Com bastante drama, mas recriando o cenário brasileiro da época, série ‘Brasil 70: A Saga do Tri’, disponível na Netflix, quer reaproximar torcedor da Seleção Brasileira às vésperas da Copa do Mundo de 2026. Foto: Netflix/Divulgação
Após assistir os cinco capítulos de Brasil 70: A saga do tri fiquei com a impressão de que a vitória foi por goleada, mais precisamente 7 a 1. Há muitos, muitos acertos na produção e apenas um grande vacilo.
É verdade, a série é – apenas – baseada em fatos reais e não tem, portanto, que seguir à risca o que aconteceu na Copa do Mundo. Mas há certo exagero nas histórias paralelas à campanha esportiva da seleção brasileira no México: o casal que vende o carro para ver in loco os jogos, a briga exagerada entre cronistas esportivos brasileiros e uruguaios na semifinal, Pelé indo à igreja escondido no porta-malas de um carro…
A Copa do Mundo de 1970, disputada no México, foi a quarta da carreira de Pelé. Com a conquistado do campeonato, tanto o jogador quanto o Brasil se tornaram tricampeões mundiais. Foto: Alexandre Schneider/Netflix
Tudo isso é espuma melodramática de novela das nove. Tudo bem, vai ter gente que vai gostar. Mas a série deve ser exaltada por outros méritos. O principal? Não ignorar a influência da ditadura naquela campanha esportiva. O Brasil vivia o auge da repressão, os porões funcionavam em quinta marcha, acelerando, e os generais capitalizavam a campanha a cada vitória. Faz muito bem não deixar isso de lado.
Essa opção se consolida na decisão de transformar João Saldanha, o João Sem Medo, em protagonista – afinal, ele foi o técnico que classificou o time ao mundial e foi comentarista das transmissões das partidas. Era comunista, fumante inveterado e dono de tiradas impagáveis. Foi um personagem durante muito tempo colocado ao lado da vitória no México, a série resgata esse personagem a partir de uma atuação bastante potente de Rodrigo Santoro, que não exagerou no sotaque de Saldanha – focou em suas tiradas inesquecíveis, em sua contundência ideológica. Um grande acerto.
Há outros. A escolha dos atores, por exemplo. Nos convencemos que Pelé está em campo – mérito do ator Lucas Agrícola. Sentimos a fúria de Rivelino em campo – palmas para Daniel Blanco – e nos rendemos totalmente à elegância sútil de Tostão, muito bem interpretado por Ravel Andrade.
Um dos diferenciais da série é a escalação do elenco. Os atores se debruçaram na pesquisa para interpretar o time tricampeão do mundo. Foto: Alexandre Schneider/Netflix
Mas se a minissérie, criada e escrita por Naná Xavier e Rafael Dornellas, exagera no dramalhão do casal que faz tudo pela seleção, acerta em cheio ao expor o drama da família do goleiro Félix, vivido por Hugo Haddad e que conviveu durante todo o mundial com o medo de que o amado pai e marido fosse transformado em vilão – como acontecerá com Barbosa em 1950.
Se Rodrigo Santoro dá vida ao João sem Medo liberto de clichês, Marcelo Adnet convence como o narrador da campanha do tricampeonato. Convence porque Adnet deixou guardada na gaveta do armário sua entonação humorística. E isso faz toda a diferença, afinal, são as transformações que um ator vive na construção de um personagem que surpreendem e na mesma medida convencem quem está do lado de cá da tela. Adnet muda para convencer, abre caminho para algo mais que a piada escrachada que o caracterizou.
Dois destaques do elenco, Rodrigo Santoro (esq.) e Marcelo Adnet, recriaram transmissões da Copa do Mundo de 1970 ao longo da série. Foto: Netflix/Divulgação
Entre um pequeno deslize, que é o dramalhão, e muitos acertos, a minissérie ganha de 7 a 1 principalmente porque terminamos de assistir a trama com vontade de ouvir Cartola – ‘A sorrir, eu pretendo levar a vida… pois chorando, eu vi a mocidade perdida…’
Não seria esse o seu principal mérito?