Algumas empresas começaram a testar gasolina automóvel como alternativa ao combustível de aviação, numa tentativa de responder às dificuldades de abastecimento em várias regiões do país
A escassez de combustível e a subida de preços no setor da aviação geral estão a levar operadores de aeronaves ligeiras na Rússia a recorrer a soluções inéditas. Algumas empresas começaram a testar gasolina automóvel como alternativa ao combustível de aviação, numa tentativa de responder às dificuldades de abastecimento em várias regiões do país, segundo o jornal russo Kommersant.
De acordo com o mesmo meio, a gasolina de aviação está apenas disponível em grandes aeroportos, através de parceiros em Ufa e Volgogrado. No resto do território, os operadores são obrigados a transportar combustível em recipientes especiais ou a depender de clubes de voo privados.
“A disponibilidade de gasolina de aviação sempre foi má, mas agora está a piorar”, revelou o CEO da empresa LightAir, Dmitry Toropov, citado pelo Kyiv Post.
Perante este cenário, a Associação de Operadores An-2 submeteu ao Ministério dos Transportes uma proposta para regulamentar pelo Estado os preços tanto do combustível de jato (jet fuel) como da gasolina de aviação (avgas). O aumento dos custos está a pressionar de forma particular as pequenas empresas do setor, onde o combustível representa uma fatia maior das despesas do que nas grandes companhias.
O responsável da associação, Vladimir Antonov, alertou que esta realidade está a tornar as operações cada vez menos sustentáveis. Já o diretor executivo da Aviation Work Association, Vadim Tsyganash, considera que a situação ainda não é crítica, mas “está a aproximar-se rapidamente” desse ponto, alertando para reservas limitadas de combustível em operações de combate a incêndios florestais além dos Urais.
Face às restrições, alguns operadores já substituíram motores Rotax-912 por equivalentes chineses e iniciaram testes com gasolina automóvel Euro-3, após o regulador da aviação ter flexibilizado regras de abastecimento para aeronaves ligeiras. Apesar de, para já, os testes não terem revelado efeitos negativos, especialistas alertam para riscos como detonação dos motores, perda de potência e maior desgaste dos sistemas de escape.
As dificuldades não se limitam à aviação ligeira. O aumento dos custos de combustível, que representa cerca de 30% das despesas operacionais das companhias aéreas, levou mesmo a companhia Aeroflot a registar uma subida de 7% nos custos de abastecimento desde o início do ano, segundo o seu presidente, Sergei Alexandrovsky.
De acordo com o registo da aviação civil russa de 2026, existem atualmente 853 aeronaves An-2 registadas no país, num setor que continua dependente de equipamento antigo, enquanto enfrenta crescentes dificuldades no acesso ao combustível necessário para operar.
A crise estende-se também ao mercado mais amplo dos combustíveis. Após ataques com drones ucranianos a refinarias em Nizhnekamsk, grandes retalhistas como Tatneft, Rosneft e Lukoil começaram a limitar a venda por cliente em várias cidades, incluindo Moscovo e São Petersburgo, com restrições que chegam a 20 litros por transação.
Além disso, a Rússia prolongou a derrogação que permite às refinarias vender gasolina e gasóleo abaixo das normas ambientais Euro-5, autorizando níveis de enxofre até 15 vezes superiores ao limite legal. Em regiões como a Crimeia ocupada e Sebastopol, as autoridades locais suspenderam totalmente a venda de combustíveis a civis, reservando-os apenas para veículos de emergência e do Estado.