Vários países mantiveram-se ao lado do presidente do Conselho Europeu, mas Alemanha e França, que têm liderado o bloco nesta questão, fizeram ver que não estão contentes

O presidente do Conselho Europeu decidiu encetar esforços para reatar as negociações entre a União Europeia e a Rússia, mas no bloco de 27 há quem não tenha ficado contente com a movimentação de António Costa.

E não são dois países quaisquer. De acordo com o jornal Politico, o presidente de França e o chanceler da Alemanha mostraram desagrado com a opção de tentar reabrir a comunicação com o Kremlin, numa posição que marca uma clara colisão diplomática dentro do bloco.

Tudo aconteceu, escreve aquele jornal, numa cimeira realizada a altas horas em Bruxelas, onde a primeira ausência de Viktor Orbán desde 2010 antecipava alguma facilidade para consensos. Mas não foi bem assim.

Emmanuel Macron e Friedrich Merz não tiveram problemas em confrontar António Costa, mas vários outros líderes escolheram o lado do presidente do Conselho Europeu, o que mostra que há ainda uma divisão sobre como a União Europeia deve gerir a situação.

Com França e Alemanha estiveram Dinamarca ou Países Baixos, países que têm mostrado posições bastante vincadas numa lógica anti-Rússia. O Politico refere que alguns dos representantes destas delegações mostraram-se mesmo furiosos com a posição de António Costa.

“A União Europeia não pode assumir o papel de mediador nestas negociações”, afirmou o primeiro-ministro da Estónia, Kristen Michal, em declarações àquele jornal.

“As sugestões de que são necessários canais alternativos ou vias diplomáticas indiretas são erradas… A história oferece um alerta claro sobre as tentativas de procurar estruturas de negociação alternativas com ditadores”, reiterou.

Tudo isto numa altura em que já se sabe que o chefe de gabinete de António Costa, Pedro Lourtie, já contactou diretamente o Kremlin por duas vezes nas últimas semanas, o que mostra que há dissonância entre os 27. É que não só não existe um nome consensual para representar o bloco, como alguns países parecem não querer sequer essa opção.

A discussão desta quinta-feira foi tão tensa que se estendeu duas horas para lá do que estava planeado, com Emmanuel Macron e Friedrich Merz a liderarem o grupo daqueles que entendem que este não é o momento para conversas com Vladimir Putin.

Quando esse momento chegar, defenderam, deverá ser o grupo E3, composto por França e Alemanha, mas também Reino Unido, a chegar-se à frente, o que mostra claramente o que os líderes destes países pensam, e a primeira hipótese não passa por uma intervenção de Bruxelas.

“Penso que o presidente [francês] esclareceu a situação e colocou as coisas na ordem correta”, referiu um responsável do Eliseu ao Politico, confirmando uma conversa entre Emmanuel Macron e António Costa.

Em sentido contrário, “um grande número” de líderes optou por ficar do lado de António Costa. “A primeira questão é se [Vladimir] Putin quer negociar. Até lá, ninguém mais do que [António] Costa pode representar a União Europeia”, atirou o primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, em declarações ao Politico.

“Se [Putin] mostrar disponibilidade para negociar, então acredito que temos de decidir novamente como proceder”, acrescentou.

E se Friedrich Merz reconhece que será António Costa a representar a União Europeia, o chanceler da Alemanha parece menos convencido que Bruxelas tenha de desempenhar um papel de mediador.

O Politico escreve que Friedrich Merz tentou evitar um conflito aberto com António Costa durante a cimeira, mas tornou claro “de outras formas” que não gostou da intervenção do presidente do Conselho Europeu.

No meio do fogo cruzado, António Costa manteve-se “altamente profissional”, até porque se defendeu com o facto de ter informado previamente Alemanha, França e Reino Unido de que ia estabelecer contactos com a Rússia.