A polícia viu-se forçada a usar canhões de água para dispersar os amotinados que, na noite de quarta-feira, e pelo segundo dia consecutivo, se manifestaram de forma violenta contra a imigração em vários pontos da Irlanda do Norte.

Foi anunciado o reforço do dispositivo policial depois das imagens de violência da noite de terça-feira e, ainda que se tenha registado menos focos de violência do que na primeira noite de desacatos, continuou a haver distúrbios em várias cidades do país — em Derry, em Coleraine — com o ponto quente da noite a situar-se em Newtownabbey, nos arredores de Belfast, especificamente na rotunda conhecida como Sandyknowes, num cenário comparado a uma batalha campal.

Aí, a polícia dispersou uma multidão de cerca de 300 pessoas, a maioria a usar roupa preta e balaclavas para não ser reconhecida, com recurso a canhões de água e bastões. No local, os amotinados queimaram um camião, usaram parte da vedação de um jardim para fazer uma barricada, queimaram pneus e mobília e atiraram pedras e cocktails molotov contra os polícias e curiosos. Acabaram por dispersar pelas 23h30, deixando para trás um rasto de carros queimados e detritos, salienta a reportagem do Guardian.

Numa conferência de imprensa esta quinta-feira, Ryan Henderson, subcomissário-chefe do Serviço de Polícia da Irlanda do Norte, deu conta de 12 polícias feridos – alguns por cocktails molotov — e 16 detenções. Ainda podem vir a ser mais, acrescentou, uma vez que há detectives a trabalhar na identificação dos participantes nos motins para “os trazer à justiça”.




As imagens da noite de quarta-feira
EPA/ADAM VAUGHAN

Vários protestos que eram esperados acabaram por não acontecer, incluindo um que estava a ser preparado em frente à Câmara de Belfast – e que só atraiu três pessoas — e um alegado plano para atingir um hotel na Irlanda do Norte que estaria a dar abrigo a migrantes, os alvos declarados deste grupo.

“Banditismo racista”

O ministro para a Irlanda do Norte, Hilary Benn, não tem pejo em dizer que as redes sociais estão a servir de ignição para os protestos, que foram desencadeados pela partilha online de um vídeo onde se via um homem de origem sudanesa, requerente de asilo, a tentar decapitar um homem em plena luz do dia em Belfast. As imagens motivaram que grupos extremistas começassem a organizar protestos e a construir listas de possíveis alvos, tanto edifícios como pessoas concretas. Uma verdadeira hit list, de acordo com as autoridades que a classificam como “totalmente inaceitável”, mas que acaba a ser divulgada por activistas extremistas, como Tommy Robinson, ou pelo dono do X, Elon Musk.

Numa ronda de entrevistas a vários meios de comunicação social, na manhã desta quinta-feira, Benn disse que era “completamente inaceitável dirigir alguém a uma morada especifica porque diz, ou acha que sabe, que vive ali uma pessoa em particular” e que as redes sociais “têm responsabilidade” sobre o clima de violência que se vive na Irlanda do Norte.

“Tivemos relatos de pessoas a serem paradas enquanto conduziam os seus carros para lhes perguntarem qual é a sua nacionalidade, no caminho para o trabalho, e isto é completamente inaceitável”, diz o responsável. Questionado sobre se isto são protestos racistas, Benn não tem dúvidas: “Bem, se os alvos são escolhidos com base na cor da pele, de que outra forma os poderíamos descrever? É banditismo racista, não há questões sobre isso.”




Loja vandalizada em Belfast
REUTERS/Isabel Infantes

Hoje, tal como na quarta-feira, a família da vítima — que está “estável”, apesar de ter múltiplos ferimentos na cara e costas — fez difundir outro comunicado (desta vez através da polícia) onde condenou os protestos violentos: “Queremos deixar claro que esta resposta não tem o apoio da família e que os protestos pacíficos são a única forma de avançar.”

Reforço do controlo da imigração

Na mesma ronda de entrevistas, Benn anunciou que mais de 1000 pessoas foram retiradas da Irlanda no Norte por “não terem o direito” de aí estar, no ano passado, como resultado de um reforço do controlo da imigração e que “veremos um aumento dessa actividade, de fiscalização e rusgas”, com “base em informações dos serviços secretos, nomeadamente das principais rotas de transporte, aeroportos, linhas de autocarro, linhas ferroviárias e portos”.

A líder do Partido Conservador britânico, Kemi Badenoch, por sua vez, pediu desculpa, em nome do seu partido, pela autorização de requisição de asilo concedida ao presumível atacante de Belfast, que foi autorizado a entrar no país em 2023, numa altura em que os Tories estavam no Governo. “Lamento que estas coisas tenham acontecido durante um Governo conservador. As desculpas não vão resolver o que está a acontecer nas nossas fronteiras neste momento e passamos demasiado tempo a apontar dedos e não a lidar com o problema”, disse, numa entrevista à Sky News.

Logo a seguir, pôs a culpa em Robert Jenrick e Suella Braverman, que tinham as pastas do interior e da imigração na altura, e que passaram do Partido Conservador para o Reform UK, de Nigel Farage.