Já defendeu também contrapartidas financeiras para esse acordo.
O que digo é que nestas contrapartidas não é necessariamente um cheque. Trata-se de investimentos que potenciem, que valorizem. Depois, no outro domínio  fruto deste novo pensamento e desta nova reflexão reformista do próprio funcionamento da NATO e do papel dos outros países NATO, que não necessariamente os Estados Unidos, reforçar capacidades de segurança e defesa com infraestruturas de duplo uso. Que possam obviamente servir as razões dissuasoras para garantir Segurança e Defesa dos Estados e dos nossos territórios, bem como da própria NATO, enquanto Estado-membro que somos, mas igualmente potenciar o desenvolvimento do território, da sua economia, da sua população residente. É fundamental, nessa posição de soberania, nós segurarmos as nossas ilhas, todas elas povoadas, todas elas suficientemente atrativas para reter populações e atrair população. Porque, também a demografia, é elemento decisivo da soberania. E nós não queremos que as ilhas dos Açores, fruto de um empobrecimento sem esforço solidário para as desenvolver, tenhamos aqui um processo de despovoamento. E como sabemos, a nossa demografia ocidental em geral, a portuguesa e açoriana em particular, está em quebra, no saldo natural. Ora, é preciso ter atenção para esses elementos e como é que se consegue reter populações, fixar populações ao nosso território e, no caso, às nossas ilhas? Naturalmente, tendo condições de vida.

Com investimento.
Com todo esse investimento que possa ser feito, que tem de ter este duplo uso. É nesses termos que eu falo das compensações. Digo muitas vezes assim, parece que, mesmo nos domínios dos tratados internacionais, os Açores, para os residentes, são penosamente sacrificados por causa da sua geografia, que é desde logo penalizadora da nossa economia, porque não tem escala,porque tem uma dispersão geográfica, descontinuidade territorial. Mas é altamente favorável para terceiros. Há a dimensão geopolítica do país, da União Europeia e dos tratados internacionais.

Mas é possível obrigar os Estados Unidos, ou pedir aos Estados Unidos que investiam?
Tratam-se de obrigações. Aliás, na própria criação da Fundação Luso-Americana, no passado, havia um contributo financeiro. Depois, entendeu-se, como, aliás, penso que recentemente ouviu esclarecer Durão Barroso, e bem, que, na verdade, depois da integração de Portugal na União Europeia, o país deixou de ser entendido como um país pobre de necessidades. E, portanto, entendeu-se, até, pela dignificação. Ora, essa matéria de apoio ao nosso desenvolvimento é fundamental e deve ser considerada a própria situação socioeconómica dos Açores. E, portanto, nós temos que ter um verdadeiro retorno desta capacidade que damos a terceiros relativamente à nossa geografia. E que nos dê garantias do nosso desenvolvimento e nossa coesão socioeconómica para manter população e residência em todas as nossas ilhas. O mar português é o quinto maior da União, o vigésimo do mundo e, deste mar português, 56% é mar dos Açores. Os Açores têm a maior parte do mar português. E, com isso, também, claro, está o acesso ao espaço. E é muito vistoso, mas também é muito penoso para nós, os residentes. Nós estamos a viver entre duas placas tectónicas. Portugal tem a placa tectónica euroasiática e tem duas ilhas dos Açores que estão na placa tectónica americana. A futura extensão da plataforma continental, vê nos Açores o seu potencial maior. Ora, tudo isso deve também ser considerado como valor património natural que Portugal tem. Que, obviamente, reporta muito aos Açores e que deve ter um valor também de ajuda ao desenvolvimento económico e à fixação das populações nas nossas ilhas. É nesse domínio que eu falo no retorno, na compensação, no investimento inteligente para capacitar todo o território e a residência das populações e a economia o seu potencial, a economia, associada, claro, está às novas tecnologias e a todas as transições.

Quero chamar a atenção: os Açores são um verdadeiro laboratório do futuro, nas transições que o mundo atravessa neste período. Seja a transição climática, seja a digital, seja a energética, seja uma boa adaptação da economia azul e da economia espacial, que precisamos ter. A própria previsão, que é essencial no controlo da meteorologia perante os fenómenos extremos da natureza, temos vindo aqui a procurar que haja investimentos, designadamente com o IPMA, para garantir esta dimensão geográfica útil ao país, à Europa, ao mundo, ao desenvolvimento, à modernização e à capacidade de todo o nosso território. (Isso eu faço com ênfase, com entusiasmo e também com sentido de responsabilidade, porque sou um cidadão que obviamente tem intervenção em responsabilidades públicas e políticas e procuro, orgulhoso do seu país, do seu território, da sua região e dos Açores, fazer a narrativa do seu potencial e não só a da sua pobreza, da sua exiguidade terrestre e demográfica e do seu afastamento incontornável na geografia de dispersão e tão assimétrica relativamente às condições de cada uma das ilhas e no conjunto das nove. Portanto, eu quero exaltar essa dimensão que esta geografia pode potenciar para a economia do futuro e para a estratégia cada vez mais global e internacional que Portugal pode ter.

Sentiu que, de alguma forma, as declarações de Marco Rubio podem ter fragilizado a posição de Portugal no plano internacional?
Naturalmente, geraram alguma confusão. Não se pode ser hipócrita e não reconhecer que geraram confusão. Mas, na verdade, não valorizo isso em excesso. Até porque tenho firmeza do que foi o entendimento relativamente à relação com o Estado português e, devidamente comunicado pelo Ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros. Portanto, a minha total confiança nessa matéria. Na verdade, não fragiliza. Criou confusão, mais até para nós internamente do que, porventura, para o mundo. E não fragilizou a nossa relação de aliados.

Mudando um pouco de assunto, António José Seguro também defendeu que se se olhasse para as especificidades das ilhas e aprofundasse a autonomia regional até para combater a insularidade. No âmbito, podemos chamar assim, da coesão territorial entre continente e ilhas, foram aprovadas alterações ao Subsídio Social de Mobilidade. Os deputados do PSD de Açores votaram a favor, mas os do PSD nacional votaram contra. Isso foi um erro por parte da bancada do PSD?
Essa matéria é, de facto, muito complexa. Direi que ela não começou da melhor forma e também não está terminada da melhor. O exercício solidário para a coesão territorial e continuidade territorial precisa garantir aos residentes nas ilhas um incentivo e um apoio para a mobilidade. Isto é essencial para podermos ter até capacidade de captação de residentes nas ilhas, bem como também nós próprios não nos sentirmos claustrofóbicos na relação com o resto do país. E eu sempre defendi, desde a primeira hora, que este objetivo para densificar o princípio da continuidade territorial, que é um bom conceito europeu. Aliás sempre defendi que devia ser possível também corresponsabilizar a União Europeia neste financiamento, designadamente às regiões ultraperiféricas, que têm estatuto próprio no quadro do tratado de funcionamento da União Europeia, poder fazer um instrumento para este apoio muito parecido àquilo que eu criei na mobilidade inter-ilhas. Como sabem os Açores são nove ilhas e bem distantes umas das outras, e o nosso meio de circulação entre elas, precisamente para não ter qualquer sazonalidade e ter obviamente a duração anual, é exclusivamente a via aérea. E criei aquilo que designei a Tarifa Açores. Essa Tarifa Açores tem esta característica de universalizar e democratizar o acesso a um preço administrativo – que não invalida o preço comercial das operadoras de transporte aéreo para efeitos da sua sustentabilidade no princípio do utilizador pagador – mas que garante através desse preço administrativo assumido pela subvenção pública ao passageiro que pague apenas no ato da compra da sua passagem aérea esse preço administrativo fixado. Isso garante a universalidade e democratiza o acesso a esta mobilidade, combate a fraude e elimina a dependência da subsidiação. Isto é, o cidadão estar sempre de mão estendida à espera dos subsídios. Porque, quando compra a passagem, já compra aquele preço, não precisa de subsídios. Aliás, o próprio nome, subsídio social de mobilidade, que tinha antes, era já uma ilusão porque é, sobretudo, uma compensação relativamente ao compromisso da continuidade territorial. E agora até mudou de nome e nisto estamos de acordo. O modelo como está ainda não é, na minha opinião, o ideal.

Mas se fosse deputado na Assembleia República tinha votado a favor…
Porque sinalizamos duas observações que, na verdade, foram críticas para o entendimento da população. Primeiro, o risco de termos que declarar o passageiro, porque se entendia que se tratava de um subsídio, nosso entendimento é que não é. Era até uma indemnização ao passageiro, que pagou o preço comercial em vez do preço ser fixado, de fazer declaração de não dívidas fiscais e à segurança social. E, portanto, foi a partir daí que esta situação crítica na população, nos passageiros, se levantou. E, obviamente, nós ficamos solidários com o nosso povo, porque era uma alteração negativa. Piorava a situação. E, por isso, estivemos contra. Esta solução, na verdade, não é ainda aquela que nós perfilhamos. Até vos convido a explorarem o fenómeno da Tarifa Açores na mobilidade inter-ilhas para perceber as características que aqui criamos. E que pode potenciar para uma futura discussão com a União Europeia, no novo período de programação financeira plurianual, o que também temos defendido, que é um POSEI de transportes. Que é exatamente a corresponsabilizar a União Europeia no quadro das regiões ultraperiféricas para um financiamento na densificação e concretização do seu princípio de continuidade territorial para as populações insulares.