Nesha Ichida

A nova espécie recebeu o seu nome em homenagem à coautora do estudo e ecologista Christine Dudgeon (na imagem, com um exemplar do tubarão “andante”)
Uma equipa de cientistas descobriu uma nova espécie de tubarão “andante” na Papua-Nova Guiné. Suspeitam que está em risco de extinção. A criatura pertence a um grupo singular de tubarões cujos membros conseguem usar as fortes barbatanas peitorais como se fossem pernas para se deslocarem.
Os habitantes do sudeste da Papua-Nova Guiné há muito conhecem um peixe invulgar que consegue “andar” sobre as plataformas de recife na maré baixa, com a maior parte do corpo fora de água.
Chamam-lhe kadedekedewa, que significa, grosso modo, “tubarão-preguiçoso” ou “tubarão-cão”, numa alusão ao seu andar bamboleante.
Os cientistas identificaram agora a criatura como uma espécie até então por descrever.
Batizada de Hemiscyllium dudgeonae, ou tubarão-andante de Dudgeon, pertence a um grupo singular de tubarões cujos membros conseguem usar as suas fortes barbatanas peitorais como se fossem pernas, enquanto percorrem as costas da Austrália e da ilha da Nova Guiné.
Os investigadores descrevem o H. dudgeonae, a primeira espécie nova do género Hemiscyllium desde 2013, num artigo publicado na segunda-feira no Journal of the Ocean Science Foundation.
O H. dudgeonae tem o nome da coautora do estudo Christine Dudgeon, ecóloga na Universidade da Sunshine Coast (USC), na Austrália, que avistou pela primeira vez o tubarão em março de 2025, nas águas pouco profundas da Baía de Milne, situada ao largo do extremo sudeste da Papua-Nova Guiné e que se abre para o Mar de Salomão.
Dudgeon estava a nadar à procura de tubarões de uma espécie já conhecida, o tubarão-epaulette, quando se deparou com uma criatura de cerca de 75 cm de comprimento a deslizar junto ao fundo do mar, conta a Smithsonian.
A ecóloga apontou o feixe da lanterna à frente do tubarão, o que o fez imobilizar-se. Aproximou-se a nado, agarrou-o com delicadeza, virou-o ao contrário e enfiou-lhe a cauda debaixo da axila para o manter imóvel .
“Novas espécies de tubarão não surgem com frequência, e esta é definitivamente a primeira a receber o meu nome“, disse Dudgeon em comunicado da USC.
Dudgeon passou o tubarão à autora principal do artigo, Jess Blakeway, também ecóloga na Universidade da Sunshine Coast, que aguardava num barco próximo. De imediato, Blakeway percebeu, pelo padrão de cor do tubarão, que não se tratava de um tubarão-de-charreteira-leopardo — era algo completamente diferente.
“Este novo tubarão tem muitas manchas e traços que me fizeram lembrar braille ou código morse”, contou Blakeway à New Scientist.
Nos dias seguintes, a equipa procurou outros exemplares do tubarão, tendo capturado um total de 12 indivíduos. Recolheram amostras biológicas de nove antes de os libertar, mas guardaram os outros três para estudo aprofundado.
Os testes de ADN confirmaram que estes tubarões tinham diferenças genéticas suficientes em relação aos restantes tubarões-andantes para justificar a sua classificação como nova espécie.
As criaturas parecem passar a maior parte do tempo em águas pouco profundas, nadando por entre ervas marinhas e afloramentos de coral dispersos.
“Muitas vezes, falamos do mar profundo como algo desconhecido — não pensamos verdadeiramente nas águas pouco profundas como sendo desconhecidas”, diz Blakeway à 10 News Perth. “Por isso, encontrar uma nova espécie de tubarão em águas pouco profundas é simplesmente entusiasmante“.
Embora os cientistas só agora tenham tomado conhecimento da existência da espécie, suspeitam que esta corre o risco de se extinguir.
Estes tubarões enfrentam inúmeras ameaças, incluindo o branqueamento de corais provocado pelas alterações climáticas e a perda e degradação de habitat decorrentes do desenvolvimento costeiro e da expansão das plantações de palmeira-de-óleo.
Antes desta descoberta, eram reconhecidas 9 espécies de tubarão-andante, duas das quais consideradas “vulneráveis” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), entre elas o tubarão-epaulette que a equipa procurava inicialmente na Baía de Milne.