
Durante décadas, pensava-se que o parto humano era excecionalmente difícil em comparação com o dos restantes primatas. No entanto, um novo estudo sugere que muitos outros primatas também enfrentam constrangimentos anatómicos durante o nascimento.
Um diagrama elaborado por um investigador da década de 1940 moldou, durante décadas, a forma como os cientistas compreenderam o parto ao longo da evolução dos primatas. A ilustração mostrava um encaixe muito apertado entre a cabeça de um bebé humano e o canal de parto da mãe, contrastando com o espaço observado noutros primatas.
Essa imagem ajudou a consolidar a ideia de que o parto humano era excecionalmente difícil, como consequência evolutiva da combinação entre cérebros de grandes dimensões e uma pélvis adaptada à marcha bípede.
Num novo estudo, publicado esta segunda-feira na Nature Ecology & Evolution, os investigadores concluíram que as medições subjacentes a esse diagrama utilizavam métodos desenvolvidos para a anatomia humana, que não eram diretamente comparáveis entre espécies.
Após corrigirem essas diferenças metodológicas e alargarem a análise de oito para 29 espécies de primatas, verificaram que o parto humano continua a estar entre os mais restritos, mas deixa de ser um caso único.
Segundo a New Scientist, no caso dos macacos-esquilo, os modelos indicaram que a área de secção transversal da cabeça dos recém-nascidos pode ser quase o dobro da área de abertura pélvica materna.
Para chegar a estas conclusões, equipa construiu modelos tridimensionais com base em dados da pélvis e do crânio de 130 fêmeas adultas pertencentes a 29 espécies de primatas, adaptando as medições à anatomia específica de cada espécie e à posição do feto durante o parto.
Os primatas de menor porte tendem a dar à luz crias relativamente maiores e apresentam entradas pélvicas mais estreitas. Os macacos-esquilo e os galagos revelaram alguns dos casos mais extremos de restrição anatómica.
Ainda assim, entre os símios atuais, os seres humanos continuam a apresentar o maior grau de restrição entre o recém-nascido e o canal de parto.
Contudo, um encaixe anatómico apertado não significa necessariamente um parto mais difícil ou mais arriscado. Fatores como a posição do feto, a elasticidade dos tecidos moles, a flexibilidade temporária da pélvis e a forma do crânio do recém-nascido também influenciam o sucesso do parto.
Alguns primatas parecem ter desenvolvido adaptações que ajudam a contornar um canal de parto estreito. Em determinadas espécies, os ligamentos pélvicos relaxam durante o trabalho de parto, aumentando temporariamente o espaço disponível para a passagem da cria.
Em suma, o parto humano continua a ser um dos mais restritivos entre os símios, mas este estudo desafia a ideia de que os constrangimentos obstétricos sejam exclusivos da nossa espécie.