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Muito boa noite. Joga-se agora o minuto 90 na Rádio Observador. Eu sou o Fortunato Oliveira. Estamos a acompanhar os minutos finais do Argélia-Áustria e do Jordânia-Argentina. Sempre atento a estas duas partidas esteve e está o jornalista Diogo Varela, aqui comigo em estúdio. Diogo, vamos ao relato desses minutos finais destas duas partidas que fecham as contas da fase de grupos deste mundial.
Olá, Hugo, boa noite. Já só faltam duas vagas para esses 16 avos de final do Campeonato do Mundo e há três seleções para apenas duas cadeiras: Argélia, Áustria e Irão. Como já certamente terão percebido, duas delas estão a jogar precisamente frente a frente. O Irão é a equipa que vai espreitando a possibilidade de resgatar o último bilhete para os 16 avos de final, mas para isso precisa que haja um desaire entre Argélia e Áustria. É aqui que entra uma matemática um bocadinho complicada, Hugo. Obviamente, não vou pôr em causa a idoneidade destas duas seleções e, do que eu estou a ver, ambas estão a tentar jogar para ganhar. Mas a verdade, e para que os nossos ouvintes percebam de forma um bocadinho mais simplificada, o que está aqui em causa? No grupo J, a Áustria está agora no segundo lugar com quatro pontos, a Argélia está no terceiro, também com quatro pontos. O Irão ficou em terceiro com três, ou seja, o Irão não consegue ter pontualmente pontos, passe a redundância, suficientes para ser o oitavo melhor terceiro classificado. É a Argélia. Só que uma vitória ou de Áustria ou de Argélia faria com que essa seleção tivesse seis, a outra ficaria com dois. Portanto, havia uma seleção que passava e a outra era eliminada, e o Irão podia sonhar. Só que com o empate da Áustria com a Argélia, que é o resultado que se verifica, ambas passam. Ou seja, o empate beneficia literalmente as duas seleções. É aqui que naturalmente este alargamento da FIFA a 48 seleções traz o lado bonito e até estávamos a falar há pouco em off, Hugo, de casos como é a situação de Cabo Verde, uma seleção estreante que chega pela primeira vez a um Campeonato do Mundo e até já está nos 16 avos de final com três empates, é certo, mas conseguiu com muito mérito. Só que depois tens este caso, em que nos últimos jogos da fase de grupos, há duas seleções que se empatarem, beneficiam do empate e até compensa mais o não risco, ambas empatarem e sabem que vão estar na próxima fase, do que tentar ganhar o jogo, poderem perder e depois serem eliminadas. Portanto, é aqui uma correção, um apontamento que também deixo à própria FIFA em termos de organização daquilo que é a fase de grupos, até porque depois acabas por ter uma seleção do Irão que não está em campo, precisa naturalmente de um desaire de uma equipa alheia, só que é um desaire que não beneficiaria nem a Argélia nem a Áustria. E depois, Hugo, ainda há aqui um outro fator, que já vai além de tudo isto que acabei de vos dizer, a ti e aos ouvintes, que é: a Áustria está em segundo com este empate, a Argélia em terceiro, e neste momento, olhando para o cruzamento dos 16 avos de final, a Áustria ficando em segundo, hipoteticamente, é mais favorável do que ficar em terceiro. Só que se olharmos ao cruzamento da próxima fase, a seleção da Áustria apanharia a Espanha e a Argélia ficaria com a Suíça. Ou seja, mesmo o segundo lugar não é assim tão vantajoso quanto o terceiro. Mas enfim, são aqui depois outros cruzamentos que teriam que ser feitos e que vão ser feitos, mas vale o que vale. A verdade é que neste momento a Argentina lidera o grupo com três jogos, três vitórias, já está a bater a Jordânia por três bolas a uma e com gol claro do inevitável Lionel Messi. Veio do banco e apontou um gol de livre direto para também aqui deliciar as bancadas deste Argentina-Jordânia. Nesse outro jogo, mantém-se o empate entre a Argélia e a Áustria. Já só faltam, Hugo, dois minutos para acabar esse jogo. Estamos aqui nesse tic tac final para perceber de que forma, ou como, neste caso, irá terminar o Argélia-Áustria, recordando que o empate é favorável a ambas e se assim terminar, as duas seleções seguem em frente para os 16 avos de final. A Áustria, no segundo lugar, a marcar confronto com a Espanha, a Argélia no terceiro e a marcar embate com a Suíça.
E o Irão fica então pelo caminho.
O Irão fica pelo caminho. É isso mesmo, Hugo. Atenção! Vai dar gol e é gol! Gol da Argélia, marca Riyad Mahrez e estraga as contas todas e dá também esse alento à seleção iraniana. Marca a Argélia, elimina a Áustria a um minuto de acabar o jogo. Inacreditável.
Tudo se mudou.
Sim, tudo muda. A Argélia vai para segundo lugar do grupo, passa, vai jogar contra a Espanha e dá essa última vaga possível ao Irão Que encontra a Suíça na próxima fase. O Irão é aqui duplamente beneficiado, vamos assim dizer, não só por continuar em prova, mas também por apanhar uma seleção teoricamente mais acessível, se compararmos a Suíça à Espanha, isto num plano teórico, como é óbvio. Marca Riyad Mahrez aos 90 mais quatro e elimina a Áustria. Lá está, Hugo, aquilo que eu te dizia. O risco de às vezes quereres tentar ganhar um jogo e poder acontecer isto, saíres a perder, na ótica da Áustria, num empate em que ambas estavam qualificadas, marca a Argélia, está no segundo lugar e qualificada. Só que a Áustria cai para terceiro e com dois pontos já não está qualificada. Com dois não, com três, mas é indiferente.
Sim, não faz diferença nas contas finais.
Sim, não faz diferença porque a Áustria neste momento tem três pontos, só que tem um saldo negativo de menos um entre gols marcados e sofridos. O Irão tem os mesmos três, mas tem um saldo nulo, portanto é o Irão que beneficia enquanto melhor terceiro classificado. Faltam segundos para acabar os jogos, a Jordânia com a Argentina e a Argélia com a Áustria. Bem, incrível esta reviravolta, Hugo. Incrível mesmo.
Um jogo que nos últimos segundos acabou por surpreender.
Atenção, Áustria! Marca a Áustria. Marca a Áustria, empata novamente a partida.
E está tudo na mesma.
É sensacional.
Como estava quando entramos aqui em estúdio.
É sensacional.
E assim o Irão, afinal…
Fora. O Irão vai fora. Marca a Áustria e voltam a estar ambas dentro. A Argélia já estava, mas reentra a Áustria também na corrida. Bem, inacreditável. Este é, Hugo, o minuto 90 mais dramático que eu apanhei. É que tu tens uma seleção a estar fora, outra a estar dentro, e agora a que estava dentro sai e a que estava fora entra.
Foram minutos em que o Irão foi feliz.
Inacreditável. Sim, o Irão sai aqui como o vilão. Uma seleção que passou, portanto, e aqui já estamos a falar até extra futebol, por estar a jogar também em território norte-americano, e sabemos que há esse conflito extra futebol entre o Irão e os Estados Unidos, e não só, mas sobretudo entre estes dois países. O Irão, que tanto se queixou da forma como foi tratado neste Campeonato do Mundo, estava aqui à espreita, numa última esperança de ainda poder resgatar e acaba o jogo. Acaba o jogo.
Apito final.
Apito final, creio eu. Ou não?
Não consigo também perceber.
Eu penso que o gol ainda está em análise.
Vamos fazer um compasso de espera para saber.
Está validado. E acabou. Acabou! Estão ambas qualificadas. Argélia e Áustria seguem em frente para os 16 avos de final. O Irão falha a possibilidade de ser o terceiro último classificado. Hugo, ficamos por aqui com este final dramático.
Fica por aqui este 90 com este final dramático. Muito boa noite, estamos de volta ao Minuto 90 agora para fazer a crônica. Vamos às notas dessa crônica, Diogo Varela. Começamos pela Argélia-Áustria. Qual foi a tua pérola?
Olá, Hugo. A minha pérola vai para Riyad Mahrez, ele que acaba por ser também o nome maior, não só é o capitão da Argélia, mas é também o jogador de maior destaque em toda a dimensão futebolística. Marcou dois gols, deu muita esperança à seleção argelina, sobretudo com o gol ao minuto 90 mais três, suficiente para a Argélia seguir em frente no terceiro lugar, podia ter sido no segundo, mas Mahrez a levar esta pérola.
Passamos então da pérola para o joker, o improvável.
Era o improvável. Sacha Kalajdzic, aqui o ponta-lança da Áustria, o verdadeiro pinheiro, como se diz na gíria do futebol, tem dois metros de altura. Acaba por ser ele a apontar esse gol aos 90 mais sete, numa altura em que a Áustria estava fora do Campeonato do Mundo e com o gol de Kalajdzic voltou a estar dentro, passou de terceiro para segundo lugar e qualificou-se de forma direta para a próxima fase.
E terá sido essa a tua sentença ou nem por isso?
Olha, é assim, em termos de sentença, eu acho que nós tivemos um daqueles jogos, Hugo, que nem o mítico Alfred Hitchcock teria realizado, produzido. Porque para que os nossos ouvintes também tenham aqui o contexto, a Argélia quando marca aos 90 mais três, ou seja, na altura fez o 3 x 2, fez com que a Áustria caísse para fora do Campeonato do Mundo, o Irão ficasse dentro e a Argélia continuava dentro. E eu digo continuava porque o empate colocava as duas seleções dentro e era o resultado que se verificava, 2 x 2. Só que a Argélia ao fazer o 3 x 2 continuava a estar dentro, mas a eliminar a Áustria e a colocar o Irão dentro. Noventa mais três. Aos 90 mais sete, a Áustria ainda faz esse gol, do 3 x 3, que volta a colocar a Áustria dentro, o Irão fora e a Argélia mantinha-se dentro para todos os efeitos. Mas é, de facto, uma ponta final perfeitamente louca em que o Irão estava dentro, aliás, estava fora, depois esteve dentro e acabou fora.
A saltar fora.
E a Áustria, pronto, estava dentro, ficou fora, acabou dentro e, portanto, foi de facto, Hugo, uma ponta final inacreditável. Em termos de sentença propriamente dita, as duas ficaram dentro com a Áustria a seguir no segundo lugar da tabela e para olharmos também já para os 16 avos de final, a Áustria vai medir forças com A seleção da Suíça, a Argélia irá… Não, mentira. A Áustria vai medir forças com a Espanha, assim é que está correto, e a Argélia vai medir forças com a Suíça na próxima fase da competição, ou seja, nos 16 avos de final.
E a fechar, a mentira.
A mentira eu vou ter que atribuir à FIFA, por tudo o que já expliquei. Ou seja, entramos aqui no último jogo da fase de grupos, em que tu tens uma seleção como o Irão, que está ali em standby, à espera do que este jogo podia dar entre a Argélia e a Áustria. Só que entras um bocadinho naquela história de: vais para um jogo de futebol em que se ganhares, estás dentro, se perderes, estás fora, mas se empatares, estás dentro na mesma. Ou seja, há aqui uma matemática um bocado mentirosa, em que o empate beneficiava ambas as seleções e no fundo, foi isso que aconteceu. O jogo acabou com o 3 x 3, ambas ficaram qualificadas e o Irão, de forma ingrata, diz adeus ao Campeonato do Mundo. Portanto, a minha mentira vai mesmo para a forma matemática como chegamos a este último jogo e um empate beneficiaria as duas seleções, ao invés de uma vitória poder ser positiva, também era, mas o empate acabou por ser mais benéfico para ambas.
Está feita esta primeira crônica. Já a seguir a crônica do Jordânia e Argentina, também com o Diogo Varela.