A cena é clássica. Você encontra uma música, apaixona-se pela melodia, pelos acordes, pela letra e pelo vocal e passa a ouvi-la no modo repeat. Se a escuta acontece sem fones de ouvido, a canção vira uma tortura para quem está ao redor, mas fica cada vez melhor para quem a botou para tocar.
De repente, você sabe a letra de cor e salteado, espera ansiosamente pelo refrão e pode até se emocionar ao ouvi-la aleatoriamente no rádio ou na playlist de um amigo. Esse comportamento pode parecer típico da adolescência, mas a verdade é que há ciência por trás dele.
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Diferentes estudos apontam que a música ocupa um lugar privilegiado no cérebro humano, pois consegue conectar emoções e identidade de uma forma que poucos estímulos conseguem. É por isso que algumas canções se tornam a trilha sonora de diferentes fases da vida.
Artigo publicado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 2013, mostrou que a música ativa diferentes regiões do cérebro ao mesmo tempo, incluindo áreas responsáveis pela audição, memória, emoções e atenção.
Essa combinação ajuda a explicar por que uma canção desperta lembranças tão intensas. Bastam alguns segundos de uma música marcante para reviver momentos da infância ou de um relacionamento, como se o cérebro acessasse novamente aquelas memórias.
A relação entre música e prazer também já foi demonstrada por pesquisadores do Instituto Neurológico de Montreal, no Canadá. Estudo publicado na revista Nature Neuroscience, em 2011, mostrou que ouvir uma música capaz de provocar arrepios aumenta a liberação de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer.
Especialistas ouvidas pela reportagem corroboram essas descobertas. Coordenadora do curso de Psicologia da Estácio BH, Juliana Marcondes explica que o cérebro aciona áreas ligadas ao bem-estar quando ouvimos uma música de que gostamos.
“Com o tempo, o cérebro passa até a ‘esperar’ o refrão ou o trecho favorito, o que torna a experiência ainda mais prazerosa. Além disso, a música também ativa regiões relacionadas à memória e às emoções, por isso ela continua fazendo sentido para nós mesmo depois de muitas reproduções”, destaca.
Ela acrescenta que ouvir uma mesma música repetidas vezes também traz sensação de conforto. “Quando já sabemos como a música é, o cérebro faz menos esforço para processá-la e pode aproveitar melhor a experiência. É como reencontrar um amigo querido: mesmo sabendo como será o encontro, ele continua sendo agradável”, compara.
Ao escutar uma canção que gostamos muito, geralmente somos transportados imediatamente para um momento específico da vida. Essa explicação está relacionada ao modo “economia de energia” ativado pelo nosso cérebro.
“Quando vivenciamos algo marcante, como uma viagem de férias, o primeiro beijo ou os domingos na casa da avó, o cérebro não registra apenas o acontecimento, mas também todo o contexto: o cheiro, o clima e, claro, a trilha sonora”, começa a professora de Psicologia do Centro Universitário Arnaldo, Rachel Sette.
Segundo a especialista, o segredo está na anatomia cerebral. “A audição é um dos sentidos com conexões mais diretas com áreas fundamentais do sistema límbico, responsável pelo processamento das emoções. Quando aquela canção toca no rádio ou nos fones de ouvido, ela funciona como uma chave que reativa a mesma rede de neurônios acionada anos antes. Em milissegundos, o cérebro resgata não apenas a lembrança visual, mas também a carga emocional daquele momento. É por isso que o impacto é físico: o coração acelera ou o corpo relaxa quase imediatamente”, explica Rachel.
É bom ouvir músicas tristes quando estamos tristes?
Quem nunca colocou aquela “pedrada” para tocar durante uma dor de cotovelo? É natural buscar músicas melancólicas quando estamos sofrendo, e isso pode, sim, fazer bem.
“Quando ouvimos uma música melancólica estando tristes, nosso cérebro é ‘enganado’ de uma forma positiva. Ele entra em um estado de profunda empatia com a canção, o que estimula a liberação de prolactina, hormônio associado ao conforto emocional. É quase como um abraço químico no cérebro, que traz sensação de acolhimento após a escuta”, sintetiza a psicóloga Rachel Sette.
Ela acrescenta que a música é uma das ferramentas terapêuticas mais potentes para a regulação das emoções. “Quando estamos vivendo um luto ou uma tristeza profunda, muitas vezes a dor é tão grande que as palavras desaparecem. A música funciona como um canal para expressar e validar esses sentimentos. Ela dá contorno à dor. Ao ouvir uma melodia que conversa com o nosso estado emocional, ativamos áreas do cérebro ligadas à empatia”, entende.
Entretanto, é preciso observar se ouvir repetidamente músicas tristes não acaba intensificando o sofrimento. “Se a música passa a aumentar a tristeza, o isolamento, a desesperança ou faz a pessoa permanecer presa à dor, isso merece atenção. O importante é perceber se ela está ajudando ou dificultando o bem-estar emocional”, alerta a psicóloga Juliana Marcondes.
Canções constroem identidade
Gostar de uma música ou estilo musical pode dizer muito sobre nós mesmos. O tipo de canções que escutamos pode influenciar a forma como construímos nossa identidade e contamos a nossa história.
“Durante o desenvolvimento humano existe uma janela, geralmente entre os 10 e os 22 anos, que engloba a adolescência e o início da vida adulta. É nessa fase que o cérebro está esculpindo quem somos, buscando pertencimento social e independência. As músicas que ouvimos nesse período funcionam como referências. Elas ajudam a traduzir sentimentos que ainda não sabemos nomear e favorecem nossa conexão com diferentes grupos, como roqueiros, funkeiros ou amantes da MPB”, pondera a psicóloga Rachel Sette.
Sendo assim, a música representa muito mais do que entretenimento, no entendimento da psicóloga Juliana Marcondes. “Ela faz parte da nossa história, ajuda a regular emoções, desperta memórias e fortalece nossa identidade. Na prática clínica, inclusive, observar a relação que uma pessoa tem com a música pode oferecer pistas importantes sobre como ela enfrenta as dificuldades da vida”, identifica.
Por outro lado, a especialista ressalta que não é possível tirar conclusões sobre a personalidade de alguém apenas com base no gosto musical. “Muitas vezes, a pessoa escolhe determinada música porque ela ajuda a relaxar, dá coragem, conforta ou auxilia a lidar com sentimentos difíceis. A repetição costuma dizer mais sobre o estado emocional daquele momento do que sobre quem a pessoa é”, conclui.