Mas quando falamos da nova adega da Granvinhos, não falamos apenas de vinho do Porto, uma vez que o grupo tem também apostado nos vinhos de mesa da região do Douro. Os dados mais recentes publicados em Diário da República revelam que a Região Demarcada do Douro enfrenta um desequilíbrio estrutural entre oferta e procura, com stocks que atingiram 4,4 milhões de hectolitros, cerca de 280% da produção anual. A contribuir para estes números estão, não apenas a redução do consumo, mas também a entrada massiva de uvas e vinho vindos de Espanha, a um preço muito mais baixo do que aquele que é praticado em Portugal. Para efeitos de comparação, as importações oriundas da vizinha Espanha representaram 43% do vinho produzido em Portugal em 2022, 38% em 2023 e 30% em 2024, sendo 68% a granel. No mesmo sentido, as alterações climáticas têm penalizado fortemente os viticultores, enquanto a inflação agrava significativamente os custos de produção e dificulta a comercialização, tanto nacional como internacionalmente.
Então, qual o racional por trás deste investimento de milhões de euros por parte da Granvinhos. “Temos de nos preparar para o futuro”, resume Jorge Dias. “E numa altura em que temos o desafio da falta de mão de obra, este é um passo muito importante”, salienta Elsa Couto, diretora de Marketing e Comunicação na Granvinhos, o grupo que agrega marcas como Dalva, Quinta de Ventozelo e Quinta de S. Salvador da Torre.
A Granvinhos, que integra o universo do grupo francês La Martiniquaise Bardinet, detido pela família Cayard, aproveita o músculo financeiro que vem de fora para conseguir reagir, quando os seus concorrentes aparentam menos fôlego. Sinal de que a aposta parece funcionar, é o facto de ter conseguido crescer em vendas, no ano passado – “foi um crescimento residual, cerca de 3%, mas não caímos”, nota Jorge -, quando a larga maioria dos operadores estão a cair. Aliás, o vinho do Porto tem estado a registar quebras na ordem dos dois dígitos nos últimos anos.
A conversa que Jorge Cruz e Elsa Couto tiveram com o Dinheiro Vivo aconteceu com vista para o rio Douro, no Cais de Gaia, e paredes meias com o espaço Porto Cruz. Ao balcão do Wine and the City, o novo espaço do grupo, os responsáveis da Granvinhos explicam também a ideia deste estabelecimento que já foi uma loja de vinhos, uma gelataria e que hoje é um lugar onde se pode beber um copo de vinho – do Porto ou de mesa – e provar algumas das propostas de José Guedes, o cozinheiro responsável também por outras ofertas gastronómicas do grupo, como o restaurante Casario (numa dança partilhada com Miguel Castro e Silva, cozinheiro que tem também acompanhado o desenvolvimento da oferta gastronómica da Grancruz desde há muitos anos).
“Neste espaço não fizemos um investimento muito grande, porque o espaço já era nosso. Claro que foi preciso redecorar e fazer algumas alterações, mas nada de estrutural”, explica Elsa Couto. “A ideia, aqui, é também apresentar opções diferentes para, por exemplo, o vinho do Porto”, diz, enquanto pede um Porto tónico, uma bebida que a Gran Cruz tem tentado promover, sobretudo entre os mais novos, para impulsionar o consumo.
“Numa altura em que as pessoas parecem disponíveis para experimentar bebidas deste género, aperitivas, que vêm de fora, o Porto tónico é uma bela opção”, continua Elsa, que, sem referir nenhuma marca concorrente, faz claramente referência às congéneres italianas e francesas que têm reforçado os painéis publicitários em Portugal.