O documentário sobre os “963 Dias” do governo Michel Temer (MDB), previsto para estrear nos cinemas, em dez capitais brasileiras, a partir de setembro deste ano, rebate a narrativa de golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), defende as reformas promovidas pela gestão, como a revisão das leis trabalhistas, e apresenta o político como vítima de uma trama de Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, e Joesley Batista, empresário da JBS que delatou suposto pedido de compra de silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha.

O filme foi exibido em avant-première nesta sexta-feira, 26, apenas para convidados, em três salas reservadas do Cinépolis do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo. Aparecem entre os entrevistados os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, além de ex-integrantes do governo e conselheiros políticos.

Nada de Janot e Cunha, no entanto, e nem de petistas na tela. O diretor Bruno Barreto, que tem em seu currículo o filme “O que é isso, companheiro?”, de 1997, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, afirma ter chamado o ex-ministro José Dirceu, mas ele não aceitou o convite. Os contrapontos, quando presentes, ficaram a cargo de jornalistas e da solitária deputada Tabata Amaral (PSB), que admite a certa altura não concordar com o que Temer pensa em muitas coisas, mas o vê como um “estadista”.

— Eu tive toda a liberdade e, até por contrato, tinha direito a retirar meu nome do filme se a minha versão não fosse respeitada — afirmou Barreto. — Chamei as pessoas do PT, elas não quiseram, mas, para dizer a verdade, eu não estava interessado em ouvir ninguém que vai ficar repetindo uma cartilha ideológica, eu estava interessado em pessoas complexas. A minha meta foi fazer o espectador pensar, eu quero que as pessoas saiam instigadas desse filme, e não convencidas de nada.

Temer, por sua vez, disse após a sessão que não esperava “tanta fidelidade” e que o filme não é “chapa branca”, porque abordou em vários momentos o movimento Fora Temer, uma série de protestos organizados pela esquerda. A maioria das entrevistas do documentário foram realizadas em frente a painéis com frases positivas que lembram manchetes de jornais, como a de que o país “teve a primeira alta no PIB desde 2014” durante o seu governo.