Sergio Pitamitz / Biosphoto / AFP

Um raro serval-preto, Leptailurus serval, de pé na erva da reserva de caça de Lualenyi. Os genes dos animais melanísticos transportam uma mutação que cria mais pigmento escuro do que claro.
O serval-preto, rara variante melanística do serval africano, está a intrigar conservacionistas por surgir em habitats onde, à partida, a sua coloração escura não parece oferecer qualquer vantagem.
O animal pertence à espécie Leptailurus serval, um felino selvagem de médio porte nativo de África. O serval comum é conhecido pelas patas longas, corpo esguio, manchas semelhantes às de uma chita, pescoço comprido e orelhas desproporcionadamente grandes.
Já a versão negra resulta de uma alteração genética até agora não identificada, que afeta as células responsáveis pela produção de pigmento. O resultado é uma pelagem quase totalmente preta, por vezes marcada por manchas discretas, quase fantasma.
Os servais têm as patas mais longas, em proporção ao corpo, de todos os felinos. Podem atingir cerca de meio metro de altura, correr a 64 km/h e saltar até três metros. São características essenciais para caçar pequenos mamíferos, répteis e anfíbios, mas também para escapar a predadores como leopardos, hienas e cães-selvagens-africanos.
As orelhas são outra das suas armas, aponta a BBC. Relativamente ao tamanho da cabeça, são as maiores entre todos os felinos e contam com 22 músculos, permitindo ao animal rodá-las de forma independente até 180 graus. Esta capacidade ajuda o serval a localizar presas escondidas na erva alta ou mesmo debaixo do solo.
Combinadas com as patas poderosas, estas adaptações tornam-no um dos caçadores mais eficazes entre os felinos selvagens: enquanto leões e leopardos têm sucesso em cerca de um terço das tentativas, os servais conseguem capturar presas em mais de 50% dos ataques.
Durante muito tempo, pensou-se que os servais-pretos estavam sobretudo associados a zonas florestais densas acima dos 2.000 metros de altitude, como as montanhas Aberdare, no Quénia, ou as terras altas da Etiópia. Nesses ambientes, a pelagem escura poderia funcionar como camuflagem nas sombras da vegetação.
Mas a descoberta de um número invulgar de servais-pretos nas pradarias secas do ecossistema de Tsavo, a maior área protegida do Quénia, veio baralhar essa explicação.
Um levantamento realizado entre 2011 e 2016 pela Sheldrick Wildlife Trust e pela Wildlife Works concluiu que 47% dos avistamentos de servais naquela região envolviam indivíduos melanísticos.
A razão continua por esclarecer. Pode tratar-se de um enviesamento de observação, já que os animais negros talvez sejam mais fáceis de detetar naquela paisagem aberta. Outra hipótese é uma simples flutuação genética aleatória. Há ainda a possibilidade de a mutação estar associada a vantagens invisíveis, como melhor regulação térmica ou maior resistência a doenças.