Há nomes que o tempo não apaga. Permanecem discretamente inscritos na memória coletiva, não apenas pelo que realizaram, mas pelo exemplo que deixaram às gerações seguintes. Recordá-los é um exercício de gratidão e de justiça e é também uma forma de reconhecer aqueles que, através do conhecimento, ajudaram a construir um mundo mais esclarecido.

Entre essas figuras destaca-se Luís Wittnich Carrisso, eminente cientista português, professor catedrático e vice-reitor da Universidade de Coimbra, diretor do Jardim Botânico e do Instituto Botânico Júlio Henriques. Natural da Figueira da Foz, dedicou a sua vida ao estudo das ciências naturais, deixando uma marca importante na botânica portuguesa e na investigação científica desenvolvida pela Universidade de Coimbra.

O seu nome ficará para sempre associado a Angola, território que o fascinou e ao qual consagrou uma parte significativa da sua carreira. Nas suas missões científicas percorreu cerca de 30 mil quilómetros, recolhendo um vastíssimo património botânico que viria a enriquecer de forma notável as coleções científicas da universidade. Investigador incansável, mas também homem de intervenção cívica, desempenhou funções públicas de relevo, entre as quais a presidência da Câmara Municipal de Coimbra, tendo sido distinguido por diversas condecorações em reconhecimento do seu contributo para a ciência, o ensino e a sociedade.




Luís Wittnich Carrisso junto à planta Welwitschia mirabilis
DR

Movido por uma curiosidade insaciável e por uma genuína paixão pela descoberta, Carrisso regressou sucessivamente a África em busca de novas respostas sobre a flora daquele território. Foi durante a sua terceira expedição científica a Angola, em 1937, que o destino interrompeu abruptamente essa caminhada. No deserto do Namibe, enquanto realizava trabalho de campo com a sua equipa, faleceu subitamente, aos 51 anos, vítima de síncope cardíaca. Morreu como viveu: em plena missão científica, dedicado à observação e ao estudo da natureza.

Muitos anos mais tarde, tive a oportunidade de visitar aquele mesmo lugar. Era um objetivo antigo, alimentado pelo desejo de conhecer um espaço que pertence simultaneamente à geografia e à memória da ciência portuguesa. Estar ali, foi mais do que uma viagem; foi uma forma de prestar homenagem a Luís Carrisso, evocando não apenas o investigador que ali concluiu a sua última expedição, mas também os valores que moldaram a sua vida: a curiosidade intelectual, a coragem perante o desconhecido e a determinação de ampliar as fronteiras do conhecimento.

Assim, a 14 de junho de 2026, quando se assinalarem 89 anos da sua morte, representantes da comunidade portuguesa e antigos estudantes da Universidade de Coimbra residentes em Angola vão reunir-se no Namibe para honrar a sua memória, uma homenagem organizada por António Maló de Abreu, doutorando em biociências em Coimbra. Um gesto que deu continuidade a uma tradição de reconhecimento mantida ao longo dos anos por diversas instituições ligadas à academia de Coimbra, entre elas a Tuna Académica, o Orfeon Académico e a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Angola.

Junto ao obelisco erguido no local do acampamento onde faleceu, ficou registado esse momento de evocação. Cantou-se Coimbra no silêncio de um dos desertos mais antigos do mundo, naquele chão austero e fascinante que revelou à ciência a singularidade da Welwitschia mirabilis. Diante da montanha que Carrisso procurara subir no dia da sua morte, reviveu-se a memória de uma vida inteiramente dedicada à descoberta.

Conta a tradição local que o nome dessa montanha, conhecida entre o povo Mukubal como Kanewuia, na língua tchiherero significa “quem a sobe não volta”. Talvez alguns vejam nessa coincidência um eco de antigas crenças. Talvez não passe de uma simples fatalidade inscrita na história. Mas, para além de qualquer interpretação, permanece uma certeza: a de que o tempo não conseguiu apagar a memória de Luís Carrisso.

E enquanto houver quem recorde o seu percurso, quem reconheça o valor da sua obra e quem encontre inspiração no seu exemplo, continuará vivo o legado de um homem que fez da ciência uma missão e do conhecimento uma forma de servir os outros.

A autora escreve segundo um novo acordo ortográfico