Documento busca orientar o tratamento da doença em meio à chegada de novas terapias e à ausência de um protocolo nacional específico no SUS

O Brasil passará a contar pela primeira vez com uma diretriz para o tratamento do câncer de bexiga, doença que deve registrar cerca de 13 mil novos casos por ano no país, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Elaborado conjuntamente pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) e representantes do Instituto Oncoguia, o documento surge em um momento de rápida evolução do tratamento da doença e tenta preencher uma lacuna histórica: a ausência de uma referência nacional que reúna as opções terapêuticas disponíveis tanto no SUS quanto na saúde suplementar.

O câncer de bexiga está entre os dez tumores mais incidentes do país, mais frequente entre homens e fortemente associado ao tabagismo. A doença também se caracteriza por uma elevada taxa de recorrência, o que frequentemente exige acompanhamento prolongado dos pacientes.

Nos últimos anos, seu tratamento passou por mudanças importantes, com aprovação de novas imunoterapias, terapias-alvo e combinação de medicamentos. Esse contexto ampliou as opções terapêuticas disponíveis e as estratégias para cada estágio da doença. Assim, o cuidado se tornou mais complexo e passou a exigir maior integração entre as especialidades. Ao mesmo tempo, o acesso a essas inovações ocorre em ritmos distintos no SUS e na saúde suplementar, adicionando mais uma camada de complexidade às decisões clínicas.

Segundo os autores da nova diretriz, o documento tenta organizar um campo que evoluiu rapidamente nos últimos anos sem que houvesse uma referência nacional atualizada para orientar a prática clínica. “Nos últimos dez anos, a quantidade de tratamentos que surgiram e mostraram benefício foi imensa. Ter algum tipo de orientação para profissionais e pacientes é importante para que ninguém fique perdido diante das diferentes opções de tratamento”, afirma Fernando Korkes, coordenador do Departamento de Uro-Oncologia da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). 

De acordo com Korkes, a própria elaboração conjunta do documento, que levou cerca de cinco meses, reflete uma mudança na forma como o tratamento do câncer de bexiga vem sendo discutido. “A iniciativa de juntar múltiplas especialidades para fazer uma diretriz não é tão frequente. Cada vez mais os tratamentos oncológicos são multidisciplinares, e o câncer de bexiga é um exemplo disso”, diz.  

Outro aspecto destacado por Korkes é que a diretriz foi construída para refletir a realidade regulatória brasileira. Diferentemente de alguns consensos internacionais, que frequentemente incluem tratamentos considerados padrão em outros países, mas ainda indisponíveis no Brasil, o documento buscou reunir recomendações baseadas em terapias aprovadas e acessíveis no país. 

Atualmente, o câncer de bexiga não possui um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) específico nem há previsão de elaboração de um documento desse tipo pelo Ministério da Saúde. Na prática, isso significa que não existe uma referência oficial e atualizada para orientar o tratamento da doença no SUS. Segundo Korkes, a própria Sociedade Brasileira de Urologia chegou a elaborar e encaminhar ao ministério um documento-base para subsidiar futuras discussões sobre o tema. O processo, porém, não avançou. 

Participação do paciente na diretriz

Um dos principais diferenciais do documento é a tentativa de refletir a realidade do atendimento oncológico no Brasil sem ignorar as diferenças entre o SUS e a saúde suplementar. Ao longo das quase 90 páginas, os fluxogramas apresentam os tratamentos considerados preferenciais para cada estágio da doença e indicam quais opções estão efetivamente disponíveis em cada sistema. Assim, procura incorporar aspectos regulatórios e de acesso.

“A ideia é que o médico esteja diante do paciente e consiga visualizar quais são as opções disponíveis naquele contexto. Se ele está na saúde suplementar, tem determinadas alternativas. Se está no SUS, existem outras. O paciente também consegue entender quais são as possibilidades de tratamento”, afirma Korkes.

Conforme o urologista, o objetivo não é estimular judicializações, mas oferecer mais transparência sobre as alternativas existentes e ajudar médicos e pacientes a tomar decisões dentro da realidade assistencial de cada sistema.

Outra novidade do documento foi a participação formal de pacientes na elaboração das recomendações. Representantes do Instituto Oncoguia acompanharam a construção da diretriz e contribuíram para incorporar questões relacionadas à jornada de cuidado, compreensão das opções terapêuticas e acesso à informação. Um dos objetivos da diretriz é justamente oferecer uma fonte confiável de informação que ajude pacientes a compreender melhor as opções disponíveis e participar das decisões relacionadas ao próprio tratamento.

Embora esse modelo seja cada vez mais frequente em iniciativas internacionais, ainda é pouco comum na elaboração de diretrizes clínicas brasileiras. Para os autores, a mudança reflete uma transformação mais ampla na forma como a medicina vem discutindo a produção de consensos e recomendações, incorporando, a experiência de quem convive com a doença, além de evidências científicas.

No caso do câncer de bexiga, essa perspectiva ganha relevância porque o tratamento costuma envolver diferentes especialidades e múltiplas etapas de cuidado. Dependendo do estágio da doença, o paciente pode passar por urologistas, oncologistas clínicos, radioterapeutas, patologistas e equipes multidisciplinares ao longo da jornada. “A doença é complexa, assim como os exames e tratamentos. É importante que o paciente tenha autonomia para entender o que está acontecendo e saber se está recebendo um cuidado adequado”, afirma Fernando Korkes.

O custo da inovação

Estudos internacionais apontam que o câncer de bexiga está entre os tumores com maior custo acumulado, quando se considera toda a trajetória do paciente, do diagnóstico ao seguimento de longo prazo. Um estudo publicado em 2022 por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein reforçou essa avaliação ao destacar que a doença impõe uma carga econômica significativa aos sistemas de saúde justamente pela necessidade de monitoramento frequente, recorrências e intervenções repetidas ao longo da vida dos pacientes.

Nesse contexto, os autores esperam que a diretriz funcione também como referência para reguladores, avaliadores de tecnologias e formuladores de políticas públicas. 

Inspirado no modelo do National Comprehensive Cancer Network (NCCN), dos Estados Unidos, o documento foi estruturado para receber atualizações frequentes. A expectativa é que as recomendações sejam revisadas anualmente, acompanhando a chegada de novas evidências científicas e aprovações regulatórias.