A Colômbia entrou com a chuteira direita no Mundial 2026, o que significa que materializou o favoritismo com que partiu para o embate da 1.ª jornada do Grupo K – e isso já não é coisa pouca nos tempos que correm. Para se impor ao estreante Uzbequistão (3-1), porém, precisou da melhor versão de Luis Díaz e de uma panóplia de recursos que servem de aviso amarelo a Portugal para os dias que se aproximam.

O lance do último golo do jogo, já aos 90+9′, ilustra bem o nível de intensidade e de agressividade imposto nos duelos que se travaram no Estádio Azteca. Cucho Hernández discutiu a bola com Urozov junto à linha lateral no meio-campo ofensivo, não aguentou a carga, caiu, levantou-se num piscar de olhos, recuperou a bola perdida, trocou as voltas ao central, cruzou de ângulo apertado para o segundo poste e Campaz cabeceou com êxito. Dois trunfos saídos do banco colombiano.

Tal como acontecera em Houston horas antes, foi um jogo essencialmente de sentido único no domínio da iniciativa. Ao contrário do que sucedera no Portugal-Congo, contudo, o vencedor usou um conjunto alargado de chaves até encontrar as que melhor servissem nas diferentes fechaduras preparadas por Fabio Cannavaro.

No plano estrutural, o jogo explica-se facilmente: uma selecção, a da Colômbia, maioritariamente em 4x3x3, com Luis Díaz, James Rodríguez e Luis Suárez no trio mais adiantado, devidamente suportado por um Jefferson Lerma inesgotável; e a outra, o Uzbequistão, num 3x4x2x1 com bola, que foi quase sempre um 5x4x1, por força do controlo praticamente absoluto dos sul-americanos.

A superioridade da Colômbia foi mais evidente na primeira parte, altura em que montou o cerco ao adversário no meio-campo ofensivo, alternando o jogo à largura com permanentes movimentos de ruptura no espaço – e tanto ensaiava diagonais nas costas do trio de centrais uzbeques como acções mais verticais, entre central da ponta e lateral. Numa delas, aos 32′, mostrou ao que vinha, com um passe magistral de Lerma para um disparo ao poste de Luis Díaz. Estava feito o aviso.

O Uzbequistão, com muita disponibilidade física e uma capacidade assinalável nos duelos, só avistava a baliza de Camilo Vargas à distância e o exercício de resistência durou até aos 40′, altura em que o lateral direito Daniel Muñoz (Crystal Palace) fez uma diagonal longa para desviar, no ar e de primeira, uma assistência perfeita de Luis Díaz na profundidade.

Fayzullaev para a hi

O resultado não surpreendia. O que surpreendeu (ou talvez não) foi a entrada mais afoita do Uzbequistão na segunda parte, aproveitando o facto de a Colômbia ter tirado um pouco o pé do acelerador. E aos 60′, num lance de insistência (cruzamento feito no limite, com remate de recurso), Fayzullaev, jovem talento dos turcos do Basaksehir (quatro golos e quatro assistência em 26 jogos na Liga), limitou-se a empurrar para a baliza uma bola que sobrou sobre a linha de golo.

Os uzbeques, que tinham feito um só remate na primeira parte e fecharam as contas com oito, punham as garras de fora e pareciam dispostos a ir à procura de algo mais. Mas não tiveram tempo de engatar a segunda velocidade. Num lançamento lateral, um contexto tão fértil como qualquer outro, a Colômbia apertou estrategicamente o portador (demasiado desprotegido) no meio-campo ofensivo, iniciou uma transição rápida que só terminou no fundo da baliza, cortesia de Luis Díaz (65′).

Foi o mote para o seleccionador Nestor Lorenzo iniciar a dança das substituições, que incluiu Richard Ríos e a tal dupla que deu origem ao 3-1 final, uma penalização talvez demasiado severa para a alma que o Uzbequistão pôs em campo – e que merecia que aquele torpedo do lateral direito Karimov, praticamente no último lance, não tivesse sido devolvido pela trave.

Ainda assim, os milhares de adeptos que, na terra natal, se distribuíram pelas 208 escolas seleccionadas para acolher ecrãs que difundissem o jogo tanto quanto possível pelo país, a juntar a milhares de outros locais (incluindo edifícios públicos e empresas) que se prepararam para celebrar a estreia do Uzbequistão no palco dos palcos, não terão ficado defraudados. A selecção pode ter (para já) apenas um jogador de nível global (o jovem central do Manchester City Abdukodir Khusanov), mas está a crescer. Vamos ver que maturidade mostra diante de Portugal, na terça-feira.