
John Maynard Keynes, em retrato de 1929.
Um dos maiores economistas da história foi muito rápido (e otimista) a assumir que o avanço tecnológico nos permitiria trabalhar menos. E partiu para aquela que considerava a verdadeira questão: como utilizar o novo tempo livre?
Horários de trabalho de apenas três horas por dia, ou 15 horas por semana. Sociedades oito vezes mais prósperas, em termos económicos, do que há 100 anos. Não eram delírios infundados, mas a convicção prospetiva de um dos maiores economistas da história, o britânico John Maynard Keynes (1883-1945).
Em 1930, Keynes publicou o ensaio Possibilidades Económicas para os Nossos Netos, um texto em que procurava desmontar o pessimismo económico da sua época — para ele, um exagero, uma “interpretação grosseiramente errada” da realidade.
Diretora-adjunta do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconómicos (DIEESE), a economista Patrícia Pelatieri sublinha que se trata de um dos textos clássicos de Keynes.
“O ensaio foi apresentado numa conferência em 1928, desenvolvido numa palestra em Madrid, em junho de 1930, e publicado em formato literário em outubro do mesmo ano, em pleno contexto da Grande Depressão”, contextualiza, recordando a grande crise que abalou a economia mundial no final da década de 1920.
Para o economista John Keynes, professor na Universidade de Cambridge, a crise e o desemprego das primeiras décadas do século XX não anunciavam um declínio permanente da sociedade capitalista, mas antes uma fase de transição, precipitada pela rapidez das transformações tecnológicas e económicas.
Keynes assinalava que, durante milénios, o padrão de vida da humanidade tinha mudado muito pouco — e que a conjugação entre acumulação de capital, juros compostos e avanços científicos acabara por desencadear um crescimento sem precedentes desde a Revolução Industrial, iniciada em Inglaterra a partir da segunda metade do século XVIII.
Com base nessa tendência histórica, Keynes previa que, no espaço de cerca de cem anos, os países mais desenvolvidos alcançariam um nível de riqueza muito superior ao da sua época.
O progresso tecnológico permitiria produzir muito mais com muito menos trabalho humano, embora isso criasse temporariamente o chamado “desemprego tecnológico”. A longo prazo, porém, acreditava que a humanidade resolveria o seu principal problema histórico: a escassez económica. As necessidades materiais básicas seriam largamente satisfeitas, reduzindo a centralidade da luta pela sobrevivência.
A parte mais original do ensaio é a reflexão sobre as consequências humanas dessa abundância. Keynes detém-se numa consequência imediata dessa transformação. Quando o trabalho deixasse de ser uma necessidade vital, as pessoas enfrentariam um novo desafio: encontrar um propósito para as suas vidas e usar bem o tempo livre. Imaginava horários de trabalho muito curtos, talvez de apenas 15 horas por semana, e uma sociedade menos obcecada pela acumulação de riqueza. Quase uma utopia.
Nesse cenário, valores como a cultura, o prazer, a convivência e o desenvolvimento pessoal ganhariam mais importância do que o dinheiro, permitindo que os seres humanos se dedicassem à “arte de viver”, em vez de apenas trabalharem para sobreviver.
Professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez explica que a visão keynesiana contrariava o “dogma da economia clássica, segundo o qual quanto mais trabalho, mais riqueza”. Isto porque Keynes percebeu o peso que a tecnologia tinha nessa equação.
“Para ele, no sentido oposto ao aumento da produtividade, seria possível reduzir o horário de trabalho e dar mais qualidade de vida ao trabalhador”, comenta Ramirez. O lazer não seria apenas tempo de descanso — significava também um aumento do consumo, uma vez que o trabalhador ganhava o “tempo do consumo”, contribuindo também para “pôr a economia a mexer”, explica o sociólogo.
“Os empenhados fazedores de dinheiro podem levar-nos a todos com eles no colo da abundância económica”, escreve Keynes. “Mas serão essas pessoas — as que conseguirem manter viva e cultivar até uma perfeição mais completa a arte da própria vida, e não se venderem aos meios de subsistência — que poderão desfrutar da abundância quando ela chegar.”
“Keynes apresenta uma visão bastante otimista sobre o futuro”, define Pelatieri. “Para ele, a combinação entre a acumulação de capital e o progresso técnico no capitalismo permitiria um crescimento contínuo da capacidade produtiva. Os investimentos, sobretudo no estrangeiro, mas não só, impulsionados pelos juros compostos, e os avanços científicos e tecnológicos decorrentes da Revolução Industrial tinham elevado significativamente o padrão médio de vida na Europa e nos Estados Unidos, mesmo perante o crescimento da população.”
Para Keynes, explica a economista, “essas forças permitiriam produzir cada vez mais bens e serviços com menos trabalho humano”.
“A curto prazo, isso poderia gerar aquilo a que ele chama desemprego tecnológico, ou seja, o resultado de descobertas que poupam trabalho a um ritmo superior ao da criação de novas ocupações. A longo prazo, porém, a sociedade poderia manter ou até aumentar o seu padrão de vida trabalhando muito menos horas”, explica Pelatieri.
“A aposta de Keynes era que, uma vez resolvido o problema económico fundamental — a luta pela subsistência —, a humanidade teria de enfrentar a velha questão: como utilizar o tempo livre conquistado pelo avanço da produtividade. Considerando que, ao longo de tantos séculos, fomos treinados para lutar e não para usufruir, Keynes descreve este ponto como um problema permanente da raça humana: como vamos lidar com o tempo livre. Ou seja, quanto mais a nossa capacidade produtiva se multiplicasse, precisaríamos de apenas uma fração do tempo de trabalho anterior para garantir o mesmo nível de subsistência, como comida, habitação e vestuário”, detalha Pelatieri.
“O resto do tempo será convertido em lazer”
Foi nesse contexto que estimou as tais 15 horas semanais. Para o economista britânico, isso seria suficiente para manter a sociedade em funcionamento e, ao mesmo tempo, garantir trabalho para todos.
O jurista Brasilino Santos Ramos, desembargador do trabalho reformado e ex-membro do Conselho Superior da Justiça do Trabalho, sublinha que, na época da proposta keynesiana, predominavam horários laborais extenuantes, que facilmente chegavam — e até ultrapassavam — as dez horas por dia.
“Foi nesse cenário que Keynes formulou uma das previsões mais conhecidas da história da economia. Defensor da economia de mercado e da propriedade privada, acreditava que o capitalismo podia ser preservado e aperfeiçoado por meio da atuação do Estado na correção de crises, na promoção do emprego e na redução das instabilidades económicas”, diz o especialista em legislação laboral.
A escola de Keynes
“Antes de analisar as ideias de John Maynard Keynes sobre tecnologia, produtividade e redução do horário de trabalho, é importante compreender a sua trajetória intelectual e social”, comenta Ramos.
“Oriundo da alta classe média intelectual britânica e formado nos mais prestigiados centros académicos da sua época, Keynes dedicou-se a estudar os efeitos das crises económicas, do desemprego e da desigualdade. Defensor da economia de mercado, mas também da intervenção estatal para corrigir as suas falhas, tornou-se um dos economistas mais influentes do século XX e formulou reflexões que continuam atuais perante os desafios colocados pela automação e pela inteligência artificial.”
Membro do Partido Liberal, Keynes foi um dos principais pensadores a teorizar sobre a macroeconomia. As suas ideias também mudaram a forma como as políticas económicas passaram a ser aplicadas pelos governos em boa parte do mundo — razão pela qual é frequentemente incluído entre as pessoas mais influentes do século XX.
A principal inovação do seu pensamento económico está na rejeição da ideia neoclássica de que o mercado livre ofereceria automaticamente emprego aos trabalhadores, desde que estes aceitassem flexibilidade salarial. Para Keynes, o Estado devia intervir, com medidas fiscais e monetárias destinadas a evitar ou atenuar os efeitos de recessões, depressões e ciclos de expansão económica. No centro da escola keynesiana, o modelo de pensamento criado por ele, o Estado é visto como agente de controlo económico — tendo como objetivo o pleno emprego.
Na sua conceção, o problema do mercado livre é que o “espírito animal” dos empresários precisa de ser domado, regulado. O antigo Partido Liberal britânico, ao qual Keynes pertencia, defendia o liberalismo social, com ênfase na construção de um Estado social.
Porque falhou?
Se é evidente que o mundo registou avanços económicos assinaláveis, sobretudo com tecnologias que vão da robotização da indústria à consolidação da inteligência artificial, porque é que os horários de três horas por dia previstos por Keynes nem sequer estão no horizonte?
O cientista político Christian Lohbauer, integrante de um grupo de investigação da Universidade de São Paulo (USP), comenta que Keynes acertou “no aumento da produtividade” resultante da intensificação das tecnologias. A questão é que não previu a forma como o consumo também aumentaria exponencialmente.
“As pessoas querem ter mais lazer e continuam a consumir”, explica. “Querem mais acesso a bens e serviços. Para isso, precisam de mais horas de trabalho.”
Para a fórmula keynesiana funcionar, argumenta Lohbauer, seria necessário que as pessoas quisessem “ter uma casa mais pequena”, “usar menos o carro”, “comer menos fora” ou “fazer menos viagens por ano”. E não é isso que acontece — tanto entre os que efetivamente podem fazê-lo como entre a imensa maioria que apenas tem esses privilégios como objeto de desejo.
Pelatieri recorda que o próprio pensador britânico distinguia dois tipos de necessidades humanas. De um lado, estavam as básicas, necessárias à sobrevivência. Do outro, as relativas, ligadas ao desejo de estatuto e de reconhecimento social. Na perspetiva keynesiana, as do primeiro grupo seriam rapidamente satisfeitas.
“O que ele não antecipou foi a capacidade do capitalismo para criar necessidades, ou seja, as necessidades básicas foram-se alterando ao longo do tempo. Telemóveis, Internet, serviços digitais, entre outros, passaram a ser vistos como essenciais para a vida quotidiana”, comenta Pelatieri.
A economista recorda também que, embora a produtividade global tenha crescido “de forma expressiva”, os ganhos “gerados por esse avanço não foram distribuídos de maneira homogénea” e “uma parte significativa dos benefícios do progresso técnico foi apropriada sob a forma de lucros e rendimentos de capital”, assinala.
A economista ilustra essa realidade com o dado de que, em 2024, foram criados 204 novos multimilionários — quase um por semana.
No fim de contas, “muitos trabalhadores continuaram dependentes de horários longos para sustentar o seu padrão de vida, mesmo que modesto”, diz Pelatieri.
“Além disso, a decisão das empresas de utilizar toda a tecnologia disponível está diretamente condicionada pela avaliação de custos: se será mais vantajoso investir em inovação tecnológica ou manter a dependência da mão de obra existente”, afirma a economista.
“Por outras palavras, Keynes subestimou os conflitos em torno da distribuição dos ganhos de produtividade”, acrescenta. “O trabalho repetitivo foi ultrapassado pela automação. Prometia-se a ideia de que seria possível reduzir os horários de trabalho, mas o que veio foi a perda de direitos laborais”, diz Ramirez. Para o sociólogo, seria contraditório aumentar a riqueza com horários mais curtos. “Não há capitalismo sem exploração da força de trabalho”, afirma.
Pelatieri concorda que, “do ponto de vista do raciocínio de Keynes”, seria de esperar que, com os avanços das novas tecnologias, a humanidade conquistasse horários de trabalho mais reduzidos.
“O problema, porém, não está na tecnologia em si, mas na forma como os seus benefícios são distribuídos. A questão central é saber quem se apropria dos ganhos gerados pelo aumento da produtividade. Em vez de se converter automaticamente em mais tempo livre, o avanço tecnológico resulta muitas vezes em maior concentração de rendimento ou em novas formas de intensificação do trabalho”, diz. “As tecnologias digitais, por exemplo, aumentaram as possibilidades de monitorização, controlo e disponibilidade permanente dos trabalhadores.”
“Mais do que uma previsão económica, o ensaio era uma reflexão sobre as consequências sociais, culturais e morais da abundância. Keynes imaginava uma sociedade em que os indivíduos pudessem dedicar mais tempo à educação, à cultura, ao convívio social e ao desenvolvimento pessoal”, analisa Ramos.
“A sua mensagem central era a de que o progresso económico poderia libertar a humanidade da luta permanente pela sobrevivência material, deslocando o desafio humano para a procura de propósito e realização para além do trabalho e da acumulação de riqueza.”
Ramos assinala que, embora a produtividade tenha realmente crescido de forma extraordinária nas últimas décadas, “o que não se confirmou foi a conversão desses ganhos numa redução drástica do horário de trabalho”.
“Entre as razões para isso estão o surgimento de novos padrões de consumo, o desejo permanente de aumentar rendimento e património, o agravamento das desigualdades na distribuição dos ganhos de produtividade, a expansão do setor dos serviços e do trabalho intelectual, e a intensificação da concorrência económica global”, afirma Ramos.
“Keynes também não previu a força da cultura consumista estimulada pela publicidade e pelo crédito, a crescente financeirização da economia nem o papel do trabalho como elemento de identidade, estatuto social e realização pessoal. Também não antecipou que uma parte significativa dos ganhos de produtividade seria apropriada de forma concentrada por grandes empresas e grupos económicos, em vez de ser convertida numa redução generalizada do horário de trabalho.”