Falecido no dia 11 de junho, em Londres (contava 88 anos), David Hockney simboliza, como poucos, uma pintura enraizada num fascinante paradoxo estético e filosófico. Assim, ao longo de mais de seis décadas de trabalho regular, a sua pintura nasceu de muitas e variadas formas de experimentação; ao mesmo tempo, semelhante vocação nunca o fez desistir de modos de figuração (pessoas, animais, paisagens, etc.) que nunca se “diluíram” em qualquer registo abstracto. Mais do que isso, os contrastes da sua obra são indissociáveis de um gosto, ágil e ousado, disponível para as mais variadas técnicas de trabalho. Certamente não por acaso, o seu labor pictórico foi-se cruzando com surpreendentes derivações, da fotografia até à criação de cenários teatrais.

Na impossibilidade de “resumir” tudo isso através de um pequeno conjunto de referências, aqui ficam, de qualquer modo, sete dos seus trabalhos – são testemunhos de uma arte complexa e bem humorada.

1 – MR. AND MRS. CLARK AND PERCY (1971)

Eis aquele que é, seguramente, um dos mais célebres quadros de Hockney. Rezam as crónicas que resultou de um laborioso e demorado trabalho (mais de um ano). O retrato do casal Ossie Clark/Celia Birtwell (ambos designers, ele de moda, ela de têxtil) possui uma imediata sedução realista que acaba por ser “contrariada” pela austeridade das cores e a frieza geométrica da composição.