O último contacto confirmado com Epstein ocorreu pouco depois das 22h00 de 9 de agosto, quando Noel fez a ronda e o empresário lhe pediu para ligar a sua máquina de CPAP (utilizada para a apneia do sono). A investigação encontrou aqui o seu primeiro grande obstáculo: o sistema de vigilância. Uma falha de hardware ocorrida uma semana antes significava que quase metade das câmaras da SHU não estava a gravar, embora transmitissem imagens em tempo real. Entre as poucas imagens recuperadas, às 22h40, a câmara captou um vulto laranja indistinto a subir as escadas em direção ao corredor de Epstein. Embora tenha alimentado teorias sobre um assassino, o inspetor-geral concluiu ser “muito provável” que fosse a guarda Noel a transportar lençóis ou uniformes de recluso, uma vez que ela tinha as chaves da unidade.
Enquanto os dois guardas estavam no posto, Chad Brown, um recluso da cela vizinha de Epstein, relatou ter ouvido algo perturbador naquela noite: o som de lençóis a serem rasgados. Reconhecendo o potencial significado do ruído, Brown tentou intervir de forma indireta, perguntando a Epstein se ele tinha selos postais que pudesse usar. “Eu não pedi selos nenhuns”, respondeu o empresário, com uma calma que Brown recordou como “invulgar”. O som de tecido a rasgar continuou por mais dez minutos antes de ficar tudo em silêncio. Foi o último sinal de vida de Jeffrey Epstein.
Entre a 1h00 e as 2h44 da manhã, as câmaras de vigilância que ainda funcionavam mostraram Noel e Thomas sentados à secretária, imóveis. Os investigadores federais concluíram que os guardas estavam a dormir. Noel tentou mais tarde acordar Thomas por volta das 3h00, mas este não reagiu. Às 3h14, Noel abandonou o posto durante três minutos para ajudar numa contagem noutra ala da prisão, deixando a unidade de Epstein sem qualquer vigilância ativa.
Apesar de ter apresentado tendências suicidas, Epstein não estava sob vigia quando se enforcou
Durante todo este período, as rondas de 30 minutos que deveriam ter sido realizadas nunca aconteceram. No entanto, para efeitos de registo oficial, os guardas falsificaram os documentos, assinando formulários que confirmavam inspeções que nunca realizaram. A negligência só foi interrompida às 6h30 da manhã, quando Michael Thomas iniciou a distribuição do pequeno-almoço. Ao chegar à cela 220, encontrou Epstein imóvel, pendurado no beliche por um laço de tecido laranja. O corpo estava a poucos centímetros do chão.
Thomas cortou o laço laranja e iniciou compressões torácicas, gritando desesperadamente: “Respira, Epstein, respira!”. Momentos depois, a admissão da culpa foi verbalizada pelo próprio guarda à sua colega Noel: “Vamos ter tantos problemas“. Mais tarde, perante um tenente da prisão, Thomas seria ainda mais explícito: “Nós lixámo-nos”.
Jeffrey Epstein morreu na cela no dia 10 de agosto de 2019. Apresentou-se, desde então, o suicídio como causa de morte, mas sempre foram surgindo questões quanto à forma como teria conseguido suicidar-se. Após a sua morte, abriu-se uma nova frente de batalha no campo da medicina forense, onde a interpretação de lesões físicas se tornou o centro de uma das maiores controvérsias do sistema prisional norte-americano.
Epstein foi declarado morto às 7h36 de 10 de agosto, no Hospital New York-Presbyterian Lower Manhattan, após ter sido transportado de urgência do MCC. No dia seguinte, Kristin Roman, uma examinadora médica da cidade de Nova Iorque, realizou a autópsia cujas conclusões seriam, cinco dias depois, inequívocas: Epstein morreu por enforcamento suicida.
Esta declaração oficial foi contestada por Michael Baden, um patologista de 91 anos contratado por Mark Epstein, o irmão do financeiro. Baden, que já tinha liderado o gabinete de examinadores médicos de Nova Iorque nos anos 70 e participado em investigações de casos célebres como os de John Belushi ou George Floyd, assistiu à autópsia e concluiu que as evidências apontavam para homicídio por estrangulamento, e não para suicídio, devido a três fraturas no pescoço.
Segundo o patologista, este padrão de lesões no pescoço é muito comum em casos de estrangulamento homicida e, na sua experiência, quase nunca visto em suicídios. Esta tese alimentou rapidamente as teorias de conspiração que já circulavam nas redes sociais, sugerindo que Epstein teria sido silenciado por alguém com interesse em proteger os segredos da elite global.
Contudo, a investigação do New York Times consultou nove patologistas e médicos que ofereceram uma perspetiva diferente, sublinhando que a “ciência forense não é uma ciência exata”, mas sim interpretativa. Estes especialistas notaram que, embora as fraturas tenham sido vistas como indicadores claros de homicídio, o conhecimento médico atual confirma que elas podem, de facto, ocorrer em enforcamentos suicidas. Judy Melinek, uma patologista forense citada na investigação, explicou que lesões idênticas podem resultar tanto de um crime como de um ato voluntário, sendo o contexto da cena da morte muitas vezes mais decisivo do que as lesões em si.
O grande obstáculo à verdade absoluta foi a “gestão desastrosa” da cena do crime por parte do MCC, assinala o jornal nova-iorquino. Quando os agentes do FBI chegaram à cela 220, sete horas após a descoberta do corpo, encontraram um local que tinha sido totalmente mexido pelos guardas e paramédicos. A desorganização foi tal que os investigadores nem sequer tentaram recolher amostras de ADN, algo que é uma rotina em cenas de crime.
Mais grave ainda foi o erro na recolha de provas físicas. Fotografias da cela reveladas posteriormente mostram que os investigadores registaram o laço errado. O objeto como prova não correspondia em ângulo ou largura à marca deixada no pescoço de Epstein. O laço que provavelmente suportou o peso do corpo (uma tira de tecido mais longa, estreitamente torcida e rasgada num ponto) foi encontrado num canto da cela no meio do caos e acabou por ser deitado para o lixo antes que alguém reconhecesse a sua importância.