Muita imaginação, pouco bom senso

A desinformação que as “fake news” sobre vacinação propagam afasta as pessoas das unidades de saúde; especialistas explicam por que acreditar nelas é um risco que não se pode correr

Redação

05 Jul 2026 15:00

Quando desinformação e medo se encontram, apenas uma dúvida é suficiente para causar estragos no campo da vacinação, onde as chamadas “fake news” (notícias mentirosas) têm custado à Saúde Pública a queda nos números da imunização.


 


Para a subsecretária de Vigilância em Saúde da Prefeitura de Ribeirão Preto, Luzia Márcia Romanholi Passos, o resultado é devastador. “A desinformação gera medo e consequente hesitação vacinal. Com isso, as pessoas deixam de procurar pelas vacinas, levando à queda nas coberturas vacinais e ao aumento da circulação de doenças que podem ser controladas e até mesmo eliminadas”, afirma.


 


Quando as coberturas vacinais caem, a ‘imunidade de rebanho’, ou seja, a proteção coletiva que guarda os mais vulneráveis, mesmo sem que eles sejam diretamente vacinados, deixa de existir. Assim, crianças, idosos e pessoas com comorbidades ficam mais expostos e o sistema de saúde, sobrecarregado com casos evitáveis, arca com o custo de uma crise que não precisaria acontecer.


 


Entender como cada fake news funciona é o primeiro passo para deixar de acreditar nela. A tese de que as vacinas enfraquecem o sistema imunológico, tornando o organismo dependente de uma “muleta” artificial, por exemplo, circula com força especial entre comunidades naturalistas. Uma lógica aparentemente sedutora que, exatamente por isso, torna-se perigosa, avaliam especialistas. Segundo Luzia Márcia, o mecanismo real é o oposto. “Vacinas funcionam por estimular o sistema imunológico a criar memória contra patógenos específicos, fortalecendo e não substituindo as defesas naturais”, explica. O que entra no organismo são quantidades muito baixas de fragmentos de microrganismos ou vírus extremamente enfraquecidos, o suficiente para ensinar o sistema imunológico a reconhecer o inimigo e preparar uma resposta rápida, caso ele apareça de verdade.


 


A fake news sobre vacinação mais antiga tem mais de 20 anos e relaciona a vacina Tríplice Viral — que protege contra Sarampo, Caxumba e Rubéola — com autismo. Uma mentira que segue viva, teimosa e perigosa, com intensidade quase igual ao primeiro dia em que surgiu. Nasceu de uma fraude científica publicada em 1998, na conceituada revista médica britânica The Lancet. Desinformação que foi desmascarada, retratada e levou o autor a perder o registro profissional por conduta antiética.


 


Mesmo assim, a desinformação sobreviveu. Atravessou décadas, ganhou novas roupagens nas redes sociais e, hoje, encontra terreno fértil nas conversas de família, nos grupos de WhatsApp ou nas dúvidas ditas em voz baixa antes de vacinar um filho.


 


Mais sofisticada, e mais assustadora para quem não tem familiaridade com biologia molecular, foi a onda de desinformação sobre as vacinas de mRNA contra a Covid-19, como Pfizer e Moderna. A alegação de que essas vacinas “reprogramariam” o DNA humano viralizou em 2021 com uma força proporcional ao desconhecimento científico que explorou. Neste caso, a subsecretária é direta ao desmontar essa teoria: o mRNA não entra no núcleo da célula, não interage com o DNA e é degradado pelo organismo em questão de horas. “O DNA humano é uma estrutura muito complexa, com milhares de genes, que fica no núcleo das células. A vacina contra Covid possui a tecnologia de RNA mensageiro, que não possui a capacidade de entrar no núcleo das células e, portanto, não possui qualquer contato com o DNA ou possibilidade de modificá-lo”, explica Luzia.


 


O que o mRNA faz, na prática, é fornecer uma instrução temporária, para que o corpo produza a proteína spike — proteína de superfície do vírus —, estimulando a produção de anticorpos. Depois disso, o mRNA é destruído. A alteração genética, que tanto se teme, segundo ela, nunca esteve no cardápio.


 



Mentira X Verdade

 


Nem sempre uma fake news apela para o medo do desconhecido. Algumas usam dados reais manipulados para contar histórias falsas, e essas são, em certos aspectos, as mais difíceis de combater.


 


Durante a campanha de vacinação contra a Covid, por exemplo, circularam amplamente gráficos mostrando países com altas taxas de vacinação — Israel, Reino Unido, entre outros — registrando picos de casos e mortes. A conclusão sugeria que a vacina matava. O que os gráficos omitiam, no entanto, era o contexto que muda tudo: esses países vacinaram primeiro os grupos de risco, compostos por idosos, que, por razões naturais, concentram maior mortalidade. E fundamental: os não vacinados morriam em proporção muito maior. “Após a introdução da vacina contra Covid no Brasil, agravamentos e mortes pela doença diminuíram drasticamente. As estatísticas oficiais demonstram esses dados claramente”, ressalta a subsecretária.


 


Havia, também, a teoria da infertilidade. Nascida de uma petição enviada à agência reguladora europeia (EMA) por um médico alemão, a alegação era de que uma proteína produzida pela vacina seria similar a uma proteína essencial para a formação da placenta. O boato se espalhou em grupos de gestantes com uma velocidade que assustou profissionais de saúde do mundo inteiro. A ciência respondeu rápido, afirmando que as estruturas das duas proteínas são completamente diferentes, e a realidade respondeu com dados mostrando que gestações e nascimentos seguiram seu curso normal ao redor do mundo, após a implementação das vacinas. “A vacina contra Covid tem demonstrado extrema importância para as gestantes, principalmente para evitar formas graves da doença”, acrescenta Luzia.


 


Outra fake news da pandemia associou o nome de Bill Gates a um suposto plano de inserção de nanotecnologia nas vacinas para rastrear e controlar a população.


 


Vídeos adulterados mostravam pessoas atraindo imãs e acionando leitores de chip eletrônico após a vacinação. Neste caso, a explicação é simples: uma agulha de vacina não comporta um dispositivo eletrônico. A tecnologia miniaturizada que permitiria algo assim não existe, o que é verificável por qualquer pessoa com acesso a um buscador de internet.


 


Se o campo teórico das fake news é fértil, o campo clínico não é diferente. Professor e Chefe da Divisão de Imunologia e Alergia Pediátrica da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto (FMRP-USP), Pérsio Roxo Junior conhece bem as perguntas que chegam ao consultório quando começa o inverno e as infecções respiratórias aumentam. “Doutor, é importante eu vacinar? Eu nunca fico doente, eu nunca pego gripe”; “no ano passado eu tomei essa vacina e fiquei gripado”. São dúvidas ouvidas com frequência, que, segundo ele, atrapalham o calendário vacinal e impedem que as pessoas tenham acesso à informação segura e científica.


 


A resposta para a segunda pergunta é, segundo ele, “Impossível”, já que a vacina da gripe é inativada, ou seja, o vírus contido dentro dessas vacinas é inativado ou morto. Portanto, a vacina da gripe não tem a propriedade, não tem a capacidade de provocar a gripe, como muitas pessoas acham, esclarece o médico. “A gente toma vacina justamente para não ficar doente, ou seja, ela tem caráter de proteção, de evitar que se adquira determinada doença ou, se a adquirir, que seja uma forma leve, sem complicações”, enfatiza.


 


O que pode acontecer, que costuma ser confundido com gripe, é uma leve reação imunológica ao estímulo da vacina, que dura, no máximo, um ou dois dias. Nada que se compare à semana de cama que a gripe real provoca, com suas complicações potencialmente graves, especialmente em crianças pequenas e adultos com comorbidades. “Vemos muitos casos graves de insuficiência respiratória, tanto em crianças como em adultos, causados pelo vírus da gripe”, alerta Roxo.


 



O que fazer com a dúvida

 


Então, onde buscar informação confiável quando a dúvida aparece?


 


Para Luzia Passos, a resposta é simples. “É muito importante que a população busque por fontes de informação seguras e oficiais e, em caso de dúvida, sempre procure esclarecimentos junto às salas de vacinas”, orienta. As unidades básicas de saúde têm profissionais capacitados para esclarecer qualquer questão sobre o calendário vacinal, tanto de adultos como de crianças.


 


O movimento antivacina não é novo. A novidade é a velocidade da desinformação e a sofisticação visual com que ela se apresenta, além da facilidade com que encontra audiência disposta a ouvir o que confirma seus medos. Como ressaltam os especialistas, nunca foi tão fácil encontrar mentiras bem-produzidas e também nunca foi tão importante não acreditar nelas.