JOSÉ COELHO/LUSA

Lançamento de nova oficina de manutenção de material circulante ferroviário/futura fábrica da Alstom
Mais de 28 milhões de euros, 300 postos de trabalho diretos e 1.000 indiretos, três comboios produzidos por mês para a CP em Guifões. Eis o que se sabe sobre a nova fábrica da francesa Alstom com a bracarense DST.
A nova fábrica de comboios da Alstom, em Matosinhos, no distrito do Porto, construída pela DST, estará pronta em dois anos e vai custar 28,6 milhões de euros, disseram os responsáveis das duas empresas.
Quando a fábrica de montagem estiver concluída, a Alstom refere que serão criados cerca de 300 postos de trabalho diretos e cerca de 1.000 indiretos relacionados com a atividade da fábrica, prevendo-se que o primeiro comboio saia da linha de montagem em 2029, seguindo-se depois um ritmo de “três comboios por mês”.
Em declarações aos jornalistas no final da sessão do lançamento da primeira pedra da fábrica de montagem, que contou com a presença do primeiro-ministro, Luís Montenegro, com o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, e do presidente da CP, Pedro Moreira, quer o responsável da Alstom Portugal, David Torres, quer o presidente da construtora DST, José Teixeira, adiantaram os valores.
Em causa está um investimento de 28,6 milhões de euros na construção do complexo anexo às oficinas da CP – Comboios de Portugal em Guifões (Matosinhos), que segundo o empresário português estará pronto em dois anos (um prazo que a DST quer antecipar) e terá “500 trabalhadores no pico” dos trabalhos de edificação do complexo de 20.000 metros quadrados.
O Complexo Oficinal de Guifões da CP, inaugurado em 1990, tem sido usado sobretudo para manutenção de frotas e recuperação de carruagens, incluindo material Schindler, Sorefame e Arco. O local já acolhe também trabalhos ligados ao chamado Comboio Português, no âmbito do projeto TrainSolutions Portugal, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência.
CP comprou 153 comboios de 450 passageiros para Cascais, Lisboa, Porto
“Os comboios terão três carruagens com capacidade para 450 passageiros, acessos sem degraus, conectividade wi-fi e espaços próprios para cadeiras de rodas e bicicletas”, de acordo com o Ministério das Infraestruturas.
A fábrica da Alstom em Matosinhos, a construir no âmbito da compra de 153 comboios pela CP, vai fabricar 81 automotoras para os suburbanos de Cascais, Lisboa e Porto, sendo os 72 restantes fabricados em Barcelona.
De acordo com o aditamento ao contrato assinado entre a CP, a multinacional francesa Alstom e a portuguesa DST, que elevou o número de encomendas de 117 comboios para 153 (mais 36) e antecipou prazos de entrega, haverá uma distribuição quase igualitária das unidades a construir.
Com estas alterações, o valor do contrato passou de 746 milhões de euros 1.064 milhões de euros, distribuídos entre 2025 e 2031.
A CP também já está a receber 22 automotoras para o serviço regional encomendadas à Stadler.
O Governo já aprovou uma despesa de 584 milhões de euros para a CP adquirir até 20 comboios de alta velocidade para circular nas futuras linhas do país (eixos Lisboa-Vigo e Lisboa-Madrid).
“Preparados para qualquer obra de ferrovia”
“A Alstom escolheu Portugal não só pela posição estratégica do país, mas também pelo talento dos profissionais em Portugal, também pela estabilidade das instituições, também pela solidez que vimos dos planos de investimento e, portanto, pela confiança para fazer investimentos a longo prazo”, disse David Torres na sua intervenção.
Já José Teixeira, durante a cerimónia, defendeu que a tese da sua empresa é que “nem tudo tem de estar na mão do Estado”.
“Está nas nossas mãos a grande parte da responsabilidade por termos empresas inovadoras, cosmopolitas e cultas cumprindo com a sua responsabilidade social para além do que é regulado”, referiu, e garantiu que a DST está preparada “para executar qualquer obra de ferrovia, incluindo o TGV”.
Já o presidente da CP, Pedro Moreira, salientou que a nova fábrica “simboliza investimento, confiança e visão de longo prazo num setor que é essencial para a mobilidade sustentável dos portugueses e sem o qual Portugal jamais conseguirá atingir as metas de redução dos gases de efeito de estufa com as quais se comprometeu”.
Portugal volta a fabricar comboios quase 25 anos depois
Portugal vai, assim, voltar a fabricar comboios, quase 25 anos depois do encerramento da histórica Sorefame, na Amadora, que durante décadas simbolizou a capacidade industrial ferroviária nacional.
A empresa, cujo nome completo era Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas, nasceu na década de 1940 e começou por fabricar equipamentos para barragens, incluindo Castelo de Bode e Belver. Mais tarde, produziu também estruturas metálicas, equipamentos para as indústrias energética, química e petrolífera, e componentes para grandes obras públicas.
A partir da década de 1950, recorda o JE, a Sorefame começou a fabricar material circulante para a então CP — Caminhos de Ferro Portugueses. Das suas linhas saíram locomotivas, automotoras térmicas e elétricas, carruagens, furgões e vagões. A empresa forneceu também o Metropolitano de Lisboa, o Metro do Porto, a Linha de Cascais e operadores ferroviários em países africanos de língua portuguesa.
A Sorefame participou ainda em projetos emblemáticos como a Ponte 25 de Abril e Cahora Bassa, em Moçambique. Na década de 1990, passou a ser controlada pela suíça ABB e esteve ligada à produção dos comboios da Fertagus, dos novos comboios da Linha de Sintra e dos Alfa Pendulares da CP. Já no início do século XXI, a ABB vendeu a sua posição à canadiana Bombardier, que viria a encerrar a fábrica da Amadora em 2004.
O fecho da Sorefame pôs fim a mais de seis décadas de produção nacional de material ferroviário e deixou Portugal sem capacidade industrial para fabricar locomotivas e material circulante. Entre os últimos projetos da empresa estiveram composições para o Metro do Porto e comboios elétricos suburbanos para a região Norte. Na altura, o encerramento foi visto por vários observadores como a perda de uma fileira industrial estratégica.