Manuel Fernando Araújo / Lusa

Do “enxovalho” aos pais que já não tinha aos 18 anos. Ex-treinador do FC Porto falou de tudo um pouco na primeira parte de uma entrevista à TVI, dois anos depois da saída do comando dos azuis e brancos.

Dois anos depois de sair do comando técnico do FC Porto, após sete épocas e 11 troféus conquistados de dragão ao peito, Sérgio Conceição quebrou o silêncio e falou sobre tudo, desde a “semana de enxovalho” na altura da saída dos azuis e brancos, até à perda dos pais, ainda cedo na vida do treinador.

Em entrevista à TVI, o antigo internacional português, atualmente sem clube, começou por explicar a saída do FC Porto, com muitos elogios ao antigo presidente Jorge Nuno Pinto da Costa.

“Saída do Porto não foi fácil”

Sobre o porquê de quebrar o silêncio neste momento, Sérgio Conceição aponta “vários motivos”.

“A minha saída não foi fácil, a todos os níveis. Uma ligação de sete anos como treinador, o fim de um ciclo de alguém que me marcou muitíssimo que foi Jorge Nuno Pinto a Costa. E acho que tinha de ser esta a altura”, acredita.

“Villas-Boas? Não tenho qualquer relação”

O antigo treinador dos dragões diz que viveu uma “semana de enxovalho” no final da presidência de 42 anos de Pinto da Costa e confessou que a primeira coisa que disse ao sucessor, André Villas-Boas, foi que o seu contrato com os dragões “não tinha validade”.

“A forma como gostaria de ter saído do FC Porto certamente era outra e tenho de expressar o meu sentimento. Mas também não era fácil. Houve o quebrar de um ciclo muitíssimo importante na história do FC Porto, que foi do nosso presidente durante 42 anos, o presidente mais titulado do mundo”, recordou Conceição.

“Tudo aquilo que foi aquela semana de enxovalho, com muitas críticas ao Sérgio Conceição, não foi porque o Sérgio não quis sair e estava agarrado a um contrato. A primeira coisa que disse ao presidente André Villas-Boas foi que esse contrato não tinha validade”, sublinhou.

Questionado sobre se mantém relação com André Villas-Boas, Sérgio Conceição foi direto: “Não.”

“Benfica? Não posso dizer nunca (…) houve interesse”

Seria “muito difícil” treinar o Benfica, confessou Conceição: “perante o que é o meu passado em Portugal, é difícil. Não posso dizer nunca, sou um profissional de futebol. Mas neste momento sinto que é difícil treinar outro clube em Portugal.”

No entanto, houve interesse de Luís Filipe Vieira, que acabaria por perder as eleições para Rui Costa — o próprio antigo presidente do Benfica prometeu Conceição.

“Não me fica bem estar a envolver outras pessoas. Não vou desmentir que houve interesse, em que se fosse eleito ir falar comigo. Mas não se avançou de uma simples conversa informal para mais nada”, esclareceu o antigo treinador do Porto.

“Seleção? Estou preparado para tudo”

Sérgio Conceição aproveitou ainda para fechar a porta a Portugal “neste momento”.

“Volto a dizer, eticamente não é correto dizer se estou preparado. Sou profissional, estou preparado para tudo. Ainda não sei o que vou fazer amanhã. Vou pensar no que poderá aparecer, num projeto que seja um bocadinho diferente, foram dois projetos difíceis. Neste momento sem clube e sem convites? Sim”, confessou.

Hipótese de treinar a Bélgica e “dois franceses”

Tive a possibilidade de treinar, antes do Al Ittihad, uma seleção que está no Mundial. Não aceitei. Tive um convite quando saiu o Tedesco da Bélgica. Tive dois clubes franceses há bem pouco tempo”, admitiu.

No entanto, “a minha carreira passará mais por fora de Portugal neste momento”, confessou depois o ex-técnico do FC Porto.

“Al Ittihad? O que eu queria era uma coisa, o fazer é diferente”

A experiência na Arábia “foi muito difícil”, admitiu Sérgio Conceição.

“Cheguei depois de um ano positivo — ganharam campeonato e a King Cup — mas sabia-se de alguns problemas na estrutura”, lembrou.

“Saio com uma experiência muito diferente. O que eu queria era uma coisa, o fazer é diferente. Eles não estão habituados a treinar durante o dia. Se tivéssemos mais de um treino por dia era difícil, para eles, respeitarem horários, aparecerem no treino”, queixou-se o técnico, que aproveitou para recordar brevemente a passagem “interessante” pelo Milan.

“Com o que se tem passado, veio demonstrar que a época, os seis meses que estive no Milan foram bastante interessantes”, disse.

“Sim, choro”

O treinador de 51 anos perdeu o pai num acidente de viação aos 16 anos e a mãe também partiu, apenas dois anos depois, por doença prolongada. Numa fase mais pessoal da entrevista, recordou os dois e os primeiros tempos que passou num lar, com outros jogadores, já ao serviço do clube portista.

“Estive 16 anos com ele e com a minha mãe 18. Foram ensinamentos fantásticos. Mesmos nos silêncios dele, ele ensinava. Mesmo quando era difícil dizer alguma coisa depois de um dia de trabalho, ele ensinava esse compromisso com a família”, recordou. O pai “queria que acabasse os estudos. Acompanhava-me aos jogos. Não elogiava, não me lembro de dizer ‘gosto muito de ti’. Mas demonstrava de outra forma.”

“Cheguei ao FC Porto e fiquei no lar com alguns jogadores africanos, de outros países, de outras cidades de Portugal. A minha mãe estava doente na altura. Eu ia a Coimbra sempre que podia dar algum dinheiro para ajudar. Não foi fácil. O meu pai foi comigo assinar contrato e dois depois faleceu. Via o futebol como algo que me podia dar satisfação enorme. Valeu a pena. Lutei muito. Cada título, os meus pais estão presentes. Sim, choro. Penso neles, no meu irmão, nas pessoas que me ajudaram e estão vivas. Falei sempre neles”, disse ainda o técnico português.


Tomás Guimarães, ZAP //


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