Iker Casillas reviveu, nesta segunda-feira, os momentos do enfarte do miocárdio sofrido em Maio de 2019, tema central de um processo em que o guarda-redes exige o pagamento de 3,7 milhões à seguradora Fidelidade e ao FC Porto em prestações por incapacidade para o trabalho. Questionado pela juíza, o antigo guardião portista e “lenda” do Real Madrid, que colocou um ponto final à carreira após o enfarte, diz que a vida foi severamente afectada após o problema de saúde, com sequelas que se mantêm até ao dia de hoje.

“Não posso correr, consigo uns 20 ou 50 metros. Não dá para mais”, começou por explicar Iker Casillas, dizendo que apenas passados sete meses após o enfarte é que sentiu ganhar algum controlo sobre a sua vida. “Na primeira semana não fiz nada. Depois de dez dias, comecei a caminhar lentamente e a fazer o mínimo de esforço. Acho que se passaram sete meses até me lembrar do que era. Eu era um desportista”, adianta Casillas, que elencou uma série de medicamentos que tem de tomar para reduzir o risco de novas complicações.

Casillas reclama o pagamento de mais de 3,7 milhões de euros em prestações por incapacidade para o trabalho, na sequência de um enfarte agudo do miocárdio sofrido durante um treino do FC Porto, em Maio de 2019. A batalha judicial é travada pelo guardião espanhol contra a seguradora Fidelidade e o clube desde Outubro de 2021, depois de as duas entidades considerarem não ser possível provar que foi o esforço físico feito pelo guarda-redes nesse dia a razão para a complicação de saúde que ditou o fim da sua carreira.

Em tribunal, o antigo guarda-redes disse que os dias que antecederam o enfarte não indiciavam que algo se passava de errado, recordando que fez dezenas de exames médicos ao longo dos anos que nunca detectaram qualquer problema. Enquanto treinava no Olival, centro de treinos do FC Porto, sentiu um aperto no peito. “Tive medo, não conseguia respirar”, relembra. Quando o exercício terminou, sentou-se no chão, recebendo o auxílio do staff médico dos “dragões”.

“Sentia muitas dores no peito. Avisei o treinador de guarda-redes, sentei-me no chão e disse ainda ao Roberto, fisioterapeuta do FC Porto. Lembro-me que depois disso vieram ver-me, disseram para estar tranquilo. Foram chamar o doutor Nelson Puga no balneário, levaram-me para os vestiários com um daqueles carrinhos de golf, trocaram-me a camisola e as chuteiras e levaram-me para a CUF”, explica Casillas.

A seguradora Fidelidade transferiu 1,5 milhões de euros, tecto máximo anual para acidentes de trabalho, enquanto o FC Porto diz que pagou mais de um milhão de euros em salários durante a inactividade, não considerando ter mais obrigações para com o antigo capitão.

Casillas considera ter direito a receber a prestação respeitante a Incapacidade Permanente Absoluta para o Trabalho Habitual (IPATH) no valor de 2,5 milhões de euros, correspondente a 70% da remuneração até 30 de Junho de 2021, data até à qual Iker Casillas tinha contrato assinado com o FC Porto.

Seguradora questiona hábitos

Durante os últimos anos, foram chamados peritos pela seguradora e pela defesa de Iker Casillas, com opiniões contraditórias. Os peritos independentes deram razão ao jogador, dizendo que o esforço exercido durante o treino terá espoletado o enfarte. Os especialistas da seguradora discordaram. Face a impossibilidade de um acordo entre as partes, o caso chegou a tribunal.

Da parte da seguradora, os advogados lembraram as declarações de Casillas na Web Summit em 2021, altura em que o guarda-redes disse não se ter apercebido no momento de que se tratava de um enfarte, descrevendo um episódio rápido. Houve ainda uma questão direccionada a Casillas, levantando a hipótese de o internacional espanhol ter tido um eventual consumo exagerado de álcool durante a carreira, tendo em por base declarações da ex-mulher de Casillas, a jornalista Sara Carbonero. Isto foi algo que motivou um forte protesto da defesa do jogador, com a juíza a ser obrigada a colocar ordem na sessão.

“Aqui interessam os antecedentes médicos e clínicos”, defendeu a juíza, questionando Casillas apenas sobre se, enquanto jogava futebol, era adepto de saídas nocturnas. O guarda-redes negou: “Não. No máximo, um jantar com amigos.”

A defesa de Fidelidade apontou ainda o dedo ao guarda-redes, por este participar em jogos de futebol de veteranos do Real Madrid e de cariz social. “O senhor disse que não podia jogar futebol”, rematou o advogado da seguradora. Casillas desvaloriza o esforço físico dessas partidas, dizendo ainda que nos últimos anos não tem participado nestas iniciativas. “São partidas amigáveis, uma exibição. A intensidade não é igual. Se achar [que a bola] que está muito longe, não vou”, respondeu.

A linha de questionamento da seguradora tocou ainda no padel, desporto que o guarda-redes diz ser o único que ainda pratica. “Faço jogos de 45 minutos duas vezes por semana”, adiantou Casillas, questionado pela juíza. A defesa da Fidelidade considera que o desporto é exigente do ponto de vista físico, de contacto e pode ter riscos.

Iker Casillas colocou um ponto final à carreira em Agosto de 2020, pouco mais de um ano após o enfarte no treino. Ao longo de uma carreira com mais de duas décadas, Casillas conquistou 24 troféus, repartidos entre Real Madrid, FC Porto e a selecção espanhola.