Um estudo feito pelo Pacto Climático Europeu, em abril de 2025, concluiu que o turismo em massa em Portugal está a ameaçar a identidade da gastronomia local. O nosso país é cada vez mais um destino procurado por turistas, brilha entre as “hashtags” de melhores destinos nas redes sociais, mas “a fama culinária internacional e a popularidade turística nem sempre correspondem à maturidade do turismo gastronómico a longo prazo” – e é preciso distinguir os dois.
Tendo estas palavras como mote, a Associação Mundial de Viagens Gastronómicas (World Food Travel Association, na sigla inglesa), criou o índice de maturidade do turismo gastronómico. Com seis indicadores de base – herança, terra, experiência, liderança, gestão responsável e acesso – a associação avaliou não só a qualidade gastronómica de 84 países, mas, acima de tudo a capacidade de cada um deles de apoiar, desenvolver, sustentar e expandir o turismo gastronómico sustentável. E Portugal surge em terceiro lugar no ranking.
Esta é a primeira avaliação global que avalia a maturidade a longo prazo desta área. “Vários países com menor projeção internacional superaram destinos gastronómicos mais reconhecidos quando avaliados em relação aos fundamentos que sustentam o desenvolvimento do turismo sustentável”, explica a associação, num comunicado divulgado no passado dia 17 de junho.
Sem olhar às estrelas Michelin atribuidos, à visibilidade e atenção nas redes sociais ou mesmo o número de clientes, o índice de 2026 – e o primeiro de sempre – coloca Itália em primeiro lugar, seguida de França. Atrás de Portugal estão o Peru, Dinamarca, Alemanha, Japão, Áustria, Estados Unidos e Espanha.
“Passamos quase três décadas a ver os destinos a procurarem visibilidade como indicador de sucesso. A popularidade pode atrair visitantes, mas a maturidade determina se um destino consegue manter a qualidade, proteger a sua cultura gastronómica e continuar competitivo ao longo do tempo”, afirmou Erik Wolf, fundador e diretor executivo da associação, na nota.
Aliás, apesar de se seguir o lema “mais visitantes, mais benefícios económicos”, a associação acredita que esta onda imensa de turistas pode criar um peso nas infraestruturas, na autenticidade e na experiência do cliente se o crescimento não for bem gerido.
“Afinal, todo o turista come e bebe. A questão é se volta para casa com lembranças de restaurantes genéricos de cadeias que podem ser encontradas em quase qualquer lugar do mundo, ou com experiências memoráveis enraizadas na cultura gastronómica local, em negócios independentes e em tradições culinárias singulares que só podem ser encontradas em um destino específico”, elenca o comunicado.
O índice serve também para frisar quais os pontos fortes e fracos, bem como oportunidades, de cada país e da sua gastronomia. A associação quer que este indicador sirva para que os governos, organizações de gestão de destinos, órgãos de turismo, investidores e partes interessadas do setor tenham acesso a uma estrutura prática para avaliar a prontidão, identificar lacunas e priorizar investimentos futuros no setor.
“O Índice de Maturidade do Turismo Gastronómico muda o foco da conversa, deixando de lado quem é hoje mais famoso e passando a abordar quais os destinos que estão a construir as bases mais sólidas para o sucesso a longo prazo.”