A Via Láctea conserva os vestígios de antigas fusões galáticas, detetados no movimento irregular de milhares de milhões de estrelas.A Via Láctea conserva os vestígios de antigas fusões galáticas, detetados no movimento irregular de milhares de milhões de estrelas. Belén Valdehita Belén Valdehita Meteored Espanha 17/06/2026 17:23 5 min

A Via Láctea não é um sistema estático, embora, vista da Terra, possa ser percebida como uma faixa estável no céu noturno. A sua história é marcada por vários impactos anteriores que alteraram a sua forma e a sua dinâmica interna ao longo de milhares de milhões de anos.

O estudo da sua evolução permitiu reconstruir episódios que, embora não tenham deixado vestígios visíveis convencionais, deixaram, de facto, marcas no movimento e na composição das suas estrelas. Essa leitura do passado galáctico permite também antecipar as mudanças que virão no futuro.

Via Láctea: memória estelar de antigas fusões galácticas

Os grandes catálogos astronómicos têm vindo a transformar a análise do cosmos. O Sloan Digital Sky Survey abriu o acesso a dados em grande escala, e o telescópio Gaia levou esse trabalho a outro nível com o registo de quase 2 mil milhões de estrelas.

Esse volume de informação permitiu identificar algumas estrelas com trajetórias que não se enquadram no movimento habitual do disco galáctico. Trata-se de objetos que atravessam a galáxia com órbitas irregulares e padrões que não são comuns às estrelas locais.

A sua composição química reforça essa diferença. Apresentam menor abundância de elementos pesados, uma característica associada a sistemas galácticos de menor dimensão e evolução mais lenta, o que aponta para a sua origem fora da Via Láctea.

Gaia-Sausage-Enceladus e a transformação da Via Láctea

Um dos episódios mais relevantes identificados na história galáctica é Gaia-Sausage-Enceladus. Este sistema corresponde aos vestígios de uma galáxia absorvida pela Via Láctea há entre 8 000 e 11 000 milhões de anos.

A Grande Nuvem de Magalhães já exerce a sua influência sobre a Via Láctea, alterando o seu halo e antecipando uma nova interação gravitacional.A Grande Nuvem de Magalhães já exerce a sua influência sobre a Via Láctea, alterando o seu halo e antecipando uma nova interação gravitacional.

O impacto deixou uma marca dinâmica clara no comportamento das estrelas. Parte do disco primitivo foi deslocada para o halo e foram incorporados novos aglomerados estelares provenientes da galáxia absorvida.

Além disso, estima-se que esse encontro possa ter alterado a orientação do disco galáctico em relação ao halo de matéria escura. Este componente invisível, mas dominante nas zonas externas, condiciona a gravidade total do sistema.

Matéria escura e cartografia da Via Láctea

A matéria escura continua a ser um dos grandes enigmas da astrofísica. Não emite luz, mas a sua influência gravitacional mantém as galáxias unidas e estrutura o seu movimento em grande escala.

Na Via Láctea, a sua distribuição pode ser estudada com maior precisão do que noutras galáxias, graças ao acompanhamento individual das estrelas. Isto permite estimar a sua forma, a sua densidade e o seu comportamento em diferentes zonas do sistema.

Os dados atuais sugerem que o halo de matéria escura não é uniforme. Apresenta irregularidades e deformações que podem estar relacionadas com fusões antigas e com a dinâmica interna da galáxia.

Grande Nuvem de Magalhães: a nova perturbação gravitacional

Após um longo período de relativa estabilidade, a Via Láctea volta a sofrer tensões externas. A Grande Nuvem de Magalhães, a sua companheira mais massiva, está a exercer uma forte atração gravitacional.

Esse efeito já está a alterar a estrutura do halo galáctico e a modificar o equilíbrio do sistema. O processo lembra, em menor escala, o que aconteceu em episódios de fusão anteriores.

O cenário atual aponta para uma interação prolongada que poderá redefinir a dinâmica de ambas as galáxias. Mais do que um acontecimento pontual, trata-se de um processo prolongado no tempo que já começou a fazer-se sentir nos seus movimentos.

Referência da notícia

The Conversation: The Milky Way was rewired by a cataclysmic collision billions of years ago. Now it is on course for another