O El Niño é um dos mais importantes reguladores naturais do clima à escala global e os cientistas acreditam que a versão que começou agora pode entrar para a história. Os primeiros sinais são tão fortes que alguns já lhe chamam “super El Niño” ou “Godzilla”.
Há séculos, pescadores ao largo da costa do Peru repararam num fenómeno estranho: de tempos a tempos, os peixes desapareciam das águas do Pacífico próximo do Natal. Chamaram-lhe El Niño, em referência ao Menino Jesus. Hoje, é conhecido como um dos mais importantes reguladores naturais do clima global e os cientistas acreditam que a versão que acaba de começar poderá entrar para a história. E não pelos melhores motivos.
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A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) declarou oficialmente, a 11 de junho, o regresso do El Niño. Os dados mostram que as águas superficiais do Pacífico equatorial estão já significativamente mais quentes do que o normal e que a atmosfera começou a responder a esse aquecimento, um dos critérios essenciais para confirmar o fenómeno.
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As previsões apontam para um agravamento gradual ao longo dos próximos meses. Segundo a NOAA, existe uma probabilidade de 63% de este episódio atingir a categoria de “muito forte” entre o final de 2026 e o início de 2027, o que o colocaria entre os mais intensos desde o início dos registos modernos, em 1950.
Mas porque é que alguns décimos de grau no Pacífico podem preocupar o resto do mundo? O El Niño é a fase quente da Oscilação Sul do El Niño (ENSO), um ciclo climático natural que ocorre, em média, a cada três a sete anos. Quando os ventos alísios enfraquecem, as águas quentes acumuladas no Pacífico ocidental deslocam-se para leste. Essa energia extra altera os padrões de circulação atmosférica e desencadeia uma cadeia de efeitos que pode influenciar o clima em praticamente todos os continentes.
Os impactos variam de região para região. Algumas zonas enfrentam secas prolongadas e risco acrescido de incêndios florestais; noutras, aumentam a probabilidade de chuvas intensas, cheias e tempestades. Índia, Indonésia, Austrália, partes de África e várias regiões das Américas estão entre as áreas mais vulneráveis.
Além disso, o fenómeno surge num contexto particularmente delicado. O planeta já atravessa um período de aquecimento acelerado devido às emissões de gases com efeito de estufa. O último episódio de El Niño, entre 2023 e 2024, contribuiu para que 2024 se tornasse o ano mais quente alguma vez registado.
A Agência Espacial Europeia (ESA) revelou entretanto que os satélites estão a detetar um aumento acentuado das temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical, considerado o sinal mais claro de que o fenómeno está em desenvolvimento. Os investigadores sublinham que pequenas diferenças de temperatura à superfície representam enormes quantidades de energia armazenadas no oceano, capazes de alterar a circulação atmosférica à escala global.
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Na Europa, os efeitos tendem a ser mais indiretos. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), citado pela SIC Notícias, indica que a influência do El Niño em Portugal é relativamente limitada quando comparada com outras regiões do mundo. Ainda assim, alguns estudos sugerem que episódios muito intensos podem alterar padrões atmosféricos que afetam o Atlântico Norte e, consequentemente, as condições meteorológicas europeias durante o inverno.
O Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia vai mais longe e considera praticamente certo que este episódio tenha impactos significativos à escala global, incluindo efeitos na agricultura, nos preços dos alimentos e em populações vulneráveis.
Apesar dos alertas, os especialistas lembram que o El Niño não determina exatamente o que acontecerá em cada região. O fenómeno aumenta a probabilidade de determinados cenários climáticos, mas não os garante. Ainda assim, os sinais observados até agora são suficientemente fortes para que muitos investigadores já lhe atribuam alcunhas como “super El Niño” ou mesmo “Godzilla”.
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