Prado / Wikimedia

São Pedro, o primeiro Papa da Igreja Católica, óleo de Rubens

As novas consagrações repetem o desafio lançado pela Fraternidade em 1988 e agravam a tensão canónica com Roma, apesar das tentativas de reaproximação feitas pelos últimos papas. Vaticano confirmou excomunhão de bispos tradicionalistas e declara novo cisma com Roma.

A Fraternidade Sacerdotal de São Pio X consagrou na quarta-feira quatro novos bispos sem mandato pontifício, em Écône, na Suíça, desafiando o Papa Leão XIV, que tinha apelado ao grupo para recuar.

Numa cerimónia em Écône, no sudoeste da Suíça, acompanhada por milhares de fiéis de todo o mundo e testemunhada pela AFP, os dois bispos que restavam à Fraternidade consagraram quatro novos bispos: dois franceses, um norte-americano e um suíço.

Ao avançarem sem a aprovação do pontífice, os seis bispos envolvidos incorreram em excomunhão automática, segundo o direito canónico. O Vaticano confirmou esta quinta-feira a excomunhão dos seis bispos envolvidos e classificou o gesto como um ato de natureza cismática.

“Estamos a romper com a Igreja para manter a fé? Esse é um falso dilema. Pertencemos à Igreja, antes de mais, pela fé, pela profissão integral da fé da Igreja”, insistiu o superior-geral da Fraternidade, Davide Pagliarani, na homilia.

A Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, que diz ter cerca de 600.000 fiéis, reúne católicos ultratradicionalistas que se opõem fortemente às reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II, na década de 1960.

Fundado em 1970 pelo controverso arcebispo francês Marcel Lefebvre, o grupo desencadeou uma rutura com o Vaticano ao consagrar quatro bispos sem autorização papal em 1988.

As novas consagrações de quarta-feira decorreram no mesmo local, nos campos junto ao seminário da Fraternidade em Écône, uma aldeia no vale do Ródano, com os Alpes a erguerem-se ao fundo.

As consagrações decorreram durante uma missa em latim, prevista para durar cerca de quatro horas.

“É um dia histórico. Algo muito importante está a acontecer agora; isto não vai ficar por aqui”, disse à AFP Jean-Pierre Stauffer, um fiel de 79 anos.

Stauffer viajou de Genebra para assistir à cerimónia, que começou debaixo de chuva, com uma longa procissão de sacerdotes.

“Pecado de extrema gravidade”

Para a Santa Sé, consagrar bispos sem a aprovação do Papa Leão é um ato direto de insubordinação, que leva à excomunhão automática dos bispos envolvidos.

“Suplico-vos e peço-vos com todo o coração: por favor, recuai!”, escreveu o Papa Leão numa carta dirigida à Fraternidade, classificando o gesto como um “ato cismático”. “Rasgar a túnica inconsútil de Cristo é um pecado de extrema gravidade”, afirmou o pontífice.

A Fraternidade diz estar presente em mais de 75 países, em seis continentes, e contar com mais de 750 sacerdotes.

“Não é um ato de rebelião: é um ato nascido do amor pela Igreja”, disse à AFP o padre Michel Rion, professor de Teologia no seminário de Écône, um dos cinco seminários da Fraternidade no mundo.

“Não há absolutamente nada de cismático ou anti-Igreja nas nossas ações. Esperamos que um dia o Papa veja isso. Para nós, ser cismático é a pior coisa que poderia acontecer; preferíamos morrer a ser cismáticos”, insistiu Rion.

“A Igreja procura constantemente adaptar-se, adaptar a sua mensagem para conduzir as almas ao céu”, mas “adaptou-se demasiado ao mundo”, afirmou.

“Momento histórico”

Apegada a uma interpretação estrita da tradição católica romana, a Fraternidade celebra missas em latim, com os sacerdotes voltados para o altar.

André, um fiel gabonês de 46 anos, residente em Versalhes, em França, disse à AFP durante a cerimónia de quarta-feira: “Este é um momento histórico. Daqui a alguns anos, quase certamente nos dirão que a escolha que fizemos foi a correta”.

Em 1988, o Papa João Paulo II fez um apelo semelhante, mas não conseguiu impedir a Fraternidade de consagrar bispos. Estes foram imediatamente excomungados, mas a sanção foi levantada em 2009 pelo Papa Bento XVI.

O seu sucessor, o Papa Francisco, abriu, a partir de 2015, exceções que permitiram reconhecer confissões e, em certas condições, matrimónios celebrados por sacerdotes da Fraternidade.

A Fraternidade considerou necessária a consagração de novos bispos, argumentando que tinha apenas dois bispos.

Embora influente em certos círculos conservadores, continua a ser um grupo muito pequeno face aos cerca de 1,3 mil milhões de católicos no mundo.