O percurso de Carolina Almeida Cruz não se inicia nos corredores habituais de Silicon Valley ou das grandes consultoras financeiras. Psicóloga de formação, com passagens pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo terreno humanitário na Ásia, fundou em 2012 a Sapana, uma ONGD focada na reinserção social. Mas foi a constatação de que o voluntariado tradicional carecia de métricas de eficácia que a empurrou para uma rutura interna.

Em 2023, ao lado de Carina Abreu, fundou a C-More (The C-More Company). Longe da retórica romântica de “salvar o planeta”, a C-More nasceu como um software de recolha automática e maciça de dados não-financeiros, desenhado para ajudar bancos e multinacionais a gerir o risco operacional e reputacional das suas cadeias de valor. Através de um agente proprietário de Inteligência Artificial, a plataforma traduz sustentabilidade naquilo que o mercado realmente entende: custo de capital, taxas de juro bonificadas e mitigação de perdas. É, no fundo, um poderoso sistema de avaliação de risco que tem em conta fatores objetivos mas muitas vezes difíceis de medir.

Para quem não domina os labirintos da regulação europeia ou dos algoritmos, como é que explica o que faz a C-More, nas suas próprias palavras?

Nós somos uma solução tecnológica que se tornou, ao longo dos últimos três anos, inteligente na coleta de dados não-financeiros para ajudar as empresas a tomarem melhores decisões. Se pensar que, desde os anos 70, os bancos são obrigados a coletar informação financeira, a verdade é que quase não tínhamos mecanismos eficientes para coletar tudo o resto: o chamado dado não-financeiro. As empresas precisam dessa informação sobre si mesmas para beneficiarem de acesso a capital, a investimento, a taxas de juro bonificadas ou para conquistarem grandes clientes cotados em bolsa. A nossa solução é uma parceira de negócio que ajuda, de forma muito inteligente, a estruturar essa informação.

Quando fala em dados não-financeiros, de que exemplos concretos estamos a falar?

Estamos a falar do número de colaboradores que tem na sua empresa, da equidade de género, do modelo de governação em termos de transparência salarial ou das emissões que gasta — que na prática se traduzem, por exemplo, na sua fatura de eletricidade. São todos os dados que as empresas, até agora, não eram obrigadas a reportar.

E que agora, por força da legislação europeia, começam a ser obrigadas. No fundo, a C-More ajuda as empresas a adaptarem-se a um novo labirinto burocrático gerado pelas preocupações ecológicas.

Dizer que são dados ambientais ou ecológicos seria injusto para o nosso trabalho. Trata-se de dados de risco. A nossa empresa percebeu claramente que os clientes utilizavam a nossa plataforma somente para gerir risco — seja ele operacional, reputacional ou financeiro. Quando uma empresa americana gere a saúde e a segurança de toda a sua cadeia de fornecedores, o que ela está a fazer é mitigar riscos de qualidade. Por isso, a C-More tornou-se especialista em dados não-financeiros que, na prática, são dados de risco de negócio.