No meio de uma conjuntura internacional difícil, o Banco de Portugal continua a estar mais pessimista que o Governo em relação à evolução da economia e das finanças públicas, antecipando um regresso aos défices já durante este ano.

Na actualização das suas previsões divulgada esta segunda-feira, a entidade liderada por Álvaro Santos Pereira mantém, no seu cenário base, uma estimativa de crescimento do PIB português de 1,8% este ano, com um ligeiro abrandamento para 1,6% no próximo.

Este é um valor que fica abaixo do projectado pelo Governo que, depois de antecipar um crescimento de 2,3% no Orçamento do Estado, passou em Abril a projectar uma variação do PIB este ano de 2%.

No que diz respeito à taxa de inflação, o Banco de Portugal realizou uma revisão em alta face às previsões que tinha feito em Março, passando a sua estimativa de 2,8% para 3,1% este ano.

Tal como aconteceu recentemente com o BCE, o Banco de Portugal também apresentou esta segunda-feira alguns cenários alternativos, que mostram como é que a economia portuguesa pode reagir no caso dos desenvolvimentos internacionais, nomeadamente no que diz respeito à evolução do conflito no Médio Oriente, serem mais negativos do que o previsto.

No cenário mais severo, a economia cresceria 1,6% este ano e apenas 1,1% no próximo. No cenário mais benigno, não haveria ainda assim lugar a um crescimento mais alto do que os 1,8% em 2026 e 1,6% em 2027 já previsto no cenário base.

A explicação para este facto foi dada por Álvaro Santos Pereira na conferência de imprensa de apresentação das previsões. “Obviamente que as notícias [de um acordo entre os EUA e o Irão] são positivas. Mas mesmo se o estreito fosse hoje aberto ainda vai demorar algumas semanas, mesmo meses, para voltar tudo ao normal. O impacto negativo ainda vai continuar”, disse o governador.

Este desempenho mais fraco da economia face às expectativas do Executivo afecta também as previsões do Banco de Portugal para as finanças públicas. Álvaro Santos Pereira e a sua equipa antecipam agora que o Governo não consiga escapar a um défice de 0,2% este ano, em vez do excedente de 0,1% que o Ministério das Finanças liderado por Joaquim Miranda Sarmento continua a ter como objectivo.

Para os anos seguintes, o Banco de Portugal está a prever um agravamento do défice para 0,5% do PIB. Ainda assim, as previsões do Banco de Portugal continuam a apontar para a manutenção de uma tendência de diminuição do rácio da dívida pública, que pode ficar abaixo dos 80% do PIB já em 2028.

Na conferência de imprensa de apresentação do documento, Álvaro Santos Pereira assumiu que as diferenças de previsões entre o Banco de Portugal e o Governo para as finanças públicas podem vir a ser anuladas pela acção do Governo. “Estamos a falar de valores [previstos para o défice] muito perto do zero. Há obviamente uma margem para se chegar a um excedente, tudo depende do Governo e da economia”, disse.

No que diz respeito ao cumprimento das regras orçamentais europeias, o banco central alerta que a despesa líquida está a crescer acima dos limites estabelecidos. Mas, ainda assim, Álvaro Santos Pereira assinalou que, por causa dos valores do saldo orçamental e da dívida, não está preocupado que “Portugal entre numa situação em que seja aberto um procedimento por défices excessivos”.

O governador do Banco de Portugal deixou, no entanto, um aviso: “Apesar de termos uma dívida já próxima de 80%, não devemos ser complacentes, porque o envelhecimento da população vai ter um impacto muito grande e vai voltar a fazer crescer o peso da dívida pública no PIB”, disse.