente na Universidade de Princeton, transcreveu-as na íntegra pela primeira vez por volta de 2013, quando recolhia dados para um livro com o seu colaborador Brian Christian.

A questão ficou então adormecida até que os dois investigadores, com a colaboração do psicólogo cognitivo Evan Russek, da Universidade da Cidade de Nova Iorque, a retomaram em 2021.

O que Feynman tinha feito, explicam os investigadores, foi transformar o dilema do comensal numa questão de teoria da decisão e, mais concretamente, num “problema de paragem” — uma categoria de situações em que alguém tem de decidir quando uma procura é suficientemente boa para ser dada por terminada.

A essência do problema está em que o valor de explorar, de olhar à volta e experimentar algo novo, diminui as oportunidades que vamos ter de fazer uso dessa informação”, explicou Griffiths ao The Guardian.

A estratégia de Feynman consistia em definir um limiar de qualidade e experimentar um restaurante novo todas as noites, até que um deles o ultrapassasse.

O ponto crucial é que esse limiar não é fixo: desce cada vez mais depressa à medida que os dias restantes diminuem, porque resta menos tempo para desfrutar de uma boa descoberta.

“Os limiares são orientados pela melhor coisa que poderíamos vir a encontrar se continuássemos à procura”, explicou Griffiths.

A equipa foi também além do pressuposto de Feynman de que todos os restaurantes se inserem num intervalo uniforme de qualidade. Numa cidade com muitos restaurantes medíocres e apenas uma ou duas joias, compensa explorar durante mais tempo; quando a maioria das opções está, de forma fiável, acima da média, o limiar desce e a procura prolongada torna-se um desperdício.

Para testar como se comportam as pessoas reais, os investigadores recrutaram 2.520 participantes para uma experiência online, e pediram-lhes que imaginassem estar a visitar uma cidade durante um período de uma a quatro semanas e que escolhessem um restaurante para cada noite.

Os jogadores ganhavam pontos que refletiam a qualidade dos restaurantes, numa escala de 1 a 100, e que deveriam tentar maximizar a sua pontuação. Os participantes mostraram-se progressivamente menos dispostos a arriscar em novos estabelecimentos à medida que a estadia se aproximava do fim.

Em vez de seguirem o declínio acelerado de Feynman, porém, o seu limiar descia de forma linear com a proporção de noites em falta, uma regra mais simples que, ainda assim, funcionava bem.

O modelo tem limitações. Por exemplo, nota Christian, ignora o tédio, uma vez que a solução ótima da fórmula é fixarmo-nos num único prato para sempre.

O estudo, publicado na segunda-feira na Proceedings of the National Academy of Sciences, é mais do que um mero exercício académico para validar os rabiscos de Feynman — e a sua importância vai além da resolução do dilema que assalta com frequência turistas indecisos.

Com efeito, salienta Shoham Choshen-Hillel, cientista comportamental da Universidade Hebraica de Jerusalém, a fórmula de Feynman tem aplicação em escolhas mais importantes — da compra de uma casa até à escolha da pessoa com quem queremos partilhar a nossa vida.


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