Há zonas em que as forças da Rússia estão a aumentar o número de ataques, tendo como grande objetivo conquistar todo o Donbass

A Rússia continua a avançar lentamente na região de Donetsk, no leste da Ucrânia, onde concentrou a maior parte das suas tropas, enquanto prossegue os esforços para cercar a cidade-chave do “cinturão de fortalezas” de Kostyantynivka e a cidade de Lyman.

Mas especialistas externos e soldados ucranianos que falaram à CNN dizem que as alegações de avanço da Rússia são exageradas e surgem numa altura em que o Kremlin está provavelmente a tentar conceber uma narrativa de sucesso para contrariar o impacto dos recentes ataques ucranianos dentro da Rússia.

A agência de notícias estatal russa TASS afirmou esta segunda-feira que as forças russas tinham “obtido o controlo total” da parte leste de Kostyantynivka e chegado aos arredores a nordeste.

Na realidade, partes da cidade tornaram-se uma “zona cinzenta” disputada – sem que nenhum dos lados a controle – de acordo com o think tank Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), sediado em Washington.

“São infiltrações, não avanços. São grupos de talvez um ou dois homens, militares russos, a entrar em algumas posições na cidade… não é uma posição consolidada”, garante Kateryna Stepanenko, chefe da equipa da ISW na Rússia, que descreve a tática como lenta e desgastante. “Ainda precisam de bastante tempo e muitos recursos para realmente transformar isto em posições consolidadas”.

Soldados ucranianos na linha da frente garantem à CNN que a situação está a piorar, embora seja controlável e os movimentos da Rússia ainda sejam extremamente lentos.

“A situação no setor de Kostyantynivka, particularmente na própria Kostyantynivka, tem vindo a deteriorar-se visivelmente nas últimas semanas”, nota Kostiantyn Melnykov, oficial de imprensa da 24.ª Brigada Mecanizada da Ucrânia, que combate na cidade vizinha de Chasiv Yar, à CNN. “O inimigo está a aumentar o número de ataques aéreos neste setor.”

O objetivo da Rússia é tomar toda a região de Donbass, na Ucrânia, que contém o “cinturão de fortaleza” de cidades industriais, caminhos-de-ferro e estradas que formam a espinha dorsal da defesa do país e abastecem a linha da frente. Isto inclui a captura de Kostyantynivka e dos povoados vizinhos – algo que parece ser o principal objetivo da Rússia por enquanto.

Mas Melnykov acrescenta que as unidades ucranianas na zona estão a matar as tropas russas, a destruir equipamento e a “conter as forças inimigas, que são muito superiores”.

A estratégia da Rússia tem sido enviar pequenos grupos de infantaria – aqueles que sobrevivem aos avanços – para se infiltrarem na cidade. É a mesma tática que Moscovo usou para tomar a cidade ucraniana de Pokrovsk no início de 2026, uma batalha que se estendeu por meses após a infiltração das tropas russas na cidade e foi caraterizada por muitas declarações prematuras de captura.

Em alguns casos, as forças ucranianas avistaram um único soldado russo a avançar, de acordo com Yuriy Madyar, comandante adjunto interino do 19.º Corpo do Exército da Ucrânia, numa entrevista à emissora nacional ucraniana Suspilne na semana passada.

A CNN não conseguiu verificar a situação no terreno de forma independente.

Há várias razões pelas quais a Rússia está a intensificar as suas missões de infiltração. Um comandante russo publicou no Telegram esta terça-feira que as suas forças conseguiram avançar utilizando a cobertura da vegetação de verão. As boas condições meteorológicas também facilitam o voo de drones – embora isto também seja verdade para a Ucrânia.

E há relatos de que o Kremlin impôs um prazo até setembro para a tomada da região de Donbass, embora o ISW tenha avaliado que é improvável que a Rússia atinja esse objetivo.

“O mais importante é que querem declarar vitórias informativas. Os russos estão a enfrentar muitas vulnerabilidades neste momento”, sublinha Stepanenko, citando os recentes ataques da Ucrânia às infraestruturas na Crimeia ocupada pela Rússia, na Kherson ocupada e noutros locais. “As infiltrações são uma das formas através das quais a Rússia consegue fazer estas grandiosas declarações de vitórias sem, de facto, atingir plenamente os seus objetivos.”

É provável que alguns elementos dos alegados avanços russos sejam falsos. Segundo o ISW, “as autoridades russas intensificaram recentemente a sua campanha para utilizar imagens provavelmente alteradas por inteligência artificial para reforçar as suas alegações exageradas de sucessos russos perto do cinturão da fortaleza da Ucrânia, na região de Donetsk”.

Por exemplo, o Ministério da Defesa da Rússia publicou um vídeo das suas tropas a hastear uma bandeira em Lyman, cuja veracidade o ISW afirmou não ter conseguido verificar, acrescentando que “há razões para acreditar que as imagens possam ter sido alteradas por inteligência artificial”.

Em Lyman, as forças ucranianas estão de facto a observar “uma intensificação significativa da atividade”, particularmente a norte da cidade, de acordo com o porta-voz das Forças Armadas da Ucrânia, Viktor Tregubov, numa entrevista aos meios de comunicação locais. Mas Tregubov insistiu que as forças ucranianas têm conseguido repelir o avanço inimigo.

Após ataques contra redes logísticas russas na região, Tregubov declarou à Suspilne que “parece que eles [os russos] estão a tentar obter alguns resultados antes que a situação logística, incluindo o fornecimento de combustível e lubrificantes, comece a afetá-los de facto”.

Campanha de ataques de longo alcance da Ucrânia

Entretanto, Kiev intensificou os seus ataques com drones de longo alcance contra grandes cidades russas.

Na madrugada de domingo para segunda-feira, a Ucrânia atacou a área metropolitana de Moscovo pela terceira vez na última semana.

O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou já esta terça-feira que as Forças Armadas da Ucrânia “estão a atacar infraestruturas civis com drones numa tentativa de desestabilizar a sociedade russa”, segundo a agência TASS.

Esta declaração surge depois de a Ucrânia ter atingido uma instalação petrolífera nos arredores de Moscovo na semana passada – um ataque de grande escala que exigiu uma resposta imediata da defesa aérea russa, e durante o qual um míssil de defesa russo aparentemente falhou o alvo e explodiu acidentalmente a tampa de um tanque de armazenamento de petróleo.

Apesar disso, Putin demonstrou confiança nos objetivos de guerra da Rússia, acrescentando: “Chegaremos onde precisamos de chegar”.

A Crimeia transformar-se-á numa ilha

Kiev também intensificou os seus ataques a alvos na Crimeia – a península ucraniana ocupada pela Rússia desde 2014 – nos últimos dias, destruindo uma ponte ferroviária sobre o Canal da Crimeia do Norte e atingindo um depósito de petróleo durante a madrugada desta terça-feira.

A maior cidade da Crimeia, Sebastopol, ficou sem energia nesta quarta-feira, após os ataques ucranianos à principal subestação elétrica, segundo Mikhail Razvozhaev, governador de Sebastopol nomeado pela Rússia. Duas pessoas ficaram feridas nos ataques ocorridos durante a noite, disse Razvozhaev.

As autoridades locais da Península da Crimeia – um destino popular de férias de verão para os russos – cancelaram campos de férias para crianças nos últimos dias e suspenderam todas as atividades desportivas ao ar livre até novas ordens.

Durante o fim de semana, as autoridades informaram que quatro pessoas morreram e 28 ficaram feridas em ataques com drones ucranianos.

A Marinha da Ucrânia afirmou ter atingido vários ferries utilizados para transportar equipamento militar russo para a península, deixando-os fora de serviço.

“Essencialmente, a Crimeia está a ser isolada por drones. E, num futuro próximo, tudo indica que a Crimeia se vai transformar numa ilha”, alertou o ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, numa entrevista à imprensa local na semana passada.

Victoria Butenko contribuiu para esta reportagem