Uma equipa liderada por Hiroshi Ohno, do RIKEN IMS (Japão), elucidou por que razão fumar protege contra a colite ulcerosa: metabolitos do tabaco, como a hidroquinona, promovem a colonização do cólon por bactérias orais (Streptococcus), modulando a resposta imunitária e reduzindo a inflamação

Legenda da imagem: Diagrama que ilustra o mecanismo descoberto no estudo. A inflamação intestinal na colite ulcerativa resulta de uma resposta imunológica excessiva das células T auxiliares Th2 (glóbulos brancos). O tabagismo induz a presença de compostos aromáticos como a hidroquinona (pontos vermelhos) na mucosa do cólon. Isto permite que bactérias orais como o Streptococcus (verde) prosperem nessa localização, desencadeando uma resposta imunitária através da ativação de células T auxiliares Th1 (células pretas). As células Th1 suprimem a resposta imunitária Th2, aliviando assim a inflamação e protegendo contra a colite ulcerativa.

Investigadores do RIKEN Center for Integrative Medical Sciences (IMS), no Japão, liderados por Hiroshi Ohno, demonstraram o mecanismo que ajuda a explicar um enigma clínico com mais de quatro décadas: embora o tabagismo aumente o risco de doença de Crohn, parece proteger contra a colite ulcerosa. O trabalho, publicado a 25 de agosto na revista Gut, identifica metabolitos associados ao fumo do tabaco que favorecem a migração e o crescimento de bactérias típicas da cavidade oral no intestino grosso, desencadeando uma resposta imunitária que atenua a inflamação na colite ulcerosa.

Combinando dados clínicos humanos e modelos murinos, a equipa observou que doentes com colite ulcerosa que fumam apresentam, na mucosa colónica, um aumento de bactérias geralmente restritas à boca, nomeadamente do género Streptococcus. Esse padrão não foi detetado em ex‑fumadores com a mesma doença, sugerindo que a exposição ativa ao fumo é necessária para a instalação dessas bactérias na camada de muco que reveste o cólon.

A análise metabolómica revelou níveis mais elevados, em fumadores com colite ulcerosa, de pequenas moléculas produzidas no intestino durante a digestão e pela microbiota. Entre elas, destacou‑se a hidroquinona. Em experiências com ratinhos, a hidroquinona promoveu o crescimento de Streptococcus na mucosa intestinal, suportando a ligação causal entre metabolitos do tabaco e a expansão desses microrganismos no cólon.

Para testar consequências funcionais, os investigadores isolaram dez estirpes de bactérias orais a partir de saliva de fumadores e administraram‑nas, durante cinco dias, a modelos murinos de colite ulcerosa e de doença de Crohn. A administração de Streptococcus mitis mimetizou os efeitos observados com o tabaco: reduziu a inflamação na colite ulcerosa e agravou‑a na doença de Crohn.

A caracterização imunitária indicou que S. mitis induz a expansão de linfócitos T auxiliares do subtipo Th1. Na doença de Crohn, em que a inflamação é impulsionada por respostas Th1, esse reforço agrava o quadro. Na colite ulcerosa, em contrapartida, a resposta Th1 contrabalança uma resposta inicial de tipo Th2, resultando numa diminuição global da inflamação.

Os autores apontam implicações terapêuticas: estratégias que reproduzam o efeito do tabaco sem os seus riscos — elevados para cancro, doenças cardiovasculares e outras patologias —, como intervenções com prebióticos que incluam hidroquinona ou probióticos com estirpes específicas como S. mitis, poderão oferecer alternativas para a gestão da colite ulcerosa. Segundo a equipa, a relocalização de bactérias orais para o intestino e a resposta imunitária subsequente constituem o mecanismo plausível para o efeito protetor observado em fumadores com esta doença.

Referência: Miyauchi et al. (2025) Smoking affects gut immune system of patients with inflammatory bowel diseases by modulating metabolomic profiles and mucosal. Gut, doi: 10.1136/gutjnl-2025-334922

NR/HN/AlphaGalileo

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