‘Toy Story 5’ tem a volta de personagens queridos e novo vilão, e se baseia em um conflito extremamente identificável tanto para crianças quanto para pais Foto: Reprodução/@waltdisneystudiosbr via YouTube

Os filmes de Toy Story, assim como Star Wars e aqueles jogos que Michael Jordan jogou pelo Washington Wizards, criam um problema de cânone. Os três primeiros filmes são uma trilogia quase perfeita: uma série que atravessou uma infância inteira, da brincadeira no quarto à faculdade, do encantamento à perda. O escopo não parecia épico. Os filmes raramente iam muito além da pizzaria da esquina ou da Al’s Toy Barn (Loja de Brinquedos do Al). Ainda assim, aqueles três primeiros longas, tão sintonizados com as dores tanto da infância quanto da paternidade, pareciam se estender ao infinito e além.

Mas, é claro, o preciosismo narrativo não é um princípio duradouro na gestão de franquias da Hollywood moderna. Nove anos após Toy Story 3 — um final tão impecável quanto o arremesso de quase despedida de Jordan em 1998 — veio Toy Story 4. Faturou um bilhão de dólares fácil e implodiu o arco artístico de Toy Story. Quanto menos falarmos sobre Lightyear — com certeza o capítulo “Washington Wizards” de Toy Story —, melhor. No entanto, por mais que meu coração amargo quisesse rejeitar Toy Story 4, tive que admitir que era muito bom. Há um limite para a minha postura moralista diante de Tony Hale como um garfo e [Keegan-Michael] Key e [Jordan] Peele como bichinhos de pelúcia.

‘Toy Story 4’: Se a trilogia original sugeria que a história termina quando a criança chega à idade adulta, o quarto filme é sobre Woody lidando com a ‘síndrome do ninho vazio’ Foto: Disney/Pixar/ Divulgação

E Toy Story 4 também tinha um argumento decente. Se a trilogia original sugeria que a história termina quando a criança chega à idade adulta, o quarto filme é sobre Woody lidando com a “síndrome do ninho vazio”. O caubói de Tom Hanks e a Betty de Annie Potts descobrem que a vida continua depois do Andy. Eles bem que poderiam ter se mudado para a Flórida.

Essa é a minha forma detalhada de dizer que Toy Story 5 é, também, um crime contra a humanidade e, também, muito bom. Pode ficar um pouco abaixo dos três primeiros e provavelmente se posiciona como o quinto melhor de todos. Mas o sarrafo de Toy Story é alto, e a qualidade e a sensibilidade que há tanto tempo distinguem a Pixar estão muito presentes aqui, no filme dirigido e coescrito por Andrew Stanton — um veterano da Pixar que está na franquia desde o primeiro Toy Story, de 1995.

Há alguns trunfos básicos neste novo filme. Ele traz a caubói Jessie (Joan Cusack) mais para o centro da história, e ela sempre foi uma figura divertidíssima. A fofíssima Bonnie (dublada por Scarlett Spears) é um upgrade em relação ao Andy. (Desculpe, Andy.) Mas, acima de tudo — como o marketing de “brinquedos vs. tecnologia” deixou bem claro —, Toy Story 5 se baseia em um conflito extremamente identificável tanto para crianças quanto para pais.

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Em Toy Story 5, os tablets chegam de forma tão sinistra quanto as armas em 2001: Uma Odisseia no Espaço. Os pais de Bonnie, temendo que a filha fique para trás, cedem e compram para ela um Lilypad (“Lily”, dublada por Greta Lee). Quando Bonnie leva a Lily para uma festa do pijama, os brinquedos, espiando pela janela do porão, ficam horrorizados ao ver as crianças “apenas sentadas ali”. Os alarmes começam a soar. “A era dos brinquedos acabou!”, grita um brinquedo desolado ali perto. Mais tarde, o dinossauro Rex (Wallace Shawn) exclama: “Extinção! De novo não!”.

No mundo de Toy Story, assim como no nosso, o início do “tempo de tela” é um evento genuinamente cataclísmico. Isso, é claro, já foi parte central de outras animações recentes (A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas e Ron Bugado são algumas das muitas que vêm à mente). Mas abordar o tema significa algo a mais em um filme de Toy Story — e não apenas porque a Pixar foi a pioneira da animação digital. Esses filmes fizeram tanto para capturar a infância que quase parecem fazer parte da nossa própria história. E, considerando o quão profundamente as telas se inseriram na experiência de crescer, essa reviravolta na trama dá a Toy Story 5 algo que a maioria das sequências não pode reivindicar: uma razão de existir.

Lily é uma ameaça não apenas para os brinquedos, mas também para Bonnie, de 8 anos. Logo, ela para de brincar com seus brinquedos e fica viciada no aparelho. Vivenciamos isso como uma espécie de tragédia, não apenas porque leva Bonnie ainda mais para a solidão, mas porque ela faz isso para se enturmar. Como uma praga, nenhuma das outras crianças brinca mais com brinquedos.

Toy Story 5 traz Woody com calvície e a ameaça de Lilypad, um tablet infantil que se torna o brinquedo favorito de Bonnie Foto: Disney/Pixar/Divulgação

O fato de os humanos nunca pegarem os brinquedos se movendo sempre foi uma piada infalível na franquia. Mas há uma cena genuinamente melancólica desta vez. Quando a aventura engrena e um pequeno grupo de brinquedos pega um atalho por dentro de uma casa, eles passam totalmente despercebidos porque todos ali dentro estão com a cabeça enfiada nas telas. Há também um pai em uma chamada de Zoom e algo parecido com cyberbullying na versão infantil.

As consequências da experiência de Bonnie com o Lilypad mandam Jessie e Bala no Alvo para a fazenda onde Emily, a primeira dona de Jessie, morava. Agora vive lá uma garota criativa de 9 anos que anda a cavalo, chamada Blaze (Mykal-Michelle Harris). Não é difícil ver a resposta para a crise existencial dos brinquedos: uma tarde de brincadeiras juntos.

Unir Bonnie e Blaze torna-se uma missão de resgate para Jessie, seus companheiros conhecidos (incluindo um Woody de visita) e um pequeno grupo de brinquedos perdidos da própria Blaze. Entre eles está uma trupe de aparelhos de primeira geração movidos a pilha AA, como um troninho de desfralde (Conan O’Brien), uma câmera (Shelby Rabara) e um hipopótamo com GPS (Craig Robinson).

A ação que se segue — que inclui uma frota de Buzz Lightyears (Tim Allen) em modo de demonstração — é previsivelmente encantadora, mesmo que não seja (com o tom esnobe de novo) do primeiríssimo escalão de Toy Story. Mas o que há de mais convincente na forma como tudo se resolve são os poucos trechos com desenhos em estilo de giz de cera que animam momentos de pura brincadeira infantil. Essas cenas, frutos da imaginação de Bonnie ou Blaze, são como apelos maravilhosos para as crianças (e adultos) criarem sua própria diversão.

Os filmes de Toy Story são sobre crescer, e talvez isso signifique perceber que a trilogia original não era uma verdade absoluta pela qual valia a pena morrer. Afinal, todos sabemos que a verdadeira causa pela qual vale a pena lutar é que o melhor filme da Pixar é Ratatouille.

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