JPL-Caltech / NASA

A superfície brilhante de Europa, a misteriosa lua de Júpiter
Uma equipa de cientistas descobriu que minúsculos grãos de poeira ejetados da atmosfera terrestre poderão ter escapado à gravidade do planeta, atravessado o espaço interplanetário e alcançado a superfície gelada de Europa, uma das luas de Júpiter.
Num novo estudo, publicado o mês passado na International Journal of Astrobiology, os investigadores defendem que partículas de poeira provenientes da Terra, potencialmente transportando bactérias, poderão ter chegado à superfície deste satélite em quantidades surpreendentes.
O trabalho propõe um cenário de panspermia inversa. Em vez de vida oriunda do espaço ter chegado à Terra, a hipótese sugere que material biológico terrestre possa ter viajado para outro mundo oceânico do Sistema Solar.
Segundo o El Confidencial, o estudo parte da premissa de que partículas com cerca de um micrómetro de diâmetro poderiam transportar bactérias de tamanho semelhante, desde que, ao longo da viagem, não fossem expostas a temperaturas superiores a aproximadamente 27 °C.
De acordo com os cálculos apresentados, alguns grãos de poeira lançados das camadas superiores da atmosfera terrestre, a cerca de 150 quilómetros de altitude, poderiam atingir velocidades suficientes para ultrapassar a velocidade de escape da Terra.
Uma vez libertadas do campo gravitacional terrestre, estas partículas ficariam sujeitas à pressão da radiação solar, à gravidade de Júpiter e à resistência do meio interplanetário.
O modelo indica, contudo, que apenas uma fração muito reduzida sobreviveria ao impacto com a superfície de Europa. Para evitar a destruição durante a colisão com o gelo, os grãos teriam de entrar num ângulo extremamente baixo, de cerca de um grau em relação à superfície.
Ainda assim, o investigadores estimam que cerca de 300 milhões de partículas provenientes da Terra possam atingir Europa a cada segundo.
Ao longo dos cerca de 3,5 mil milhões de anos durante os quais o número total de partículas que poderiam ter chegado a esta lua ascenderia a cerca de 800.000 biliões de grãos de poeira, segundo os autores. Trata-se de uma quantidade tão elevada que torna esta hipótese difícil de imaginar.
Europa encontra-se coberta por uma crosta de gelo, mas sob essa camada esconde-se um basto oceano subsuperficial, considerado pelos cientistas um dos ambientes mais promissores para a procura de vida extraterrestre.
O estudo apoia-se também em trabalhos anteriores que identificaram fissuras em cerca de 20% a 40% da crosta gelada. Esta fraturas resultariam do aquecimento provocado pelas maré gravitacionais e das tensões geradas pela influência de Júpiter.
De acordo com os investigadores, essas fissuras poderiam funcionar como vias de acesso para camadas mais profundas do gelo e, eventualmente, para o oceano subterrâneo, antes que as bactérias se tornassem inativas devido à intensa radiação que atinge a superfície. Este processo poderá ocorrer ao longo de cerca de 10 mil anos.
A presença de partículas terrestres no oceano subsuperficial de Europa seria, assim, plausível caso existam condições biológicas e bioquímicas compatíveis com a sua sobrevivência. A hipótese reforça o interessa científico por esta lua gelada e torna Europa um alvo ainda mais fascinante para a astrobiologia.