Poucas horas depois da entrada em vigor de um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah, na sexta-feira, as forças ao comando de Benjamin Netanyahu voltaram a atacar o Sul do Líbano, matando pelo menos 32 pessoas e ameaçando o frágil acordo provisório alcançado também entre os Estados Unidos e o Irão. Em resposta, o comando militar conjunto do Irão, Khatam Al-Anbiya, anunciou que iria encerrar o estreito de Ormuz ao tráfego marítimo.
As forças armadas iranianas falam da medida como um “primeiro passo” em resposta ao que descrevem como “crimes” israelitas e violações do memorando de entendimento por parte dos Estados Unidos, nomeadamente, do primeiro ponto do acordo, em que se lê: “Os EUA e o Irão, bem como os seus aliados na actual guerra (…), declaram a cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo no Líbano (…), garantindo igualmente a integridade territorial e a soberania do Líbano.”
Teerão avisou ainda que poderá adoptar novas medidas caso a “agressão continue”. Entretanto, os Guardas da Revolução do Irão confirmaram o encerramento de Ormuz e deixaram um alerta para que as embarcações que navegam na região não se aproximem do estreito.
Só neste sábado, as forças israelitas mataram pelo menos 32 pessoas no Líbano, segundo divulgou a agência estatal libanesa National News Agency. Os ataques concentraram-se sobretudo na região de Nabatieh, no Sul, onde aviões e drones das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) destruíram edifícios residenciais e habitações, mas também no Vale do Bekaa (a leste de Beirute).
O Hezbollah reagiu acusando Israel de centenas de violações da trégua em vigor e avisou que os ataques, bem como quaisquer tentativas de “tomar território ou expandir a ocupação” por parte de Israel, “não ficarão sem resposta”. O movimento xiita libanês apelou também aos Estados Unidos para que pressionem o Governo de Netanyahu a cessar os bombardeamentos.
Esta manhã, a Al Jazeera detalhava que um dos ataques aconteceu em Arabsalim (Nabatieh), onde foram mortas três pessoas. Uma outra pessoa foi morta num bombardeamento em Deir ez-Zahrani, na mesma região, e outra num ataque de drone contra uma mota à entrada da aldeia vizinha de Doueir.
Um dos ataques mais mortíferos ocorreu em Qannarit, no distrito de Sidon, onde se registaram sete vítimas mortais. Na localidade de Barish, distrito de Tiro, um edifício residencial de três andares foi atingido, provocando a morte de um casal e dos seus dois filhos, segundo informações citadas pela Reuters e obtidas através de um responsável local. A agência noticiosa refere ainda que um soldado libanês foi morto num ataque israelita na estrada entre Kfarrumman e Nabatieh.
Na versão das IDF, os militares israelitas apenas ripostaram contra o que descrevem como alvos do Hezbollah, depois de, afirmam, o movimento apoiado pelo Irão ter lançado mais de 50 projécteis contra as forças israelitas no Sul do Líbano durante a madrugada. As Forças de Defesa de Israel garantem ainda manter os seus compromissos em relação à trégua acordada, alegando que a presença dos militares no país vizinho se destina a eliminar ameaças, sem visar civis. Recordam também que Israel não foi incluído nas negociações, nem assinou o acordo entre os EUA e o Irão.
O Hezbollah não reivindicou, até ao momento, qualquer ataque, mas voltou a defender o seu direito à resistência armada face à ocupação israelita.
Desde 2 de Março (data em que a guerra lançada pelos EUA e Israel contra o Irão se estendeu ao Líbano), os ataques israelitas ao Líbano mataram pelo menos 4057 pessoas. Israel afirma que foram mortos em combate 32 dos seus soldados, bem como quatro civis.
Hezbollah ausente das negociações
De acordo com a Reuters, a trégua tinha entrado em vigor às 16h locais (14h em Lisboa) de sexta-feira, como confirmaram duas fontes do Hezbollah, um responsável norte-americano e um alto responsável israelita. Segundo os norte-americanos, o acordo terá sido mediado pelos Estados Unidos e pelo Qatar, através de contactos separados com Israel e com o Irão. Um diplomata de um país do Golfo destacou também a influência iraniana sobre o Hezbollah como elemento decisivo para tentar travar os combates.
Mesmo confirmando o cessar-fogo, Israel voltou a deixar claro que as suas tropas manteriam a ocupação da região Sul do Líbano e responderiam a quaisquer ataques.
Ainda na sexta-feira, os Estados Unidos tinham anunciado uma nova ronda de negociações entre Israel e o Líbano, a decorrer em Washington a 23 e 25 de Junho, numa tentativa de consolidar a trégua alcançada e impedir uma nova escalada no conflito.
Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, considerou as negociações bilaterais “o único caminho viável para a reconstrução, a recuperação económica e o fim de sucessivos ciclos de violência“. A Presidência libanesa destacou um cessar-fogo abrangente como condição essencial para o avanço das negociações.
As conversações decorrem sem a participação do Hezbollah, uma ausência que tem limitado os avanços em rondas anteriores, apesar da retoma do diálogo directo entre os dois países nos últimos meses, pela primeira vez desde 1993.
Delegações dos EUA e do Irão na Suíça
Representantes iranianos e norte-americanos viajaram neste sábado para a Suíça, para dar início às “conversações técnicas” entre os dois países, previstas no memorando de entendimento assinado esta semana pelos respectivos chefes de Estado. De acordo com o Paquistão, o primeiro encontro acontecerá no domingo, em Bürgenstock.
Segundo o vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, Steve Witkoff, enviado especial de Donald Trump para o Médio Oriente, e Jared Kushner, genro do Presidente, chegaram neste sábado à Suíça para “gerir alguns elementos técnicos desta negociação”. O próprio J.D. Vance deverá também deslocar-se “nos próximos dias” ao país europeu.
“É sempre um delicado bailado de coordenação e protocolos diplomáticos”, disse o vice-presidente à estação televisiva Fox News, ainda antes de o Irão anunciar o encerramento de Ormuz. “O que entendi, ao falar com o Jared [Kushner] e o Steve [Witkoff] esta manhã, é que as coisas estão a correr bem.”
De Teerão, foi confirmada a presença do chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi. “Na Suíça, estão planeadas conversações para exigir o cumprimento dos compromissos da outra parte e clarificar como pretende cumprir as suas obrigações”, disse à televisão estatal o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei.
As conversações vão decorrer na presença de mediadores do Paquistão e do Qatar.
O acordo provisório entre os Estados Unidos e o Irão prevê um período de 60 dias de negociações para tentar resolver divergências sobre o programa nuclear iraniano e outras questões regionais. O entendimento inclui também a promessa de alívio de sanções económicas, descongelamento de activos iranianos avaliados em dezenas de milhares de milhões de dólares e incentivos financeiros, incluindo um fundo de investimento privado de 300 mil milhões de dólares.
Face às críticas de que foi alvo, incluindo da parte do Partido Republicano, por alegadas concessões excessivas ao Irão, Donald Trump voltou a defender o acordo nas redes sociais, garantindo que Teerão “não receberá dinheiro, nem dez cêntimos”, apesar de o entendimento prever mecanismos de alívio económico.
Mas os ataques deste sábado mostram que o processo continua dependente da situação no terreno. Se a trégua no Líbano falhar, as negociações entre Washington e Teerão poderão ficar novamente em suspenso.