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Não há outro modo de conceber Vivo 76 senão por uma narrativa pujante e por uma ampla contextualização — o documentário é sobre um álbum, mas acaba indo muito além disso. O primeiro ponto é porque o próprio álbum é pujante em si, sendo levado por uma completa inquietude expressiva, cujo retrato, por meio de outras lentes, só poderia se dar se autoinstanciando. O segundo é porque, como todo movimento vigoroso, este é produto de um caldeirão de influências e outros fatores que levaram a tal obra a ser o que ela é. Aliado a esses dois fatores, surge um terceiro e inevitável: a identidade de Alceu Valença. Temos um caso raro em que a essência de uma obra é realmente encontrada, de maneira nítida e intensa, na própria figura de seu criador. No final das contas, Vivo 76 não é sobre uma produção musical, e sim sobre a figura emblemática de Alceu, que se reverbera pelo mundo, em pessoas, em seu trabalho musical e, o melhor de tudo aqui, na própria narrativa deste filme.
O documentário inteiro é sobre uma personalidade e, assim, Lírio Ferreira incorpora esta mesma personalidade no próprio formato de seu longa. Alceu Valença é inventivo, enérgico e espirituoso; Vivo 76 é tudo isso em forma de cinema informativo. Essa completa assimilação da persona de Alceu vê-se na extensão que a sua voz (não a musical) ganha no filme. É como se o longa fosse do próprio Alceu. Trata-se de algo quase inteiramente em primeira pessoa, pois o cantor possui espaço para os seus depoimentos, porém, quando outras pessoas falam, é como se a voz dele ainda estivesse ali. A atmosfera dele reina, e uma das escolhas estilísticas que contribui para isso é a ausência de narração. Não há voz em off descrevendo nada, dado que isso seria um atentado à dinâmica potente e inquietante do longa.
Lírio Ferreira não chega a fazer um filme experimental, a sua engenhosidade está em transformar fatos e informações em, digamos, coisas para serem experimentadas mesmo. Sentir o clima expansivo da cultura hippie, tropical e regionalista; e sentir também a presença performática de Alceu Valença, seja pelo seu lado pessoal ou musical. Para isso, essas experiências se valem do humor e da completa descontração. Não há, neste documentário, aquele clima de grandeza e tributo monumental prestado a um indivíduo. É do descompromisso, de fazer de tudo uma sorridente experiência, que emerge a homenagem a Alceu. O resultado no espectador é de carinho junto com extrema simpatia pelo cantor e, consequentemente, pelo filme.
Como dito, Vivo 76 nunca deixa de ser cinema informativo, e se há essa aura pitoresca durante todo o longa, é porque os eventos informados também são pitorescos. Indo além do álbum-título, é apresentada toda a trajetória de Alceu até então, o que inclui a sua intensa imersão cultural, que abrigou distintos movimentos. Assim sendo, o documentário vai desde grandes cenas artísticas até pequenas e cômicas situações da vida de Alceu. Tudo, no final das contas, ganha uma cara de anedota — e a efervescência de todas essas coisas habita justamente neste olhar de apequená-las.
‘’Pitoresco’’, aliás, é um adjetivo perfeito para caracterizar o filme e seu protagonista (que são simplesmente a mesma coisa). A presença do Alceu atual para as filmagens é teatral e natural ao mesmo tempo. Em vez de ele apenas sentar numa cadeira e relatar o seu passado, ele perambula por aí, aparece em diversos cenários, interpreta números musicais com figurantes enfeitados. Também chama a atenção como os outros entrevistados sempre têm um tipo de enquadramento, posição de corpo, cenário e até saturação de luz que sempre se repete e, assim, se destaca.
Nas entrevistas atuais, Alceu nunca se imobiliza nem abandona o ornamento. Todo momento é momento para evocar seu espírito vibrante e lúdico, isso com um toque de ingenuidade que nunca desaparece. Alceu ganha o Brasil e até extrapola sua presença para além dele, mas sempre mantém uma naturalidade de moleque ou senhor inocente do interior. Há nele uma junção de cosmopolitismo e provincianismo, de efervescência e singeleza, que beira ao inspirador.
- Filme visto na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Vivo 76 (Brasil, 2026)
Direção: Lírio Ferreira
Roteiro: Claudio Assis, Dillner Gomes, Lírio Ferreira
Elenco: Alceu Valença, Katia Mesel, Geraldo Azevedo, Jomard Muniz de Britto, Paulo Bruscky, Charles Gavin, Antônio Carlos Miguel, Carlos Alberto Sion, Júlio Moura, Iracema Ferreira da Silva
Duração: 102 minutos.