Dores persistentes nos testículos costumam ser associadas a infecções bacterianas, traumas, hérnias ou cirurgias prévias. Mas uma nova revisão conduzida por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP levanta uma hipótese que pode ampliar a investigação desses casos: infecções virais também podem estar relacionadas à dor crônica na região escrotal.
Publicado na revista Basic and Clinical Andrology, o estudo revisou 61 trabalhos sobre a presença de vírus e seus possíveis efeitos sobre os testículos, o epidídimo (estrutura ligada aos testículos responsável pelo amadurecimento dos espermatozoides), a fertilidade e a dor persistente.
Os dados apontam para uma associação possível, porém faltam estudos para verificar se há uma relação de causa e efeito.
O que é a dor crônica do conteúdo escrotal?
A dor crônica do conteúdo escrotal é caracterizada por um desconforto persistente ou recorrente nos testículos ou estruturas próximas. O problema pode durar meses ou anos e, em alguns casos, comprometer o sono, a prática esportiva e a vida sexual, entre outras atividades.
O diagnóstico costuma ser um desafio. A própria pesquisa destaca que até metade dos casos permanece sem uma causa claramente identificada.
Dor escrotal crônica pode durar meses ou anos e comprometer atividades cotidianas Foto: Andranik123
“O que mais falha na hora de tratar é a falta de diagnóstico correto”, diz o urologista Jorge Hallak, professor da FMUSP e coordenador do estudo. Segundo ele, muitas vezes a investigação se limita a exames de imagem e ao uso de antibióticos ou anti-inflamatórios, sem uma avaliação mais ampla das possíveis causas.
É justamente nesse grupo de pacientes sem uma explicação clara para a dor que se concentra a atenção dos pesquisadores.
Como infecções virais podem desencadear dor crônica
Entre os vírus analisados no estudo estão o SARS-CoV-2, causador da covid-19, HIV, zika, herpes e hepatite B. Alguns deles, como zika, herpes e HIV, já foram relacionados a alterações testiculares capazes de comprometer a capacidade reprodutiva masculina, segundo Zein Mohamed Sammour, coordenador do Departamento de Infecções, Inflamações e ISTs da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).
A revisão aponta que algumas infecções virais podem estar relacionadas ao surgimento ou à manutenção da dor escrotal crônica. A hipótese é que a inflamação provocada por esses vírus torne os nervos da região mais sensíveis e prolongue a resposta dolorosa.
Um dos mecanismos que pode estar por trás desse processo é a chamada degeneração Walleriana, em que há lesão e deterioração das fibras nervosas após inflamações ou outros tipos de agressão aos nervos. Com isso, os nervos passam a transmitir sinais de dor com mais facilidade, mesmo depois que a infecção inicial já desapareceu.
Hallak compara o fenômeno a um fio elétrico sem proteção. “É como se você desencapasse um fio. Você tira a proteção do fio e ele passa a dar choque”, explica.
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Os autores ressaltam, porém, que essa relação ainda não foi comprovada de forma definitiva. Embora existam evidências biológicas e clínicas que sustentem a hipótese, faltam estudos capazes de demonstrar diretamente que infecções virais provoquem esse tipo de alteração nervosa em pacientes com dor escrotal crônica.
“As infecções virais muitas vezes passam despercebidas e não são tão incomuns assim”, diz Hallak. Segundo o pesquisador, novos estudos já estão em andamento para aprofundar a compreensão dos efeitos dessas infecções sobre o sistema reprodutor masculino.
Para Sammour, a hipótese é plausível e merece ser investigada mais a fundo. Com o avanço das pesquisas e sua eventual confirmação, ela poderá ser incorporada gradualmente à prática clínica.
A importância do exame físico e do autoexame
Além de discutir a hipótese viral, Hallak defende uma mudança na forma como homens e profissionais de saúde lidam com sintomas testiculares.
Segundo ele, qualquer desconforto na região deve ser investigado precocemente, mesmo quando ainda não existe dor intensa. “O desconforto vem antes da dor. Quando já existe dor, muitas vezes o processo está mais avançado”, afirma.
O pesquisador recomenda que os homens realizem regularmente o autoexame testicular durante o banho, preferencialmente com água morna ou quente para manter o escroto relaxado. O procedimento consiste em palpar delicadamente os testículos com as duas mãos, sem apertar.
A orientação é procurar avaliação médica caso seja percebido qualquer desconforto, alteração de consistência ou mudança de volume.
Hallak também faz uma crítica à pouca valorização do exame físico na prática clínica. Segundo ele, a palpação dos testículos continua sendo uma etapa fundamental da avaliação urológica. “Não é admissível o urologista não palpar o testículo”, critica.
Para o especialista, exames de imagem são importantes, mas não substituem uma avaliação clínica completa. Em muitos casos, é justamente o exame físico que fornece as primeiras pistas para identificar infecções, inflamações ou outras alterações responsáveis pelos sintomas.