A quinta temporada de Quinta do Clarkson, recentemente estreada em Portugal, termina com o apresentador numa cama de hospital sem saber se voltará à série. A doença já o acompanhava durante as gravações. Agora, em remissão, Jeremy Clarkson contou ao Sunday Times como sobreviveu a um tumor agressivo e porque decidiu falar de uma coisa que sempre detestou: exames, próstata, medo e silêncio masculino

Jeremy Clarkson não começou esta história para falar de cancro.

Começou-a porque comprou uma quinta em Oxfordshire, a oeste de Londres, e descobriu que saber conduzir carros a alta velocidade não ajuda muito quando é preciso semear, colher, lidar com ovelhas e porcos, subsídios, chuva e tratores, contas ruinosas e burocracias rurais.

A quinta tinha já um nome à medida do dono, Diddly Squat, uma expressão inglesa para quase nada, ou coisa nenhuma. Em Portugal passou a chamar-se Nicles Batatoides e é nesse absurdo, entre a paródia e o desastre, que nasceu Clarkson’s Farm, a série da Prime Video que por cá chegou como Quinta do Clarkson. Depressa deixou de ser apenas uma comédia sobre um homem famoso a fazer figura de parvo no campo.

Para quem não o conhece bem, Jeremy Clarkson foi durante anos a cara de Top Gear, o programa da BBC que transformou testes de carros num fenómeno global. Depois veio The Grand Tour, no streaming, com Richard Hammond e James May. Foi apresentador, cronista, provocador, amado e detestado quase na mesma medida. Uma figura britânica feita de piada, arrogância, excesso e queda iminente.

Em Quinta do Clarkson, porém, apareceu outra coisa. Não um homem novo, mas um Clarkson menos blindado. Continuava teimoso, impaciente e teatral. Só que agora falhava diante de agricultores verdadeiros — e precisava deles.

É por isso que o fim da quinta temporada pesa mais do que pesaria noutro programa. O espectador já conhece a quinta, Kaleb, Lisa, Charlie ou Gerald, os animais, a loja, as colheitas falhadas e aquele caos organizado que se instalou em Nicles Batatoides. De repente, a série sai do campo e entra no hospital. Clarkson surge deitado, sem a energia habitual. “Algum do tratamento correu mal, digamos assim”, explica. Vai ficar ali “durante algum tempo”. Depois deixa a despedida suspensa.

Se tudo correr bem, haverá sexta temporada. Se não correr, não haverá.

Este domingo, numa entrevista ao Sunday Times, Jeremy Clarkson explicou o que estava por trás daquela imagem. Em menos de um ano esteve duas vezes demasiado perto da morte. Primeiro, em 2024, por causa do coração. Foi levado para o hospital à beira de uma insuficiência cardíaca e recebeu dois stents, pequenos tubos que ajudam a manter as artérias abertas. Depois, em 2025, veio o diagnóstico de um tumor maligno na próstata.

Aos 66 anos, sentado no escritório da quinta, com uma equipa de filmagens à espera lá fora para a sexta temporada, resume o improvável com uma frase à Clarkson: “Sou, sem dúvida, oficialmente, o homem mais sortudo do mundo”.

A sorte, neste caso, começou numa análise. Em maio de 2025, uma avaliação médica de rotina detetou um valor PSA anormalmente alto. O PSA é uma proteína produzida pela próstata e pode funcionar como sinal de alerta. Seguiram-se um teste Stockholm3, mais específico, uma ressonância magnética e uma biópsia. O cancro estava na próstata, já se tinha espalhado dentro dela, mas ainda não tinha passado para fora. Esse detalhe mudou tudo.

“Era um tipo agressivo de cancro”, contou Jeremy Clarkson ao Sunday Times. “Podia ter-se espalhado, podia ter ido para o pâncreas, podia ter ido para qualquer lado, e isso teria sido um problema.”

A frase não vem embrulhada em dramatismo. Vem quase seca, como se ele ainda estivesse a tentar não transformar a própria doença numa grande cena. Mas era uma grande cena. Se o tumor tivesse sido descoberto mais tarde, a história podia ter acabado de outra maneira.

É aqui que a entrevista ao Sunday Times deixa de ser apenas a confissão de uma celebridade e passa a ser um aviso. “Por favor, por favor, por favor, façam exames”, pede Clarkson. “Não é desconfortável, não é indigno. E é óbvio.” Ele sabe que muitos homens não querem ouvir falar da próstata. Uns por medo, outros por vergonha, outros porque foram educados a fingir que o corpo só existe enquanto ainda obedece. Mas insiste na parte simples: “Eu fiz, e é por isso que estou aqui”.

Jeremy Clarkson não tinha sintomas que o empurrassem para o médico. Não teve uma grande narrativa de sofrimento antes do diagnóstico. Teve uma análise que acendeu uma luz. E foi essa luz que permitiu agir a tempo. O tratamento escolhido foi HIFU, ultrassom focalizado de alta intensidade, uma técnica usada para destruir a área afetada e tentar preservar o tecido saudável. As alternativas podiam passar por radioterapia ou pela remoção completa da próstata, com riscos de incontinência urinária e disfunção erétil.

Mesmo quando fala do procedimento, Clarkson continua a falar como Clarkson. Imaginava que a sonda usada no tratamento fosse pequena, “do tamanho de um lápis HB”. Mais tarde perguntou ao médico e a resposta, brinca, foi mais próxima de “um caixote do lixo”. Isso explicaria o desconforto de andar depois aos saltos num trator.

A piada ajuda a atravessar o embaraço, mas não esconde o desconforto.

Houve cateter e Clarkson detestou-o. “Os cateteres são terríveis o tempo todo, mas tentar dormir com um é um pesadelo.” Sentia-se como se estivesse “a gerir uma cervejaria”, rodeado de torneiras, tubos e ligações que não percebia. Bebia “um dedal de água” e parecia produzir “18 galões de urina”. A conclusão vem sem heroísmo: “É tudo muito indigno, mas foi um preço pequeno a pagar”.

Depois houve a emergência que aparece no final da temporada cinco. Essa, assume ele, nasceu de uma decisão errada. Como vinha de problemas cardíacos, tomava anticoagulantes. Durante o tratamento ao cancro teve de os suspender. Duas ou três semanas depois da operação decidiu sozinho voltar a tomá-los. Não perguntou ao médico. “Grande erro, enorme.” O resultado foi uma urgência no meio da noite e um tratamento que não quer sequer detalhar. A dor, resume, ficou “para lá do Defcon 1”, o nível máximo de alerta militar nos Estados Unidos.

Dois meses antes da entrevista ao Sunday Times, uma nova análise PSA não mostrava sinais de cancro. Jeremy Clarkson está oficialmente em remissão, embora continue vigiado. Faz análises regulares e sabe que a doença pode voltar. Prefere agarrar-se à parte menos sombria da estatística. “Tento ser positivo. Decidi ser um dos 60% que não tem recorrência.”

Falar disto vai contra quase tudo o que aprendeu. O pai, Eddie, esteve doente durante 20 anos e respondia sempre “muito bem” quando lhe perguntavam como estava. A frase que ficou em casa era dura: “Um chato é uma pessoa que, quando lhe perguntam como está, responde”. Jeremy Clarkson cresceu com essa regra. Doença não se anunciava. Fraqueza não se mostrava.

Durante grande parte da quinta temporada, já sabia que tinha cancro. Quase ninguém à volta sabia. Contou apenas à companheira, Lisa Hogan, aos filhos e a Andy Wilman, amigo e colaborador de longa data. Queria acabar a colheita, fazer a operação e voltar sem explicações. “Não se pode estar doente, e se se está doente, certamente não se admite. Vai-se trabalhar como sempre.” Mas a operação caiu no meio das gravações e desaparecer da série sem dizer nada deixou de ser possível. Teve de quebrar a “política Clarkson” e transformar uma doença privada numa conversa pública.

Essa conversa tem um alvo muito concreto: os homens que fogem ao exame.

Clarkson tenta desmontar uma ideia antiga, a de que o rastreio da próstata implica sempre um toque retal. Pode ser necessário em alguns casos, mas muitas vezes o primeiro passo é uma análise ao sangue. “É uma picadinha minúscula”, explica. Se o número preocupar, vêm outros exames como a ressonância.

A frase mais crua talvez nem seja dele, mas Clarkson repete-a porque percebe que funciona. Veio de Nick Jones, fundador do Soho House e também defensor do rastreio do cancro da próstata. A um amigo preocupado com os efeitos do tratamento na vida sexual, Jones respondeu certa vez: “Não se pode desfrutar do sexo se se estiver morto”. A frase é direta e faz o que pretende. Tira a conversa do pudor e põe-na onde Clarkson a quer pôr, entre a vida e a morte.

Hoje, Jeremy Clarkson toma “baldes de comprimidos” de manhã, conduz mais devagar, anda mais a pé, evita alimentos processados e quer ver os netos crescer. Continua a fazer piadas, a implicar com impostos, a falar de comida e de tratores. Não aparece convertido em santo nem em especialista. Continua a ser Jeremy Clarkson. Só que agora aceita ser aquilo que sempre temeu: um chato da doença.

“Se houver apenas uma pessoa, uma única pessoa no mundo, que veja Quinta do Clarkson e pense: vou fazer exames, e descubra cedo, e seja tratada, e tenha uma vida normal, então vale a pena ser um chato da doença.” Depois de uma temporada que terminou com uma possível despedida, é isto que Jeremy Clarkson veio dizer. A vergonha pode esperar. O cancro não.