William Volcov / Brazil Photo Press / AFP

Yan Diomande, jogador da Costa do Marfim

Internacional de 19 anos da Costa do Marfim abriu o coração em carta dirigida à falecida irmã, Roxane, publicada no The Players Tribune. “Foste tu quem sempre acreditou, os outros riam”.

Yan Diomande, extremo da Costa do Marfim a atuar nos alemães do RB Leipzig, deixou os adeptos em lágrimas esta quinta-feira, ao dedicar a sua presença no Mundial, o palco dos palcos, à irmã que morreu tragicamente aos 15 anos.

A emocionada homenagem foi publicada na íntegra no The Players Tribune, onde o futebolista, ainda adolescente, recorda a longa e difícil caminhada que o trouxe até ao Mundial 2026. Pouco depois de se estrear, contra o Real Madrid, no futebol europeu, pelo Leganés, na La Liga, em Espanha, soube da morte da irmã, cuja bebida terá sido adulterada numa festa. Roxane tinha 15 anos.

“Nunca obtive respostas”, escreveu o atleta, que brilhou na vitória (1-0) frente ao Equador. “Agora, não sinto nada”, confessou. “Foste tu quem sempre acreditou, os outros riam (…) tudo o que faço num campo de futebol é por ti.”

Na carta, escrita antes da viagem para a América do Norte, onde disputa o Mundial, Diomande assume ainda que agora tenta transformar a dor em motivação para continuar a trabalhar, pela irmã, que também tinha o sonho de ver o irmão a brilhar. Com Diomande, Roxane viveu uma infância difícil em Abidjan, na Costa do Marfim, com 25 pessoas a viver numa casa, de ver o irmão partir aos 9 anos em busca do seu sonho, e depois aos 15 para os Estados Unidos. “Apenas um menino, sozinho”.

Cristiano Ronaldo era o seu ídolo desde os tempos em que Yan calçava umas sandálias brancas no lugar das chuteiras que não tinha. Pelo caminho, o costa-marfinense lembra que enfrentou várias rejeições em testes por clubes europeus.

O jogador conta que chegou a sentir que o sonho tinha acabado quando o visto expirou e teve de regressar a África, para junto da irmã, que nunca deixou de acreditar no irmão. Poucas semanas depois, o craque assinou pelo Leganés.

Diomande, já associado aos gigantes do Liverpool, promete honrar essa confiança no maior palco do futebol mundial. Na carta, garante que quer mostrar ao mundo aquilo que Roxane sempre viu nele e afirma que, sempre que marcar, fará questão de lembrar o nome da irmã para que todo o mundo a conheça. E quer provar que Roxane tinha razão quando dizia que ele podia tornar-se “o melhor do mundo”.

Eis a carta de Yan Diomande, na íntegra.

Querida Roxane,

Lembras-te de quando alguém me comprou uma camisola falsa do United e eu escrevi «Ronaldo 7» nas costas com o marcador preto?

Não sabíamos o que era ser rico ou pobre. Só conhecíamos a felicidade.

Lembras-te das 25 pessoas a dormir numa única casa, lá em Abidjan? A mãe queria ver as suas telenovelas. Todos os outros queriam ver filmes. Lembras-te de como eu costumava fingir que estava a dormir e depois ia para a sala de televisão depois da meia-noite? Ligava a televisão bem baixinha. Apenas com duas riscas de volume. Via futebol no escuro e sonhava.

Lembras-te de quando os adultos me viram a jogar futebol na terra e me apelidaram de «Roberto Carlos» por causa da força com que rematava? E lembras-te de como, secretamente, fiquei tão zangado com isso, porque o CR7 era o meu ídolo?

Lembras-te de quando fui jogar tão longe de casa? Tinha 9 anos. No Inter Foot Sud Comoé, bem perto da fronteira com o Gana. Apenas um menino, sozinho. Não sei se alguma vez te contei esta história, mas eu e os outros miúdos costumávamos ir à aldeia roubar batatas porque estávamos com muita fome. Fizemos um «assalto a um banco». Duas crianças distraíam o dono da loja e outras 18 saíam a correr com duas batatas. Nem sequer eram boas. Mas sabiam a maravilha. Hahahah. Continua a ser a minha comida preferida. Batatas cozidas com um pouco de azeite. Faz-me lembrar aqueles tempos.

Lembras-te de quando recebi as minhas primeiras chuteiras de futebol a sério e costumava dormir com elas? Enquanto crescia, jogava sempre com aquelas sandálias brancas de plástico. Mesmo quando volto a casa agora, ainda jogo com elas. É a nossa tradição.

Lembras-te de quando eu voltava para casa e tu dizias aos meus amigos do bairro: «Porque é que deixaste de treinar? O Yan não te vai comprar carros. Tens de continuar a esforçar-te.»

Tinhas 10 anos e já eras o meu agente.

Lembras-te de como costumávamos sentar-nos e sonhar em mudar-nos para França? De como íamos às compras e arranjar o nosso próprio apartamento, e eu ia ser um futebolista rico, com carros e uma casa grande, e tu não terias de te preocupar com nada. Foste tu que sempre acreditaste que eu podia ser o próximo Cristiano, quando todos os outros se riam.

Lembras-te de quando me mudei para os Estados Unidos para frequentar o liceu aos 15 anos e sentia tantas saudades de casa? Durante meses, não percebia o que ninguém dizia. Colocaram-me ao lado de um rapaz francês, e ele tentava traduzir tudo o que o professor dizia. Lembras-te de quando te liguei a dizer: «Não vais acreditar, aqui os miúdos discutem com os professores.»

No nosso país, sabes que nem sequer nos atreveríamos a pestanejar na presença dos mais velhos.

Lembras-te de quando eu não conseguia acreditar que os miúdos fumavam depois das aulas?

Costumavas dizer que parecia que eu estava num programa de televisão americano.

Lembras-te de quando me levaram para um período de testes no Bournemouth? No Chelsea, no Rangers, no Olympiacos, no Crystal Palace? O Eze e o Olise até vieram ter comigo depois de um treino e disseram: «Ei, miúdo, és mesmo bom.»

Mas mesmo assim não me contrataram.

Nem sequer as equipas B da MLS me queriam. Eu nem sequer sabia porquê. Nunca me deram uma razão. Os adultos tratavam de tudo. Limitavam-se a levar-me por toda a Europa, e toda a gente continuava a dizer que não.

O meu visto tinha expirado. O meu sonho tinha acabado. Mandaram-me de volta para África e chorámos juntos.

Foste tu que nunca deixaste de acreditar. Algumas semanas depois, assinei pelo Leganés e chorámos lágrimas diferentes.

Isso foi na altura em que eu ainda tinha emoções. Agora, não sinto nada. É como se nem sequer fosse humano. Desde que morreste, estou simplesmente vazio.

Acho que nem sequer derramei uma lágrima no dia em que me disseram que tinhas partido. Estava simplesmente em choque.

Foi algumas semanas depois de ter feito a minha estreia pelo Leganés. Quem é que faz a estreia aos 18 anos contra o Real Madrid? Era de loucos. Era um sonho.

E depois tornou-se um pesadelo. Havia alguém que não parava de me ligar de lá de casa. Fiquei irritado. Não percebia por que razão me ligavam sem parar.

Atendi e nem sequer tentaram amenizar a notícia. Sabes como é lá em casa. Sem emoções. Apenas……..

«A tua irmã morreu.»

«O quê?»

«Ela morreu.»

«Do que é que estás a falar?»

«Alguém colocou alguma coisa na bebida dela numa festa e ela nunca mais acordou. Ela morreu.»

Tinhas 15 anos.

15.

Nunca obtive respostas. Não sei se quero saber porquê. Talvez tenha sido inveja. Talvez seja apenas algo que acontece no nosso país. Talvez eu pudesse ter-te protegido. Não sei.

Tento confiar no plano de Deus. É tudo o que posso fazer. Não tento esquecer, porque sei que não vou esquecer. Tudo o que posso fazer é usar a dor para me esforçar mais e para realizar tudo aquilo com que sonhámos.

Escrevi isto porque não consigo falar sobre o assunto. Escrevi isto porque quero que saibas que vou garantir que a tua memória perdure. Vou garantir que toda a gente conheça o teu nome. O mundo inteiro.

Tudo o que faço num campo de futebol é por ti.

Aconteceram tantas coisas desde a última vez que te vi… Nem sequer acreditaria. Nem eu sei se acredito.

Sabes o que é de loucos? Depois da minha estreia contra o Madrid, troquei mesmo de camisola com o Mbappé. Lembras-te de quando costumávamos vê-lo na televisão e tu dizias: «Mbappé? Pois, ele é bom. Mas o meu irmão é melhor.»

Eu estava errado numa coisa. Não quero ser rico. Vejo o que isso faz às pessoas, até mesmo à família. Quando estava no Leganés, tudo o que ganhava, mandava para casa. Chegou a um ponto em que já nem sequer queria dinheiro. Era apenas um fardo. Eles nunca paravam de pedir. Acho que pensavam que eu já era milionário. Eu nem sequer tinha um apartamento. Viviam no centro de treinos, num quarto sem televisão. Só futebol e dormir, futebol e dormir.

Não queria uma casa grande. Não queria carros. Só queria dedicar-me totalmente ao futebol. Tudo para mostrar ao mundo que a minha irmã tinha razão…….

Ha… vais achar isto engraçado.

Quando me mudei para jogar no RB Leipzig, estava sempre atrasado. Bem, não propriamente atrasado. Mas chegava a horas, o que na Alemanha significa que estás muito atrasado.

Por isso, já sabes o que fiz a seguir. Comecei a chegar 90 minutos mais cedo a tudo. Chegava tão cedo o tempo todo que os rapazes começaram a chamar-me «O Alemão».

Tenho sempre de exagerar em tudo. Não tenho paciência nenhuma. Tu dizias sempre isso.

O campo é o único lugar onde ainda me sinto em casa. É o lugar onde me sinto calmo e onde posso falar contigo. Só gostava que ainda estivesses aqui para te poder dizer… Conseguimos.

Tudo o que disseste tornou-se realidade.

Partimos amanhã para o Mundial. A sério. O teu irmão vai jogar pela Costa do Marfim, como o Drogba, como o Yaya, como o Gervinho.

Nem sequer encaro isto como um jogo. Encaro-o como um palco. Esta é a minha oportunidade de mostrar ao mundo inteiro o que viste em mim. Sempre que marcar, vou garantir que todos saibam o teu nome. Vou garantir que não se esqueçam de ti.

Sempre disseste que eu podia ser melhor do que o Cristiano. Se o vir por lá, vou cumprimentá-lo por ti.

Vou fazer o que previste, juro. Antes mesmo de eu ter sapatilhas a sério, já dizias a toda a gente: «O meu irmão vai ser o melhor do mundo.»

Vou provar que tinhas razão, ou morrerei a tentar.

O teu irmão,

Yan


Tomás Guimarães, ZAP //


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