Estrelada por Elle Fanning e Michelle Pfeiffer, “Margot’s got money troubles” foi traduzida para “Margô está em apuros”. Apesar desse título em português lembrar os de certos filmes da Sessão da Tarde, a série é cheia de densidade. Drama familiar misturado a ironia refinada, o lançamento da AppleTV+ merece toda a sua atenção. Ele emociona ao abordar temas delicados, como as vicissitudes da maternidade precoce, a moral no ambiente digital e as relações de afeto profundas e imperfeitas. Os oito episódios de cerca de 40 minutos são boa maratona.

Somos apresentados a Margô (Elle Fanning) quando ela está na universidade, aos 20 anos. Sua mãe, Shyanne (Michelle Pfeiffer), engravidou cedo e logo descobriu que o namorado e pai do bebê, Jinx (Nick Offerman, ótima escalação), era casado. Criou a menina sozinha, trabalhando como vendedora de loja em Fullerton, na Califórnia. Seu sonho agora é ver a filha romper a barreira social, se formar e “ser alguém”. Isso não acontece.

O professor de literatura inglesa, Mark (Michael Angarano), seduz Margô com todos os truques mais manjados — diz que ela escreve muito bem e “poderia estar em Harvard”. Ela se apaixona e engravida. Mark é casado e não quer saber da criança.

A barriga vai crescendo e novas responsabilidades se impõem. Bodhi nasce e tudo se torna ainda mais difícil. Chegam os desafios da amamentação, das noites em claro e das despesas com fraldas, entre outras necessidades. As amigas que dividiam o apartamento reclamam do choro noturno e se mudam. O aluguel encarece e fica claro que a vida de estudante acabou.

Margô repete o roteiro da maternidade precoce de Shyanne. Essa maldição transgeracional une e repele as duas. Os conflitos entre mãe e filha são tratados com algum grau de caricatura, mas têm também uma grande dose de realismo. As atrizes modulam com perfeição os diálogos engraçados e o teor de sofrimento das suas personagens. É um tipo de ajuste fino que só pode existir quando há muita química.

Margô é uma heroína vulnerável, mas corajosa e sem autopiedade. Para sustentar o filho, começa a trabalhar no OnlyFans e assim a produção envereda pelo debate dos limites da exposição nas redes. Nicole Kidman (Lace) faz uma ótima participação e Greg Kinnear (Kenny) interpreta o noivo carola de Shyanne. Todos os personagens têm suas complexidades. A série funciona como uma inversão da frase “de perto ninguém é normal”. Margô e sua família parecem tipos burlescos, mas vivem dramas bem universais e corriqueiros e, de perto, são absolutamente “normais”.

PS 1: “Valor sentimental”, com Elle Fanning, está disponível no Mubi. E Michelle Pfeiffer estrela “The Madison”, que está na Paramount+.

PS 2: Semana passada escrevi sobre a série “Cabo do Medo”. Agora, o filme de 1991, com Robert de Niro, chegou à AppleTV. Vale comparar as produções.