Como todos os homens livres, Miguel Ángel Blanco não se prestava a definições simples. Era, ainda assim, um rapaz da sua geração. Filho de pais galegos que emigraram para o País Basco à procura de uma vida melhor, Miguel Ángel nasceu na província basca de Biscaia a 13 de maio de 1968. Era basco, galego e espanhol, não vendo qualquer problema na coexistência destas identidades.
Em miúdo, partilhou com o pai o ofício de pedreiro. Nas famílias humildes, onde o esforço é uma necessidade honrada, nunca sobram braços para trabalhar. Uma vez licenciado em ciências económicas pela Universidade do País Basco, encontrou trabalho na consultora Eman Consulting como economista. Para orgulho dos pais e satisfação do filho, o elevador social ainda funcionava.
Os tempos livres eram feitos à bateria de uma banda de amigos que por vezes arriscava trocar a sala de ensaios por salas de casamentos e baptizados. Não foi coisa profissional, apenas uma brincadeira de jovens. Mas se o passatempo podia gerar rendimento extra, então ouro sobre azul.
Em 1995, aos 27 anos, filiou-se nas Nuevas Generaciones, a “jota” do Partido Popular, a principal força política do centro-direita espanhol. Nas autárquicas desse mesmo ano, foi eleito vereador no município de Ermúa, na sua Biscaia natal, terra com pouco mais de 16 mil habitantes. Com uma área de 6,5 km2, é mais pequena do que o mais pequeno dos municípios portugueses.
A 10 de julho de 1997, quando saía do comboio que o levava de casa para o trabalho, foi sequestrado por uma célula da organização terrorista Euskadi Ta Askatasuna (Pátria Basca e Liberdade), conhecida pela sigla ETA. Já o tinham tentado localizar no dia anterior.
Aos olhos da ETA, Miguel Ángel Blanco não era basco. Nascera em Biscaia, mas os seus pais eram galegos, portanto, maketos, um termo pejorativo que o nacionalismo basco reservou aos imigrantes. Só havia uma forma de ser basco e era a ETA que a definia. Quem não aceitasse a tutela ideológica e política do terrorismo estava votado à condição de traidor.
▲ Título: “Maite” | Autor: Fernando Aramburu | Tradução: J. Teixeira de Aguilar | Editora: Dom Quixote | Páginas: 272
No entanto, Miguel Ángel terá sido escolhido por razões mais prosaicas. A ameaça omnipresente da violência terrorista levou muitos políticos a adoptar medidas de segurança pessoal, como andar com escolta armada. Para a ETA, era muito mais fácil sequestrar um jovem que se deslocava em transportes públicos, um vereador de um pequeno município, que em Portugal seria apenas uma junta de freguesia, do que raptar um presidente de câmara, um deputado ou um ministro.
Qual foi a motivação do sequestro? Do ponto de vista da ETA, havia razões estratégicas e tácticas. No plano estratégico, tratava-se de inverter a percepção de debilidade que grassava dentro e fora da organização. A polícia espanhola desarticulara várias células terroristas e, muito mais importante, prendera de uma assentada toda a direcção da ETA na localidade de Bidart, no país basco francês, a 29 de março de 1992. A nova liderança, que entrou para substituir os detidos, teve o mesmo destino.
Acabou-se, assim, o mito de invencibilidade alimentado pela organização terrorista durante anos. A ETA estava profundamente debilitada e o desânimo alastrava nas fileiras da militância. Esta fraqueza teve também impacto eleitoral, com o Herri Batasuna, o braço partidário da organização terrorista, a sofrer uma dura penalização nas urnas.
No plano táctico, foi a resposta a uma pesada humilhação. A 1 de Julho de 1997, tão somente nove dias antes do sequestro de Miguel Ángel Blanco, a Guardia Civil conseguiu, por fim, localizar e libertar José Antonio Ortega Lara. Funcionário do sistema prisional, Ortega Lara estava em cativeiro há 532 dias, o mais longo sequestro levado a cabo pela ETA. Foi mantido numa cela subterrânea minúscula e insalubre, onde suportou condições tão pavorosas que chegou a pensar em suicídio. A sua libertação foi muito mais do que a libertação de um homem: foi uma vitória das Forças de Segurança, mas também dos poucos trabalhadores, amigos e familiares que saíram às ruas para protestar contra o terrorismo.
Somando as dificuldades estratégicas à humilhação táctica, era preciso um golpe de força que vingasse a honra da ETA. Às 18h30 do dia 10 de julho, poucas horas após o sequestro de Miguel Ángel, a ETA emitiu um comunicado no qual dava ao governo 48 horas para alterar sua política prisional e transferir de imediato para o País Basco os condenados por crimes de terrorismo. Caso contrário, Miguel Ángel Blanco seria executado.
A reivindicação era impossível de cumprir. À época, a ETA tinha mais de 500 reclusos espalhados por presídios de todo o território espanhol, donde, mesmo que o Executivo de José María Aznar quisesse negociar, seria impossível transferir e acomodar todos estes presos em apenas dois dias.
No início da tarde de 12 de julho, terminadas as 48 horas, os terroristas colocaram Miguel Ángel na bagageira de um veículo e transportaram-no manietado para uma zona despovoada próxima à cidade de Lasarte, na província basca de Guipúzcoa. Uma vez chegados, retiraram o refém do carro e, enquanto um dos terroristas agarrava o jovem vereador do Partido Popular, que permanecia com as mãos amarradas, outro etarra deu-lhe dois tiros na cabeça à queima-roupa.